quinta-feira, 21 de setembro de 2017

PELO AZUL




 Blandina Santos


Tu que de ramo em ramo saltitavas,
Alheio inteiramente ao que fazias;
Agora, um fruto sápido comias,
Agora, alegre, um roseiral beijavas;

E depois, como um trânsfuga, tomavas
A direção d'um lago, onde bebias;
Gorjeavas contente, azas batias,
Quando nesse Crystal tu te banhavas;

Inquieto, travesso, sempre estavas
E, cantando melódico, saudoso,
Tam meigo e puro, o puro céu fitavas.

D'este azul nunca mais voltaste a ver-me.
Porque vieste, oh ! pássaro sem pouso,
De magoa, o livre coração encher-me ?


Do da 2ª edição da Coletânea,   Sonetos Maranhenses pag. 102 (1923). Blandina Eloe dos Santos, itapecuruense, professora, poetisa e musicista é patrona da cadeira 02  de  membros correspondentes da Academia Itapecuruense Ciências, Letras e Artes- AICLA.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

SONETO




         

Vale de Carvalho


Se é triste na prisão negra horrorosa,
Viver-se sempre a sós e abandonado;
E quebrando a solidão, descompassado,
Erguer-se b suspirar de ave saudosa;

Se é triste na mudez da noite umbrosa,
De o rijo bronze ouvir-se o som pesado,
Carpindo a infausta sorte do finado,
De quem breve existência foi ditosa;

Se é triste o turvo mar e céus nublosos
De tempestade ver-se entre os horrores,
Bramidos e clarões soltando irosos;

Mais triste é ver teus olhos sedutores
Baixarem-se, negando-me impiedosos,
Um suave volver, volver de amores.


Da coleção de poemas Parnaso Maranhense,  pag. 146  (1861).
Patrono da cadeira nº 5 de membros correspondentes da AICLA, Raymundo Alexandre Valle de Carvalho, itapecuruense, foi juiz, delegado e poeta – 1831/1859.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

I SEMANA INTERDISCIPLINAR – NEWTON NEVES


                                
      

Jucey Santana 

            Com palestras e oficinas foi realizada a I Semana Interdisciplinar do C. E. Professor Newton Neves entre os dias 11 a 14 do corrente, em parceria com a Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes, de acordo com o projeto  A AICLA vai à Escola”, com o objetivo de divulgar a cultura itapecuruense, notadamente seus escritores e patronos. 



            A Semana foi planejada pela professora Maria Ilnar Soares Sousa com o apoio da gestora da Unidade, a professora Rafaela Guimarães, a coordenadora Lucia Freitas e a supervisora Lenilma Alves de Araújo Lopes que acolheram com muita simpatia os membros da AICLA que estiveram presentes nas oficinas: Jucey Santana,  Terezinha Muniz Lopes, Assenção Pessoa, Allysson Rilkt, Gonçalo Amador, Brenno Bezerra, Maria Sampaio, Inaldo Lisboa, Júnior Lopes e Tiago Oliveira. 


            Foram escolhidos três patronos para serem homenageados: Mariana Luz, Bernardo Thiago de Matos e Newton Neves que além de patrono da AICLA também figura como patrono do colégio.

            Além das palestras foram realizadas  apresentações musicais, varal poético  recitais e literatura local com exposição  de vários títulos publicados. 

            Ao final fomos presenteados com a apresentação da vida  de Mariana Luz pelos  alunos: Bruno, Felipe, Gilda e Anyelle que ainda declamaram alguns poemas da autora justamente no dia ela completou 57 anos do seu falecimento – 14 de setembro. 
             

terça-feira, 12 de setembro de 2017

RUAS E PRAÇAS DE SÃO LUÍS


                                        


Benedito Buzar

Há livros, que pelo conteúdo e narrativa, se tornam referências e jamais são esquecidos.  Resistem ao tempo, ficam guardados em nossa memória e prontos para a qualquer momento serem lidos, relidos e consultados.

Na bibliografia de autores maranhenses, um livro traz a marca da perenidade e da unanimidade: o precioso “Breve História das Ruas e Praças de São Luís”, da autoria do professor e folclorista Domingos Vieira Filho, que desde o seu primeiro lançamento público, em 1971, foi alvo de elogios e de aceitação pelo mais exigente leitor.

Pela sua importância e atualidade,  é considerada obra de referência histórica, pois oferece ao leitor  valiosa quantidade de informações sobre uma cidade onde a cultura está presente desde os tempos remotos.

O assunto que Domingos Vieira Filho aborda no seu livro é singular, valioso e não encontra similar. Até hoje, poucos intelectuais se atreveram a fazer trabalho semelhante. Os que se arriscaram, não conseguiram o seu sucesso e ficaram esquecidos na rua da amargura.

Quando se fala em obra que trata de questões alusivas aos aspectos urbanísticos da capital maranhense, o autor citado e único é Domingos Vieira Filho, pesquisador emérito e culto, que passou anos em cima de livros, jornais e revistas, no afã de descobrir atos e fatos referentes ao passado e ao presente dos logradouros públicos, nos quais aconteceram episódios marcantes da História do Maranhão ou viveram figuras humanas que prestaram relevantes serviços à nossa terra e à nossa gente.

“Breve História das Ruas e Praças de São Luís” é um dos livros mais procurados e consultados por estudantes, jornalistas, urbanistas, historiadores e pesquisadores, que há anos se ressentem de uma nova edição. Para preencher essa lacuna, a Academia Maranhense de Letras, valendo-se da Lei de Incentivo Fiscal, da Secretaria da Cultura, reedita tão magnífica obra, na certeza de que se harmonizará com o anseio de um imenso público, desejoso de tê-lo novamente em mãos para buscar informações sobre uma cidade cujas ruas e praças nem sempre foram bem cuidadas pelos que receberam a incumbência de dar a elas um tratamento  à altura do que merecem, pois quando não carregam nomes de vultos renomados da vida maranhense, guardam denominações pitorescas e  jocosas, que se perpetuaram no tempo e no espaço.

O nosso notável escritor Josué Montello, que tantas homenagens têm recebido pelo seu centenário de nascimento, em se reportando à obra “Breve História das Ruas e Praças de São Luís” fez uma apologia ao seu autor numa crônica publicada em O Jornal do Brasil e inserido no livro “Janela de Mirante”, editado pelo Sioge, em 1993.

Com a palavra Josué: “O livro de Domingos Vieira Filho, sobre as ruas e praças da capital maranhense, favorece-nos cômodas viagens ao passado. Sem sair do presente, retornamos aos dias antigos, levados pela simplicidade do cicerone prestimoso, que nos vai contando casos de outrora. Da rua atual, com um nome de um figurão já esquecido, e que só as memórias tenazes lograrão identificar, parte ele para a rua de antanho, lembrando-lhe o velho nome apagado, e nos dias a sua história e a sua lenda, com o bom gosto e a exatidão certeira de Camille Julian refazendo a crônica de aventuras e mistérios das ruas de Paris.”

“Assim como nas grandes cidades – Rio de Janeiro ou Paris” continua Montello, “as pequenas cidades, como São Luís do Maranhão, têm ruas afáveis, acolhedoras, docemente  mexeriqueiras, e são elas que dão à vida da província o traço inconfundível, com que os tipos populares, os bancos da praça pública onde se reúnem as mesmas pessoas a horas certas, as velhas senhoras debruçadas nas janelas para ver quem passa, os vendedores ambulantes com os seus pregões costumeiros.”

Em outro trecho, afirma o autor de Cais da Sagração, “Urgia escrever a história das ruas de São Luís, pois, de uns tempos para cá a cidade cresceu muito, ganhou uma ponte sobre o rio Anil, alargou-se em várias direções. A Praia Grande, que serviu de cenário a boa parte de O Mulato, tem agora menos movimento que ao tempo de Aluísio Azevedo. E é aí que se erguem os mais belos sobrados de azulejos de São Luís – majestosos, imponentes, guarnecidos de sacadas de ferro, como seus mirantes abertos para o mar.”

Ao final de sua crônica, Josué afirma categoricamente: “O livro de Domingos Vieira Filho vem na hora oportuna, com a verdade de hoje misturada à poesia do tempo que se foi.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

CONVERSÃO ECOLÓGICA: Uma proposta de cuidado do planeta na laudato si


                                           
    Jean Carlos dos Santos


“A natureza, especialmente em nosso tempo, está tão integrada nas dinâmicas sociais e culturais que quase já não constitui uma variável independente” (Papa Bento XVI)

1.      Apelo do Papa Francisco

Na atualidade o mundo passa por uma transformação profunda. Essa se revela nos mais variados campos da existência, inclusive na perspectiva humana. As mudanças são inevitáveis e surgem como possibilidades de readequação na maneira do relacionamento do ser humano consigo mesmo e com o outro, o diferente. A dificuldade é grande para se ter essa compreensão, pois há mecanismos que interpelam o agir humano dificultando uma melhor reflexão sobre as consequências de sua ação. É necessário dizer que a economia, enquanto ação na perspectiva de acúmulo e lucro delineia uma nova ordem social e cria relações de domínio e poder exclusivista.
Nestes últimos tempos, por outro lado, tem-se desenvolvido uma consciência planetária de interdependência da vida, expressa em múltiplas formas, com o cosmo. Muitos grupos sociais têm se movimentado para que o planeta tenha um olhar sobre si mesmo e que surjam ações positivas que o ajudem a ser uma “casa comum”..
O Papa Francisco chamou a atenção do mundo em 2015 lançando uma Encíclica que volta sua preocupação para o nosso relacionamento com o meio ambiente, em especial com o planeta terra. Ele reflete que a nossa terra esta maltratada e que a causa de tudo isso é o nosso mau uso dela. Afirma Francisco: “Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos pensando que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la”[2].
Essa constatação de que somos responsáveis pelo mau uso do planeta em sua biodiversidade é o ponto de partida para compreender a urgência de uma tomada de consciência a respeito do nosso ser e estar no mundo. O Papa elenca duas motivações  importantes para que haja um debruçar-se sobre a nova consciência planetária.
Para isso ele menciona, em primeiro lugar, que o “urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral”[3]. Em segundo lugar, é aberto um convite para “renovar o diálogo sobre a maneira como estamos construindo o futuro do planeta”[4]. Estas duas motivações ajudam a criar um espaço de abertura para um debate mais proveitoso a partir da consciência de pertença do ser humano e este planeta e também do cuidado que o mesmo deve ter para com ele.

2.      Olhando a realidade do ambiente

Depois de se ter abordado sobre o convite do Papa Francisco para refletir mais a respeito do nosso agir no mundo dentro do aspecto do cuidado com a vida do planeta. É importante que se diga que esse clamor franciscano é unido às muitas vozes que ecoam seus gritos em defesa do meio ambiente pelo mundo inteiro. Já há muito suor derramado nesta luta. No entanto, devido a situação real de hoje, não é permitido que paremos os clamores e nas tentativas de ações promovam uma consciência ecológica.
Para isso devemos olhar mais quais os aspectos que são fortes e que incidem sobre a realidade no que diz respeito à agressão do meio ambiente. Entre tantos, pode-se destacar: a poluição que afeta diariamente as pessoas; a cultura do descarte, na qual não se aproveita nada do que já foi utilizado, mas apenas se descarta como lixo.
Tudo isso leva a uma série de consequências. Essas consequências se traduzem em mudanças climáticas que geram graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade[5]. O ser humano e as outras espécies fazem múltiplas imigrações e novas adaptações. Muitas vezes estas adaptações são com sucesso e outras vezes não. Isso ocasiona até extinção de inúmeras formas de vida do planeta.
Ademais, temos um aspecto relevante que gera disputas e confusões dentro dos recursos naturais. É o elemento “água”, tão fundamental para a vida. Na reflexão da Encíclica ao abordar a temática água, ela sustenta que a água potável e limpa é de suma importância porque é “indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos”[6].
Aqui entra um termo que revoluciona toda a ação humana no seu entendimento como parte integrante deste planeta e sua relação com o próprio meio. É a questão a da sustentabilidade. Ela mexe com a visão antropológica do ser humano como aquele que intervém saudavelmente na natureza, portanto com a mística do cuidado, ou como aquele apenas vê a natureza apenas como fonte de riqueza e lucro desenfreado.
A água é um desses recursos do qual se tem a visão que deve ser explorado na perspectiva micro e macro econômica, gerando lucro para alguns e deixando toda uma gama de pessoas a margem do uso desse recurso vital. Essas pessoas são os pobres que vivem diante do caos de não poderem usufruir da água boa para o consumo e tem que pagar até com as próprias vidas. São vítimas de várias doenças oriundas do manuseio da água não adequada para o ser humano[7]. Essa é uma realidade que afeta milhões de pessoas pelo mundo e que só agrava cada vez mais.

3.      Igreja do Brasil: perspectiva propositiva

A Igreja Católica no Brasil todo ano lança no período quaresmal a Campanha da Fraternidade a qual sempre reflete um tema que aborda uma temática social. Este ano ela fez eco à voz do Papa Francisco sobre o cuidado com a casa comum. O tema proposto para que os cristãos e cristãs, também os homens e mulheres de boa vontade, possam refletir sobre os “biomas brasileiros e defesa da vida”.
Essa Campanha da Fraternidade tem como objetivo: “Cuidar da criação, de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho”[8]. É uma preocupação para trazer à sociedade uma reflexão que ajude a olharmos e entendermos os nossos biomas: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Pampas. Também ver qual é a nossa relação íntima com eles enquanto parte constitucional e relacional com os mesmo e, quais as influências que sofremos deles e temos sobre eles.
Nós aqui no Vale do Itapecuru estamos inseridos no bioma da “Amazônia legal”, embora sendo da região nordeste do país. As nossas preocupações com o bioma amazônico devem ser uma grande tarefa. A bacia amazônica é a maior bacia hidrográfica do mundo: cobre cerca de 6 milhões de km²  e tem 1.100 afluentes. Seu principal rio é o Amazonas, que corta a região para desaguar no Oceano Atlântico e lança ao mar cerca de 175 milhões de litros d’água a cada segundo. Ele carrega uma quantidade imensa de material orgânico e sedimentos  lançados no oceano. Isso gera uma biodiversidade marinha e contribui para o equilíbrio da temperatura do planeta[9].
Baseado nestes dados já se percebe toda a magnitude deste bioma e da extrema relevância que o mesmo tem como objeto de nosso cuidado. Cuidar deste e dos outros biomas é uma questão de necessidade e de sobrevivência para o capital da biodiversidade. Qualquer descuido ou negligência neste aspecto servirá como potencialização de consequências desastrosas e danosas para todos, como de fato já vem acontecendo no percurso histórico.

4.                      Breve conclusão

Tentando refletir um pouco sobre a questão da criação de uma consciência ecológica, a partir da perspectiva da Encíclica “Laudato si”, do Papa Francisco. Observou-se que a preocupação com a situação da casa onde moramos, a qual é denominada de casa comum é a fator motriz de tudo o que vem depois nesta abordagem.
Pode-se compreender que trazer essa reflexão para o meio social é relevante, mas também muito desgastante. Pois mexe com muitos poderes e interesses grandiosos. Mas se pode partir da própria realidade local. No caso, aqui em nossa cidade. Deve-se refletir, a princípio, analisando os fatores que possibilitam iniciativas que favorecem ações que mudam a nossa consciência sobre o mundo e nosso habitat.
Portanto, a preocupação com ecologia e, consequentemente, com os nossos biomas, devem criar um novo jeito de olhar e agir. Somos interdependentes com eles. 

                                  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BENTO XVI. Carta Encíclica Caritas in veritate – Sobre o desenvolvimento humano na caridade e na verdade. Documentos do Magistério. 5ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2011
CNBB. Campanha da Fraternidade 2017: Texto-Base. Brasília: Edições CNBB, 2016.
FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato si – Sobre o cuidado da Casa Comum. Documentos       Pontifícios 22. Brasília: Edições CNBB, 2015.



Do livro Púcaro Literário (2017) organizado por Jucey Santana e João Carlos Pimentel Cantanhede. 

           Jean Carlos dos Santos  sacerdote da Igreja Católica. Nasceu em 1977 em Cantanhede (MA) e foi ordenado em 2006. Desde então trabalha em Itapecuru Mirim como Vigário Paroquial. Estudou Filosofia no Iesma (São Luís-Ma) e Teologia no IFTESAM (União da Vitória-Pr). Pertence ao clero diocesano de Coroatá. É Representante do Clero atualmente.