Por:
Tiago Oliveira
Neste tópico quero enfatizar a quase extinção de dois peixinhos a pataca
(Tetragonopterus argenteus - Cuvier, 1816) e a pititinga (Engraulis
encrasiocolus), que habitam essencialmente o leito do rio só sendo
encontrados em seus igarapés próximo da foz dos mesmos e durante as cheias.
Estes peixinhos de pequeno porte são fundamentais para a vida existir no rio,
por habitarem a região que chamamos de flor d’água se alimentam de quase tudo
que cai na água, tais como: insetos, larvas, matérias em decomposição e por
isso servirão de alimento para os peixes maiores e para as garças, socós,
martins – pescadores etc. Por isso, o desaparecimento de tais indivíduos trará
consequências irreversíveis ao ambiente em foco. Para minha pessoa falar dos
peixes do Itapecuru e manter o distanciamento necessário de autor, foi
impossível, pois por vezes fiz minhas refeições embaixo de árvores na sua
margem, servindo-me de toda a sua variedade e apreciando o sabor do melhor
peixe do Maranhão e ver que atualmente os poucos que ainda são capturados
sequer podem ser ingeridos devido ao gosto ruim da poluição que já entranhou em
sua carne.

Acima se vê imagens de
quatro exemplares de peixes, que já foram comuns e abundantes nas águas do
Itapecuru, que são, a saber: Curimatá, Piranha Branca (Pirambeba), Caranbanja e
Sarapó. Contudo, está população de peixes não só das espécies acima como de todas
estão seriamente ameaçadas de extinção no rio, sendo que outras já foram
extintas, por várias razões uma delas é que os verdadeiros donos da Ribeira do
Itapecuru não povoam mais suas margens, e se o rio Itapecuru ainda fosse
cercado de aldeias talvez sua realidade fosse outra. Principalmente, no que se
refere à população de peixes seria mais abundante em virtude da consciência
ecológica dos indígenas, que exerciam a atividade pesqueira apenas com o
intuito de prover o seu sustento, sem objetivar lucro, já que, estes não
comercializavam o mesmo e capturavam os que estavam propícios para a sua
alimentação. Veja o que diz CESAR Marques em seu - Dicionário Histórico e Geográfico da Província do Maranhão: Em 14 de setembro de 1869 foi
pescado com muita dificuldade um grande peixe chamado Espadarte (Pristis perotteti), na volta do Curimatá, no lugar denomido Croeiras, perto perto da Vila do Rosário, para onde foi conduzido
e ai retalhado. Tinha 28 palmos de comprimento da cauda a ponta da espada e 12
de largura. Admira o ser conduzido n’água doce, e longe da foz d’este rio. Este
fato vem mostrar o nível de preservação em que ainda se encontrava o rio, no
final do século XIX e início do XX.
É claro que o sumiço
dos índios da Ribeira em tela não o único motivo da extinção dos peixes do dito
Rio. Já que, os relatos de pescadores ribeirinhos e alguns textos históricos
dão conta de uma grande variedade e abundância de peixes vivendo em suas águas,
mesmo até meados das décadas de 50, 60, 70 e até 80 do século XX, momento que a
população ribeirinha aumentou drasticamente nas suas margens sem planejamento,
levando a um crescimento desordenado das cidades e um consumo vertiginoso dos
seus recursos, tais como: caças, água, terras, madeiras além do impacto
gigantesco na quantidade e variedades dos peixes do Itapecuru.
Veja esta crônica: Sexta Feira, 23 de janeiro de 1963
– Página 3. Correio do Nordeste. Crônica de Zuzu C. Nahuz – A Enchente de
19924.
Como me recordo de março de 1924, quando o Rio
Itapecuru teve uma de suas maiores enchentes.As águas subiram assustadoramente
tomando conta da estação da Estrada de Ferro e, ao lado da Cidade de Itapecuru
até a Rua do Egito.Num domingo a tarde, papai resolveu levar seus familiares
para um passeio de canoa, sob o comando do remador Vitor Almeida. Saimos as
três horas da tarde e como me lembro da hora em que passamos dentro da estação
do trem e que papai levantou a mão tocando a sineta.
Depois, viemos sobre as águas pela linha do
bonde puxado a burros e ao chegarmos próximo a casinha do mencionado veiculo,
uma caçoeira impediu nossa passagem obrigado-nos a fazer uma volta muito grande
para regressarmos a nossa casa.Nessa mesma noite fomos a residência do Coronel
Climaco Bandeira de Melo assistir uma pescaria de caniço e anzol, no próprio
quintal daquele saudoso politico.
O velho Rodolfo pegou nessa noite
muitos mandubés, mandis, anojados, curimatás, piaus, branquinhas e
surubins.Nesse tempo, o Rio Itapecuru era muito piscoso e meu pai tinha duas
redes de pescaria e quando voltavam do Igarapé
do Jundiai, a varanda de nossa casa ficava lastrada de peixes de toda
as qualidades.Uma cambada de mandubés que era o melhor peixe da época, custava
dois mil reis e as piranhas, sarapós, tubis e os cascudos, meu genitor dava a
pobreza.O peixe era tão abudante que dezenas de homens e mulheres o salgavam,
para vender para Anajatuba e Vargem Grande.Dizem que as maiores enchentes do
Rio Itapecuru foram em 1917 e 1924, quando a cidade foi transformada em
calamidade pública.
Sobre o tema acima moradores da cidade de
Itapecuru-Mirim contam que os pescadores traziam muitos peixes do Igarapé
Jundiai até meados da década de 80 do século XX, e que quando
chegavam com as canoas anuciam a sua chegada com um berrante e nos serviços de
autofanlantes, que existiam na cidade, atualmente este fato só existe na
lembrança.
Destaco aqui, também os
relatos do pescador Raimundo Nonato Alves, que nasceu na margem esquerda do
Itapecuru, em 1955, no Povoado Areias, Município de Santa Rita. O mesmo relata,
que desde cedo foi habituado a pescar e que pela metade dos anos 60 do século
XX, ainda era possível pescar grandes quantidades de peixe de bom tamanho
(pescadas de 9 kg, curimatãs de 3kg, surubins de 30kg, branquinhas de 250 g...)
no Itapecuru e de toda variedade (mandubés, bagres, surubins, pescadas,
camurins, curimatãs, branquinhas, mandis, anojados, papistas, douradas, sem
contar os relatos das aparições do Peixe-Boi (Trichechus inunguis) à flor d’água), este último foi praticamente
extinto, contudo em junho de 2013 o morador do Municipio de Rosário – MA, Geovane,
trabalhador da Pedreira Ananheguera, encontrou na margem esquerda do Itapecuru,
no Povoado Boa Vista, um Peixe – boi de aproximandamente dois metros de
comprimento e trezentos quilos, morto e encalhado em um corrego, sendo que a
causa morti do mesmo não foi estudada, infelizmente. Voltantando aos relatos do
pescador Raimundo Nonato Alves o mesmo afirma, que naquela
época a pescaria era feita ainda quase que de maneira artesanal por meio de
puçás, jequis, cofos, anzóis e os métodos mais profissionais eram feitos com a
utilização de tarrafas, redes de rabo e espinhéis, e segundo o mesmo as temidas
redes de náilon (caçoeiras) eram raríssimas sendo introduzidas naquela região
por um pescador da cidade Itapecuru-Mirim, conhecido por Miguel Arcanjo. Outro
relato bem interessante do mesmo pescador dá conta da grande variedade de
animais vivendo nas matas ciliares, que por serem preservadas, ainda abrigava
muita vida além de informar sobre a largura do rio, que por ser tão estreito e
preservado, que naquela região alguns macacos conseguiam atravessar o mesmo
saltando de uma margem à outra, usando os galhos dos ingás (árvore comum da sua
margem). Atualmente na região citada por ele que é conhecida como estirão do
Taquipé (Igarapé afluente do lado esquerdo do rio) o rio tem quase duzentos
(200m) de largura fruto principalmente do assoreamento causado pelas roças e
quedas de barreiras, que são causadas principalmente pela retirada ilegal de
areia e das vazantes (roças que são feitas na beira do rio).
Ligado a tudo isso
temos, atualmente, outro grande problema que é a falta de consciência da
sociedade comum um todo e principalmente das entidades públicas, que não
exercem sua função disciplinadora e reguladora, sobre as questões ambientais.
Os relatos dos pescadores e documentos antigos mostram que infelizmente muitas
espécies já foram extintas e as que ainda existem estão em número reduzido e
não conseguem atingir o seu tamanho ideal para o consumo, já que, são
capturadas prematuramente, por redes que possuem malhas cada vez menores e
tantos outros métodos predatórios. Tais como, os que elenco abaixo, mantendo a
estrutura original que foi apresentada na forma de Banner no VIII EPICECEN da
UEMA (Universidade Estadual do Maranhão), em maio de 2014. Com o apoio
exclusivo do Colégio Jesus Maria José, Instituição que faço parte como
professor desde janeiro de 2008, e que é sempre parceira em ações relativas a defesa
do meio ambiente.
Pesca
Predatória no Itapecuru
Um dos principais
motivos para a diminuição do número de peixes no bioma em foco é a pesca
predatória, que acontece durante todo ano. Contudo, o período mais crítico é a
desova (piracema), que coincide com a época da cheia do Rio, pois, é nesta
época que os peixes procuram os igarapés e a cabeceira do rio para a desova.
Garantindo assim, a criação de novos indivíduos. As principais formas de
predação estão elencadas, abaixo:
Redes
de Remanso
A margem do rio é
constituída por pequenas enseadas, que faz com que o curso da água forme
pequenos remansos (local onde á água parece não se movimentar), nestes lugares
os pescadores costumam colocar suas redes a espera dos peixes, que utilizam a
mansidão destas águas ou para subir o rio com maior facilidade ou para se
alimentar, reproduzir e descansar por alguns períodos, tornando-se assim presas
fáceis das redes de pesca (malhadeiras) com suas malhas cada vez menores.
Quando eles não vão sozinhos são forçados a ir pelas batidas nas coivaras, que
geralmente existem nestes locais e servem de proteção para os peixes.
Redes
nas desembocaduras dos igarapés durante a Piracema (cheias)
Até a década de 80 do
século XX era muito comum um tipo de pesca muito agressiva a reprodução dos
peixes, que era conhecida como Rede de Rabo, neste caso era utilizada uma
imensa rede com formato de um saco de coar café, similar a uma tarrafa, que era
colocada na desembocadura dos maiores igarapés (afluentes do rio Itapecuru),
para capturar os peixes
Que desciam das
nascentes dos igarapés após a desova e como a malha era pequena, até mesmo os
impróprios para a comercialização eram mortos. Este tipo de pesca impedia os
peixes de retornar ao leito do rio. Segundo relatos do Pescador Raimundo Nonato
Alves de cinquenta e nove (59) anos, Raimundo Ferreira Muniz de sessenta e
quatro (64) anos, Raimundo de Assis já falecido, que pescaram por vários anos
com este tipo de rede, as mesmas também eram utilizadas durante a estiagem no
leito do rio para capturar peixes nos pulsões ou lajeiros (formações rochosas
muito comuns nos trechos próximos a foz do rio, que são constituídos
principalmente de material sedimentar).

Atualmente,
o tipo mais comum são as chamadas malhadeiras, redes de náilon, que também são
colocadas nas desembocaduras (foz) dos igarapés e nos seus banhados (áreas
alagadas por eles) durante as cheias impedindo que os peixes procriem soma-se a
isso a pesca com anzóis, barragens irregulares etc. formando um conjunto de
fatores nocivos ao bioma em tela.