sábado, 20 de junho de 2026

CAFÉ?

                                                                                                       *Paulo José de Oliveira

    — Você já tentou colocar açúcar?

    Perguntou quem nunca sentiu o gosto da minha amargura.

    E eu percebi, mais uma vez,
    que as pessoas oferecem receitas
    quando tudo o que temos são feridas.

    Cada um carrega sua própria xícara,
    preparada com os grãos que a vida lhe deu. 
    Alguns aprenderam a adoçar tudo, outros
    descobriram beleza no amargo,
    e há aqueles que bebem o café frio,
    não por escolha,
    mas porque a vida os fez chegar tarde demais.

    Ainda assim,
    todo mundo parece saber exatamente
    como o outro deveria tomar o seu.

    “Esquece.”

    “Segue em frente.”

    “Não vale a pena sofrer.”

    “Se eu fosse você...”

    Mas não são.

    E talvez seja aí que mora o erro.
  
    Porque ninguém sente uma ausência
    com o coração do outro.

    Ninguém atravessa uma madrugada
    com os pensamentos do outro.

    Ninguém conhece a profundidade de uma dor
    olhando apenas para a superfície dela.

    Lembro de algo que
    Fernando Pessoa escreveu certa vez:
    “Cada um de nós é vários.”

    E se já somos desconhecidos para nós mesmos,
    como alguém poderia conhecer por completo
    a tempestade que habita outro peito?

    Talvez seja por isso que tantos conselhos falhem.

    Não porque sejam maus.

    Mas porque nascem de experiências alheias,
    e toda dor possui um idioma próprio.

    O que curou alguém
    pode não curar você.

    O que salvou uma história
    pode destruir outra.

    O que foi remédio numa vida
    pode ser veneno em outra.

    Ainda assim,
    continuamos distribuindo certezas
    como quem distribui café em uma mesa. 
    Sem perceber que algumas xícaras precisam de açúcar,
    outras de silêncio.

    Algumas precisam de companhia.

    Outras apenas de tempo.

    A famosa e sempre citada Clarice Lispector escreveu
    que compreender é uma forma de amar.

    E talvez seja isso.

    Talvez o amor não esteja em dizer
    ao outro como ele deve sentir.
    Talvez esteja em sentar ao seu lado,
    olhar sua xícara pela metade
    e perguntar, com delicadeza:

    “Café?”

    Sem corrigir.

    Sem julgar.

    Sem oferecer respostas prontas.

    Apenas ficando.

    Porque às vezes,
    o que mais cura uma alma cansada
    não é alguém que sabe a solução.

    É alguém que aceita dividir a mesa.




*Paulo José Santana de Oliveira, estudante, cronista e poeta, nasceu em São Luis (MA) em 11 de março de 1999.   Filho de Fábio Nogueira de Oliveira e Gabriela Santos de Santana, estudou no Colégio Santa Teresa, é graduando do curso de Ciências Contábeis da UFMA.   Seus textos carregados de   sensibilidade  onde  extravasa  seus sentimentos,  são publicados regularmente no www.wattpad.com-user-Peraltajs,  com o pseudônimo de Peraltajs. É coautor da obra, O Iguaraense, 175 anos de Vargem Grande (2020), organizada por Jucey Santana e Púcaro Literário IV (2024),    organizado por  Jucey Santana e   João Carlos Pimentel Cantanhede.   Também tem poemas publicados no Jornal de Itapecuru e no blog literário de Jucey Santana: http://juceysantana.blogspot. com/



terça-feira, 9 de junho de 2026

PRÊMIO LITERÁRIO ACADEMIA LUDOVICENSE DE LETRAS, PRORROGA PRAZO DE ENTREGA DOS TEXTOS ATÉ 20 DE JUNHO

                                                                  


PRÊMIO LITERÁRIO ACADEMIA LUDOVICENSE DE LETRAS

 A Academia   Ludovicense de   Letras, anuncia    oficialmente  a prorrogação do prazo   de envio dos        textos, para o   II PRÊMIO LITERÁRIO ACADEMIA LUDOVICENSE DE LETRAS, agora, os interessados têm até o dia 20 de junho, de 2026, para participar da do Prêmio Literário, que busca valorizar o talento local por meio da literatura, com premiação aos 2 (dois) primeiros colocados de cada categorias literárias.

A Academia reforça que a intenção é garantir a participação do maior número possível de pessoas, valorizando cada produção com o tempo necessário para ser elaborada com qualidade. “Nenhum talento pode ser deixado de fora”, destaca o presidente da academia, em comunicado oficial.

Participem!
Novo prazo final para envio dos textos: 20 de julho de 2026.

  

                                     São Luís – MA, 09 de junho  de 2026

                                                 COMISSÃO ORGANIZADORA

 

 

 

sábado, 30 de maio de 2026

FALECEU O PROFESSOR BENEDITO RAPOSO

              

   
                     Uma Lenda na Matemática

                                                   * Jucey Santana

 

         Professor Benedito dos Santos Raposo era uma lenda no Maranhão,   no assunto Matemática. O professor Elon Lages Lima, um dos maiores algebristas brasileiros, em seu livro,   Meu professor de matemática e outras histórias, (1991), faz menção a três grandes   matemáticos maranhenses, Joaquim Gomes de Sousa, Miguel Vieira e o professor Benedito Raposo. 

 

          Assim como Joaquim Gomes de Sousa, “Sousinha” (1829/1864),   o professor Raposo é itapecuruense, nasceu em  4 de abril de 1934. Filho de Antônio Altair Montello Raposo  e Teresa de Jesus Santos Raposo, neto paterno de Raimundo Elesbão Raposo, comandante de barco a vapor do rio Itapecuru e pelo lado materno do libanês Domingos dos Santos Karam Jorge.

 Ainda criança, sua família mudou-se para São Luís, fixando residência no bairro do Anil.   A  avenida em que morou tantos anos,  que passa em frente ao antigo Lítero Recreativo Português  recebeu o nome do seu pai Antônio Raposo.

           Depois da conclusão do ensino médio em São Luís,  seguiu para a cidade de  Belém (PA), fazer vestibular, para o curso da sua escolha,  a Engenharia Civil.  Em Belém residiu com o irmão mais velho o oficial da Aeronáutica Altair Raposo.    Em Belém  começou a dar aulas de matemática, em escolas de 1º e 2º grau. Ao ingressar na Universidade Federal do Pará, iniciou a grande jornada e paixão pela Matemática pura e aplicada. Livros de cálculo diferencial eram resolvidos por ele em um piscar de olhos. Em Belém, conheceu a odontóloga Vera Baganha, filha de um professor do curso, e que se tornou sua esposa, nascendo da união quatro filhos: Anselmo, Alexandre, Andréa e  Aluísio.

              Ao voltar para o Maranhão, foi  nomeado Engenheiro, no Departamento de Estradas e Rodagens – DER, e lá conheceu o Dr. Haroldo Tavares, que o convidou para ensinar na Escola de Engenharia do Maranhão, em instalação. O professor Raposo aceitou e ministrou a primeira aula, aos primeiros futuros engenheiros do Maranhão, e esta primeira aula foi de Cálculo Diferencial e Integral. Daí em diante  a sua vida foi dedicada ao ensino de Cálculo. Todos os engenheiros civis e mecânicos, formados na Escola de Engenharia da UEMA, durante os seus trinta e cinco anos de docência, foram seus alunos.

               O seu maior divertimento era, quando ganhava um livro de matemática,  resolver todos os exercícios dele. Existem inclusive muitas histórias contadas por seus ex-alunos, como, por exemplo, ao mostrarem um exercício com o intuito de o testarem, ele respondeu: Rapaz, este exercício pertence ao livro tal, está na pagina tal e o resultado  tanto.  É um grande mestre,  um verdadeiro ícone do ensino da matemática.

            Uma de suas aulas mais brilhantes é a demonstração do teorema do Caos. A velocidade do seu raciocínio era algo espetacular, nunca se soube de alguém que conseguisse olhar um sistema de seis incógnitas, e de cabeça dar o resultado.

                Como engenheiro civil do Departamento de Estradas e Rodagens – DER tendo como diretor o Dr. José Carlos Duailibe, esteve à frente dos trabalhos de asfaltamento do trecho da estrada de Entroncamento à Chapadinha, ocasião em que passava muito s tempo em Itapecuru Mirim. Teve seu mérito reconhecido na cidade natal, com o nome gravado de uma rua na área residencial.

             O professor Raposo nunca faltou a uma única aula. Ele é um exemplo sabedoria e simplicidade, como todo gênio. Abaixo  algumas  homenagens que recebeu:

          − Turma de Engenheiros Civis “Benedito Santos Raposo” 1973-1978;

          Faixa do Ministério dos Transportes, quando foi diretor do  DER;

          − Medalha de Honra ao Mérito do CREA-MA 2006, como um dos  mais antigos Engenheiros dos Maranhão;

          Troféu de Jubileu de Pérola da Turma  Artur Bastos;

          Placa de Prata em 2012, Clube de Engenharia do Maranhão e CREA-MA  pelos 50 anos de formado;

          Patrono das turmas de Engenharia Civil nos anos de 1990 e 1992

Homenagem do DEMATI-UEMA por nunca faltar uma aula durante 35 anos – 2009.

Honra ao Mérito SECMA – 1995, pelos relevantes serviços prestados a Universidade Estadual do Maranhão.

Placa de Prata pela UEMA e Centro de Ciências Tecnológicas- CCT por relevantes serviços – 1999.

O professor era muito bem humorado, gostava de contar casos hilários dos seus alunos, com resultados incríveis!  Era admirados, por toda a classe acadêmica!

 O professor Raposo, foi convidado para ocupar uma cadeira na Academia Itapecuruense de Ciências e Letras, em 2011, por ocasião de sua fundação, e  em 2012, para  a Academia Maranhense de Ciências.  Declinou do convite de ambas as instituições,  atitude condizente com o seu espírito simples e desprovido de vaidades.

Benedito dos Santos Raposo, faleceu em 30 de maio de 2026, aos 92 anos de idade, deixando viúva, a Senhora Vera Baganha Raposo, filhos, netos e bisnetos.

                         Do livro Itapecuruenses Notáveis (2016) de autoria de Jucey Santana