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sábado, 28 de outubro de 2023

HOMENAGENS À GONCALVES DIAS

       5 Poemas em homenagem ao bicentenário de Gonçalves Dias.

 

  *Theotonio Fonseca

 

Juracema dos Ventos

 

O sol a iluminava com a leveza do colibri

que oscula a flor. O peplo cróceo da alvorada

como véu que veste a fronte da musa amada

cobriu-lhe o desnudo corpo antes de partir

 

tão logo o argênteo dia partira, a noite surgira

e do oceano irromperam flâmulas de morticínio

famintos de ouro e sedentos de extermínio

adentraram o seio virginal das florestas

 

Tupã vendo o fim de seus filhos entre frestas

da divina visão sob a fumaça de vil pressago

dos arcabuzes a cravar pólvora no triste fado

em cada caravela escancarava-se uma janela

para a sangria que dizimaria os filhos da floresta

em cada ranhura do tempo a face de lamentos

a planger dos mil povos o desaparecimento

 

Juracema nadava entre vitórias-régias e iaras

quando ouvira o clangor dos primeiros estampidos

afugentando das árvores o azul das araras

ressoando dos curumins o lancinante gemido

 

Vendo-lhe a dolente lâmina a abrir sem pejo

a alma lacerada pela vergasta da dor infinda

Tupã aprouve de encantar a jovem tupinambá

na eólica forma de um vento benfazejo

 

e hoje quando nas aldeias uma menina

sente os lábios da aragem suas madeixar roçar

é Juracema dos Ventos que a parente abençoa

recordando que o ancestre uirapuru ainda ecoa

e em Pindorama este canto não haverá de calar.

 

O ancião e o tamoio

 

As cãs são as mesmas na neve que as define

o pranto é o mesmo no sal que lhes habita

e o sangue que singra-lhes o alquebrado corpo

tem o mesmo rubro eivado do divino sopro

 

mas o caminhar é distinto nas sendas da vida

o navegar é diverso nas águas do destino

o ancião vê passado, presente e futuro

como temporalidades divisíveis

o tamoio compreende a unidade do tempo

vida e morte como faces do mesmo dracma

corpo e alma como pergaminho unívoco

sem as ambiguidades do maniqueísmo

 

para além das semânticas individuais

do rol de crenças e da mó de certezas

os moleiros dos ciclos do existir

vão triturando impiedosamente a natureza

servindo fealdade em baixelas de antiga beleza

 

e o que unifica ancião e tamoio é a lápide

do porto onde todas as âncoras são fincadas

ilha sonâmbula onde sonhos exilados

gestam a putrefação entre o cipreste a áspide

 

é a morte, nada pode desdourar seu escuro

ou silenciar o sonoro címbalo de seu chamado

nada equaciona a lógica de seu absurdo

ou pode aterrissar seu pleno voo alado

 

e ao fim da navegação em derredor do existir

não existirão jardins além do bojador

apenas vermes a sacramentar o fim

entre raízes e ossos, areia, larvas e odor.

 

Flauta de taquara

 

Em Pindorama todo som emudecia

o maracá do pajé, da jaguatirica a cria

o estridor dos trovões, o rugido das feras

o crocitar do corvo e o sibilo de áspide velha

 

até mesmo a voz encantada da iara

silenciava diante da flauta de taquara.

Quem a executava? Ninguém o sabia.

Quem a manejava? Desconheciam.

 

Uns dizia ser Tupã em sua moradia

outros ser Pã na distante Hélade

a rústica flauta paralisava o toré do dia

e dilatava o quarup noturno de Hécate

 

Pachamama ao ouvir o instrumento

na alfombra do universo a fronte reclinava

a celeste música singrava mares de ventos

doce sinfonia que a criação embriagava.

Ainda hoje ninguém decifrara a autoria

da jubilosa flauta de ancestral magia.

 

Canoa de ossos à beira nau

 

Singrando rios de coagulado sangue

navegando a terra em transe e exangue

para desaguar em um golfo de lágrimas

no leme a sombra do Princípe Jacarandá

remando dores em busca de algum mar.

 

O que restara da queda do céu?

O que sobrara dos mil povos de Tupã?

Estrelas moribundas e astros ao léu

tingindo de luto o peplo cróceo da manhã

na proa fantasmática ressoa o grito do urutau

réquiem para a canoa de ossos à beira nau.

 

O discurso de sumé

 

Peregrinando o chão em busca de vestígios

do dilúvio que Tupã enviara à humana barca

indícios do heroísmo do nauta Tamandaré

e da canoa que abrigara nossos ancestrais

o Princípe Jacarandá achara Sumé a rezar

levitando sob uma touceira de mato

o santo descerrara as pálpebras e a falar

reuniram-se feras, áspides e bojudos sapos:

 

 – Queima a pele e os ossos da alma sofrida

ver os homens caminharem sem direção

como quem desconhece chegada e partida

e caminha em círculos à deriva na solidão.

 

Ensinei-os a lavrar o solo de Tupã

o cultivo da mandioca, da banana e do milho

a invocar a chuva nas tórridas manhãs

a cura dos curumins livrando da morte os filhos.

 

O que hoje vejo no triste chão de Pindorama

são florestas ardendo em incontrolável chama

são meus filhos a morrer como indigentes

e a peçonha colonial, veneno de vil serpente

inocula o fim do imenso jardim de Nhamandú

 

regressa ao lar antes da queda do firmamento

antes que se desdoure o que restou do azul

e à flauta de taquara compõe teu último lamento.

 


*THEOTONIO FONSECA DE SOUSA é Poeta, Professor e Advogado. Autor das obras: Poemas Itapecuruenses e Outros Poemas (Ética, 2014), O Batucajé das Iaras ( Ética, 2016), As Bodas de Sapequara ( Ponto a Ponto, 2021), Recital do Sol na Sagração da Aurora (Ponto a Ponto, 2022), Autobiografia de um Sabugueiro (Ponto a Ponto, 2022), Prelúdio da Lua na Dormição da Noite (Ponto a Ponto, 2022) e A Madona Vestida de Arame Farpado (Ponto a Ponto, 2023)

 

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