quarta-feira, 23 de setembro de 2026

LANÇAMENTO DO LIVRO, “DA CASERNA A POESIA”

      

“Ele não é um poeta de assento, é
um poeta de campo”

                                                                    *Larissa Santos 


Assim o descreve a escritora Jucey Santana, ao falar sobre José Antonio dos Santos Raposo, autor de Da Caserna à Poesia, que lançou seu primeiro livro de poesias nesta sexta-feira (18), na Galeria Trapiche, na Ilha de São Luís, Maranhão.
Escritor José Antonio dos Santos Raposo, autografando seu primeiro livro de poesia” Da Caserna à Poesia”. na noite de lançamento na Galeria Trapiche em São Luís. Foto: Larissa Santos A frase parece traduzir o caminho percorrido por José Antonio até chegar à poesia.

Aos 19 anos, ele ingressou na Força Aérea Brasileira (FAB) e passou grande parte da vida entre fardas, missões, viagens e experiências que atravessaram sua trajetória. Agora, aos versos, leva consigo aquilo que viveu. Entre suas experiências, destaca-se a homenagem recebida durante sua formatura como Aspirante a Oficial da Aeronáutica, que lhe rendeu uma honraria entregue pelas mãos do então presidente da República, Marechal Castelo Branco. Hoje, Brigadeiro Intendente da Reserva, José Antônio olha para trás e percebe que, enquanto construía uma carreira na caserna, outro caminho também se desenhava em silêncio. Entre a farda e os compromissos militares, havia um poeta que esperava o momento de sair do papel e encontrar o mundo em forma de livro

Da Caserna à Poesia


Da Caserna à Poesia
é mais do que o primeiro livro de poemas de José Antonio. A obra reúne partes de uma trajetória que ultrapassa a figura do militar e revela um homem que encontrou na poesia outra maneira de olhar para a própria vida.
Embora nascido em São Luís, José Antônio viveu grande parte de sua trajetória
profissional na caserna, espaço que, para ele, representa muito mais do que o ambiente de trabalho. É também um lugar de aprendizados, disciplina, convivência e valores que levou consigo para a vida e para as relações com seus descendentes.
“Na caserna, você tá sempre junto, com seus amigos. Na poesia, você está sozinho”, conta. A frase revela um contraste que atravessa a própria história do autor: de um lado, a vida coletiva e disciplinada da carreira militar; do outro, o silêncio necessário para transformar sentimentos em palavras.

Romance nunca sai de moda

Dizem que todo artista tem sua musa inspiradora. Com José Antonio não seria diferente. O autor não esconde seu lado romântico ao dedicar a obra à mulher com quem divide a vida há dez anos. Noelia Maria é, segundo ele, uma das principais inspirações para o nascimento do livro, a pessoa que o incentivou a dar forma ao poeta que durante tanto tempo permaneceu adormecido. “Ela é uma pessoa amiga, sincera, alegre, carinhosa. Enfim, não só mulher, mas um dos seres humanos mais bonitos que eu já encontrei na minha vida”, emociona-se.

 Foi também por incentivo da esposa que José Antônio decidiu realizar o lançamento em São Luís, seu berço natal, que hoje retorna e vive com ela. A escolha transformou a noite em um reencontro não apenas com a cidade, mas com pessoas que fazem parte de sua história. “Fiz esse lançamento para que as pessoas pudessem compartilhar um pouquinho do meu sonho e do meu sentimento também”, conta o autor.

Quando a farda encontra o poeta


Apesar da rigidez associada à carreira militar, José Antonio sempre carregou uma sensibilidade que deixava escapar, ainda que discretamente, o poeta que existia por trás da farda. Durante a noite de lançamento, foram muitas as falas de carinho, orgulho e admiração. Mas foi no relato de sua primogênita, Raíssa, que esse lado ganhou ainda mais força. “Meu pai sempre falava desse poema pra mim, e eu lembro até hoje”, compartilha a filha, antes de declamar, ao lado do pai, um trecho de La Diosa Del Mar, poema que integra o livro.

O momento revelou uma memória que atravessou os anos e voltou a ocupar o presente justamente quando o poeta finalmente apresentou sua obra ao público. O lançamento também foi marcado por outras homenagens. A convite de Virgínia, prima de Noeli, musa inspiradora da obra, uma das poesias do autor, Se Pudesses, também foi declamada durante a noite.

Uma vida resumida em poesia

Para José Antônio, Da Caserna à Poesia é, em suas palavras, um livro que “resume uma vida”. A ideia é que o leitor reconheça, em cada poema, um pouco da própria existência: os momentos alegres e tristes, os encontros, as perdas, os aprendizados e as contradições que fazem parte do caminho. A vida, para ele, não é feita apenas de dias bons ou ruins. Cada momento carrega alguma coisa, uma experiência, um ensinamento ou um motivo para seguir. E, acima de tudo, existe a necessidade de viver cada um deles com vigor.

Ainda é cedo para saber se haverá uma próxima edição ou um segundo livro. Mas uma coisa já parece certa: depois de tantos anos entre fardas, missões e responsabilidades, José Antônio encontrou o seu “eu poeta”. E, uma vez encontrado, talvez esse poeta não queira mais voltar para caserna.



*Larissa Santos, ludovicense, como jornalista, atua na área de comunicação, com trajetória construída entre a redação, a televisão, o audiovisual e a cultura. Já passou pela TV Difusora e pela TV Assembleia, onde trabalhou com produção de programas e conteúdos jornalísticos. Também atua com assessoria de imprensa, produção audiovisual e comunicação de projetos culturais. Sua experiência transita entre a produção jornalística e a criação de narrativas em diferentes formatos, com especial interesse por cultura, cinema e audiovisual

 

 

 

 

 


terça-feira, 15 de setembro de 2026

SE HOUVER AMANHÃ

             

                                                                                         *Patrícia Bacellar Braga.

 

Quase me vou, mas me volto...

Há um tanto de mim que passeia

Vai e vem, balanceio

Anseio de nunca partir.

 

Amanhã me vejo inteira?

Se houver a manhã clara e sã

De inteiro me desejo e ensejo.

Um não.

Um sim, ai de mim que ainda me quero!

Um querer assim quase etéreo. 

Uma nuvem que passa e fica.

Uma brisa que brinca comigo.

Uma força, um galanteio,

Um sentir meu e alheio,

Duelo de solidão.

 

Quase me vou, mas me volto

Me dou um pouco de mim

Ao vento que sopra brejeiro

Ao teu querer que me quer

A toda saudade que arde

A tarde que sem fazer alarde

Sussurra de fato quem sou.

 

Amanhã me vejo inteira?

Se houver amanhã eu me vou

Me levo uma parte contigo

Montada em galope ligeiro

Nos campos que guardo e cultivo

No verde que o olhar abriga

A descobrir onde estou.

 

Quase me vou, mas me volto

Há um tanto de mim revelado

Outro tanto é apenas silêncio.

Se houver amanhã eu te dou

Este vasto sentir que carrego

E já não aguento comigo

Se não chamo: Te preciso

Se houver amanhã vem comigo

Se houver amanhã eu me vou..."

 

"Se houver amanhã "

                          Setembro 2018.

 

 




 

*Patrícia Maria Furtado Bacelar Couto Braga,  poeta, natural de Brejo (MA), membro efetivo da Academia Ninense de Letras e Artes – ANLA, ocupante da cadeira número 10 patroneada por Hildenora Galvão Castelo Branco;

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

ROQUE PIRES MACATRÃO

    


 

 

 

Quando um homem se transforma em memória

                                                                                 *Franklin Falcão

Há notícias que chegam e, por alguns instantes, parecem não encontrar lugar dentro de nós. A gente lê, relê, silencia e custa a acreditar. Foi assim que recebi a notícia da partida de Roque Pires Macatrão, meu amigo e confrade.

Algumas perdas não são apenas perdas pessoais. Elas atingem também as instituições, a cultura, a história e a  memória de uma cidade. A partida de Roque é uma dessas perdas.

Academia Ludovicense de Letras está de luto. Perdemos um grande confrade, um amigo querido e, sobretudo, aquele que teve a responsabilidade e a honra de ser seu primeiro Presidente.

Ser o primeiro Presidente de uma Academia é muito mais do que ocupar uma cadeira ou exercer uma função. É participar do momento em que uma ideia começa a transformar-se em realidade. É acreditar que as palavras podem construir pontes, preservar a memória e deixar para as futuras gerações aquilo que o tempo jamais deveria apagar.

Roque esteve lá, no começo.

Ele ajudou a escrever as primeiras páginas da história da nossa Academia. E talvez seja justamente por isso que seu nome jamais poderá ser separado da trajetória da ALL. Quando falarmos de sua origem, de seus primeiros passos e daqueles que acreditaram em seu futuro, Roque Macatrão estará sempre entre nós.

Mas a vida de Roque foi muito maior do que sua participação na Academia.

Homem do Direito, formado pela Universidade Federal do Pará, advogado, intelectual e estudioso, construiu uma trajetória respeitada e ocupou importantes funções na vida pública do Maranhão. Foi Procurador-Geral de Justiça do Estado, estando à frente do Ministério Público maranhense no início da década de 1980. Também exerceu funções de Procurador e Secretário de Estado de Justiça durante o governo de João Castelo.

Essas funções revelam a dimensão pública de sua trajetória. Mas os cargos, por mais importantes que sejam, não conseguem traduzir completamente quem foi um homem.

Porque um homem não é apenas aquilo que fez. É também aquilo que deixou!

 E Roque deixou muito.

Deixou sua contribuição ao Direito, à administração pública, à cultura e às letras. Deixou seu nome ligado a instituições importantes. Deixou respeito entre aqueles que com ele conviveram. E deixou, principalmente, amizades.

É dessa última herança que hoje me lembro com mais carinho.

Porque, para mim, Roque não é apenas o Procurador-Geral de Justiça, o Secretário de Estado, o advogado, o intelectual ou o primeiro Presidente da Academia Ludovicense de Letras.

Para mim, Roque é o amigo. É o confrade. É a pessoa com quem compartilhei a caminhada acadêmica e momentos que agora ganham um significado ainda maior diante da saudade.

A vida tem essa maneira curiosa de nos ensinar o valor das pessoas. Muitas vezes, enquanto convivemos, não percebemos que estamos construindo memórias. Somente quando alguém parte é que compreendemos que aquelas conversas, aqueles encontros e aqueles momentos aparentemente comuns eram, na verdade, pequenos tesouros que a vida estava nos oferecendo.

Hoje, essas lembranças ganham outro valor.

E é por isso que não quero falar de Roque apenas com tristeza.

Quero falar com gratidão.

Gratidão por sua amizade. Gratidão pela convivência. Gratidão por tudo o que representou para a Academia. Gratidão pela história que ajudou a construir.

A morte encerra uma presença, mas não consegue encerrar uma história.

Enquanto houver alguém que se lembre, alguém que conte, alguém que pronuncie seu nome com carinho, uma parte daquele que partiu continuará entre nós.

E Roque será lembrado.

Será lembrado nas páginas da história da Academia Ludovicense de Letras. Será lembrado por seus amigos e confrades. Será lembrado por sua família. Será lembrado por sua atuação no Direito e na vida pública do Maranhão.

E será lembrado, sobretudo, por aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo de perto.

Neste momento, meu pensamento se volta também para sua família e, de maneira muito especial, para seu filho, Paulo Macatrão.

Paulo, receba o meu abraço mais fraterno e os meus sentimentos mais sinceros.

Sei que nenhuma palavra é suficiente diante da perda de um pai. Há dores para as quais não existem frases capazes de oferecer consolo imediato. O tempo talvez não apague a saudade — e nem deveria —, mas poderá ensinar a transformá-la em uma presença diferente: a presença das lembranças.

Que você possa encontrar conforto ao olhar para a trajetória de seu pai e perceber o quanto ele deixou de si neste mundo.

Um pai permanece nos filhos. Permanece nos ensinamentos, nos gestos, nos valores, nas histórias contadas à mesa e nas lembranças que o tempo jamais consegue destruir.

Roque permanece também naquilo que construiu.

Paulo, seu pai teve uma vida de participação, de trabalho e de realizações. Teve o privilégio de servir ao Maranhão, de exercer funções de grande responsabilidade, de participar da vida cultural e jurídica do Estado e de contribuir para a construção da Academia que hoje lamenta sua partida.

Por tudo isso, espero que você e sua família encontrem, em meio à dor, algum conforto na certeza de que Roque não será esquecido.

A Academia Ludovicense de Letras, saberá guardar seu nome.

E nós, seus confrades e amigos, teremos a responsabilidade de preservar sua memória.

Talvez um dia outro acadêmico ocupe a cadeira que foi sua. É assim que as instituições continuam. Novos nomes chegam, novas histórias são escritas, novas gerações assumem responsabilidades.

Mas existe uma cadeira que ninguém poderá ocupar.

É aquela que Roque conquistou na memória e no coração daqueles que o conheceram.

Essa cadeira permanecerá eternamente ocupada.

A ALL perde seu primeiro Presidente.

O Maranhão perde um homem que dedicou parte de sua vida ao Direito, à administração pública, à cultura e às letras.

Nós perdemos um grande confrade.

Eu perco um amigo.

E talvez seja justamente nessa frase tão simples que esteja toda a dimensão da minha tristeza. Não quero, porém, que a última palavra seja a tristeza.

Quero que seja a gratidão.

Obrigado, Roque, pela amizade.
Obrigado pela convivência.
Obrigado pelo exemplo.
Obrigado por tudo o que fez pela nossa Academia.
Obrigado por ter ajudado a escrever as primeiras páginas dessa história que continuaremos a construir.

A morte pode levar o homem, mas não leva o legado.

Pode silenciar a voz, mas não silencia aquilo que foi escrito no coração dos amigos.

Pode encerrar uma caminhada, mas não consegue apagar as marcas deixadas pelo caminho.

Roque Macatrão fez sua caminhada. E deixou suas marcas.

Agora cabe a nós continuar escrevendo. E sempre que a Academia Ludovicense de Letras abrir suas portas, sempre que os confrades se reunirem para falar de literatura, cultura e memória, sempre que alguém recordar aqueles que ajudaram a construir nossa instituição, haverá um nome que voltará às nossas lembranças:

Roque Macatrão.

O nosso primeiro Presidente, nosso confrade e nosso amigo.

Que Deus o receba em sua infinita misericórdia, conceda-lhe o descanso eterno e conforte Paulo, seus familiares e todos aqueles que hoje sentem a sua ausência.

Descanse em paz, querido Roque.

Você partiu, mas não deixou de estar entre nós.



Sua presença tornou-se memória.
Sua memória tornou-se história.
E sua história permanecerá para sempre na Academia Ludovicense de Letras.

*Roberto Franklin Falcão da Costa, escritor, poeta maranhense.
Membro da Academia Ludovicense de Letras