sábado, 7 de fevereiro de 2026

RAÍZES DO PALMARES

                          

                                                 *Sara Cavalcante

Foi Francisco Rodrigues, homem de bom coração,

Andador de Santa Isabel, hoje Palmares no chão.

Sensível ao sofrimento do povo do lugar,

Viu que sem escola o futuro custava a chegar.

Por amor aos seus filhos e à educação,

Abriu a porta da sua casa, fez da sala o espaço pra lição.

Trouxe o primeiro professor, com gesto verdadeiro,

E acolheu outras crianças no mesmo terreiro.

Assim nasceu a escola, simples, mas essencial,

Na sala de sua casa, gesto humano e social.

Antiga Santa Isabel começou ali a aprender,

Com Francisco levando o professor para o saber florescer.

Mas não foi só a escola que seu nome marcou,

Também a nossa cultura ele sempre abraçou.

Lá no Palmares,  Nina Rodrigues surgiu, com amor e emoção,

O boi brinquedo da vila, herança e tradição.

Na década de cinquenta, o povo se encantou,

Com o boi do seu Francisco, que o terreiro animou.

Entre cantos e tambores, a história cresceu,

E o bumba-meu-boi do povo no tempo se fortaleceu.

Seus filhos deram sequência com garra e alegria,

Mantendo acesa a chama da bela folia.

E o tempo, generoso, fez brilhar outro valor:

Sua neta, beija-flor, Maria dos Prazeres, amor.

Décadas se passaram, a fé não se escondeu,

No batuque do monte a cultura viveu.

Francisco foi lembrado com honra e emoção,

Na escola do Palmares, seu nome é tradição.

Do seu legado nasceu um boi cheio de esplendor,

Chamado “Sonho de Chico”, herança de amor.

Quem planta cultura colhe união,

E faz do bumba-meu-boi pulsar do coração.

Assim segue a história, bonita de ouvir,

Do povo do Palmares que insiste em resistir.

Entre passos e cantigas, a memória reluz:

Francisco vive no boi, na cultura e na luz!

.


 

 

 

*Sara Coelho de Sousa Cavalcante, professora, poeta, cronista, natural de Nina Rodrigues (MA). Membro da Academia Ninense de Letras e Artes - ANLA

 

RECOMEÇO

  

    *Sara Cavalcante

Voltei a escrever há pouco tempo,

pois não me sentia mais capaz.

Hoje percebo que, diante das dificuldades,

ela também me refaz.

Problemas do dia a dia

Só me fazem persistir,

são o começo para parar,

refletir, levantar e prosseguir.

A vida que tenho hoje,

foi tudo o que pedi a Deus.

Mas, diante do meu pedido,

Relevei alguns conflitos.

Matar um leão por dia

é, hoje, o meu destino.

Há momentos, ao final do dia,

meu leão ainda se acovarda...

Perdi aquela batalha?

Não, é que ele correu:

percebeu que respirei fundo

e, por isso, desapareceu.

E, ao acordar no dia seguinte,

percebo que ele está ali.

É quando já recuperei as forças

e não o deixo sair.

Tenho que cuidar da mente,

que é meu escudo de proteção

sem ela, meu corpo fica incapaz

de continuar nessa missão.

A respiração de hoje

está um tanto abalada,

mas vejo que não devo parar:

irei continuar na caminhada.

Só luta quem é forte.

Pois pronto: forte eu sou!

Não irei desistir daquilo

que, no passado, fui eu quem sonhou!

São tantos leões que deixei

sem respirar no meu caminho

que, a cada entardecer,

percebo que estou conseguindo.

 

.


 

*Sara Coelho de Sousa Cavalcante, professora, poeta, cronista, natural de Nina Rodrigues (MA). Membro da Academia Ninense de Letras e Artes - ANLA

 

 

domingo, 4 de janeiro de 2026

ENCHENTES DO RIO ITAPECURU

ENCHENTES DO RIO ITAPECURU


              Anos das maiores enchentes 

            No ano de 2009 o rio Itapecuru Mitim sofreu sua última grande enchente. As cheias duraram quase um mês isolando a área do Trizidela e as comunidades adjaccentes, trazendo muitos prejuizos materiais como a devastação das plantações, morte dos  animais e  todo tipo de calamidade  a população ribeirinha, com alagamentos, desde a sua nascente até a foz, na baia de São José, no golfão maranhense.

O rio Itapecuru que teve grande importancia na economia da Provîncia,  com exportação de algodão e outras culturas produzidas na sua ribeira, com importantes cidades como, Caxias, Mirador, Codó, Coroatá, Itapecuru Mirim, Rosario e outras,  com o transporte fluvial, no seculo XIX, foi gradativamente reduzindo sua atividade após a construção as Estrada de Ferro São Luis - Teresina a partir de 1920.

Ao longo da história temos conhecimentos de grandes enchentes que ocorreram no rio Itapecuru, geralmente ocorridas entre os meses de fevereiro a maio, que trouxeram males diversos a população da ribeira do rio. As mais antigas que se tem notícias, datam do século XVIII segundo registro de Raimundo José Gayoso em. Princípios da lavoura do Maranhão, Gayoso (1818):

 

 No anno de 1788 ou 1789, foi tão extraordinaria esta afluencia de agoas, que passrão as febres a serem epidêmicas...: muitas cazas de alguns pobres a ficarem sem vivente algum... Talvez aqui tenha aparecido os primeiros sinais da agreção humana ao Itapecuru relacionado as cheias desodernadas causadas pelas destruição das matas e ocupação irregulares”.

 

O registro é confirmado por César Marques em seu Dicionário Histórico e Geográfico da Provincia do Maranhão  (1870):

 Desde  abril a fins de maio de 1788, encheu tanto este rio, que em muitas partes, tinha 2 léguas de largura. Em 1889 encheu outra vez o rio dessa maneira... Em 1805 o inverno foi tão rigoroso, que obrigou o rio a sair do seu leito e estendedr-se por algumas léguas pelo centro, trazendo como conseguencia disto a grande epidemia, que por aí reinou,

 

Nos periódicos maranhenses nos conduzem para informaçoes de enchentes de grandes proporções nos anos de 1875 e 1895, final do seculo XIX,

A cheia de 1875, que trouxe muitas mazelas, transtornos a população, no recém criado status de cidade de Itapecuru Mirim, pela Lei 919 de 21 de julho de 1870.

  A enchente de 1895, teve repercussão a longo prazo, com devastação em quase toda a cidade.  Os grandes armazéns situados à Beira Rio e nas ruas adjacentes foram tomados pelas águas a exemplo dos empórios dos negociantes Domingos Araújo e Manoel Caetano (Manoel Cobra). As rampas de desembarques de mercadorias e passageiros ficaram completamente danificadas, sendo posteriormente reconstruída pelo operoso comerciante, Manoel Cobra, pai adotivo do desembargador Raimundo Públio Bandeira de Melo.

Em 1917 houve outra enchente de grandes proporções. Na ocasião desabaram antigos   casarões e sobradões que testemunhavam a época áurea da aristocracia da Vila, com grande importância econômica, política e militar, época dos coronéis, conselheiros, comendadores, barões, agropecuaristas, senhores de engenho, feiras e exposições de gado, (Publicador Maranhense, 27.8.1856). Na ocasião caiu à casa do coronel Bento Nogueira da Cruz na Praça Cel. Nogueira. (Pacotilha, 7.5.1917).

A enchente de 1924, com toda certeza, foi a que causou mais transtornos.  A Rua do Egito, atual coronel Catão, passou mais de um mês submersa, sendo o seu transporte por canoas. A estação de trem ficou só o telhado de fora, e os trilhos ficaram completamente inundados.  Os barcos a vapor fundeavam perto da praça da Cruz. As casas que não caíram ficaram abaladas, “parecia que tudo se acabava em Itapecuru”.   Se verificava na época um espírito desalentador, marcado pelo flagelo da enchente. Em uma cidade que já havia conhecido período de grandeza, a enchente do rio deixou marcas de calamidade, pobreza e falta de trabalho. Com o “ciclo da borracha” houve evasão dos moradores para os seringais do norte, agravando mais o comercio e lavoura local.

 A população com dificuldade trabalhava na reconstrução da cidade. Com a baixa do rio, a cidade foi acometida de mazelas como surto de febres, as chamadas “sezões” ou “impaludismos”. (Combate, 25.3.1951 e Correio Paulistano, 18.5.1924)

Em crônica do professor Newton Neves no jornal Combate,  citava os moradores supersticiosos, que chamavam a atenção para a calamidade de 1924, que seria punição em detrimento da antiga “praga” dos capuchinhos que em missão populares, anos atrás, celebraram do outro lado do rio de costas para a cidade, “bateram em maldição o pó das sandálias às portas da cidade”. Profetizavam os moradores: “é o fim de Itapecuru”

Houve também grandes cheias do rio nos seguintes anos: 1947, 1964, 1974, 1986 e em 2009, porém nenhuma se equiparou a calamidade de 1924.


 

 *Do livro, Sinopse da História de Itapecuru Mirim (2018), de Jucey Santana.