Tiago
de Oliveira Ferreira, Prof.º Ed. Básica do Município de Itapecuru Mirim; Me.
PPGLetras – UFMA.
Resumo
O presente trabalho visa
demonstrar os fatores linguísticos e extralinguísticos que motivaram a nomeação
de um povoado ribeirinho do rio Itapecuru no Maranhão com o étimo Mandioca.
Durante o percurso de construção da pesquisa é possível observar a presença,
por meio dos termos encontrados das três principais etnias que formaram o
Brasil os nativos americanos, os portugueses e os africanos utilizando-se dos
mesmos conhecimentos em torno do vegetal mandioca para a sua cultura alimentar.
Logo, é perceptível que foram os fatores da língua e da cultura alimentar dela
que criaram a motivação necessária ou fundamental para a nomeação do topônimo ribeirinho. Outrossim, foi preciso tecer a descrição histórica da povoação das
margens do rio Itapecuru, assim como, as características geográficas da região
afim de localizar o leitor no espaço temporal e geográfico deste povoado. A
fundamentação teórica baseou-se em autores da historiografia clássica do
Maranhão, tais como: Assunção (2015), Coutinho (2005), e no que tange, aos
autores fundamentais do ramo toponímico e da gramática propriamente dita o
texto foi construído pelos preceitos de Dick (1990), Sampaio (1987), Lima
(1998), Mey (1998) e Bechara (2011). Fundamentando-se assim, nas principais referências
de estudos teóricos linguísticos, variações e valores semânticos. Pois, o
principal objetivo foi compreender os traços sociolinguísticos, históricos e
antropológicos que motivaram a nomeação do espaço geográfico foco do artigo. Os
dados analisados foram embasados numa pesquisa bibliográfica de caráter
qualitativo e multidisciplinar. Dessa forma, os resultados obtidos serão
relevantes para o saber linguístico e do léxico da bacia do rio Itapecuru.
Palavras
chaves: Toponímia, Mandioca, Motivação, Nomeação.
Abstract
The present work aims to
demonstrate the linguistic and extralinguistic factors that motivated the
naming of a riverside village on the Itapecuru river in Maranhão with the etym
Mandioca. During the construction of the research, it is possible to observe
the presence, through the terms found, of the three main ethnicities that
formed Brazil, the Native Americans, the Portuguese and the Africans, using the
same knowledge surrounding the cassava vegetable for their culture. to feed.
Therefore, it is clear that it was the language and food culture factors that
created the necessary or fundamental motivation for naming the riverine
toponym. Furthermore, it was necessary to provide a historical description of
the village on the banks of the Itapecuru River, as well as the geographical
characteristics of the region in order to locate the reader in the temporal and
geographic space of this village. The theoretical foundation was based on
authors of the classic historiography of Maranhão, such as: Assunção (2015), Coutinho
(2005), and regarding the fundamental authors of the toponymic branch and
grammar itself, the text was constructed by the precepts of Dick (1990),
Sampaio (1987), Lima (1998), Mey (1998) and Bechara (2011). Thus, based on the
main references of linguistic theoretical studies, variations and semantic
values. The main objective was to understand the sociolinguistic, historical
and anthropological traits that motivated the naming of the geographic space
that is the focus of the article. The data analyzed were based on a qualitative
and multidisciplinary bibliographical research. In this way, the results
obtained will be relevant to the linguistic and lexical knowledge of the
Itapecuru river basin.
Keywords:
Toponymy, Cassava, Motivation, Naming.
As implicações do entorno de uma
pesquisa sobre Toponímia
No que tange aos estudos deste campo da Linguística,
ratifica-se que estudar a Toponímia tendo
como foco a língua, a história, a geografia e a cultura de um povo é fazer um
resgate do vocabulário antigo dos povos originários, do português brasileiro
preexistente em um território, já que é possível conhecer nomes próprios
deixados por grupos étnicos já extintos do Itapecuru, a saber: barbados,
uruatis, guaxinarés; nomes ligados à mineração: Areias; nomes de propriedades
rurais: fazenda Santa Rosa, São Roque; nomes ligados a flora local: Pequi,
Timbotiba e Mandioca topônimo alvo da pesquisa embasado nos estudos
onomásticos.
Para se chegar aos resultados, é preciso observar os
aspectos da linguagem local. Verificamos que para Lyons (2009, p. 7): “A
linguagem, portanto, pode ser legitimamente considerada sob um ponto de vista
comportamental (embora não necessariamente comportamentalista)”, isto é, para o
autor ela tem a ver com as relações diárias que os falantes fazem entre o meio
social a que pertencem e o conjunto de fatores que o cercam. Nessa linha de
pensamento, a experimentação humana e os usos da fala no cotidiano são essenciais
para o entendimento e embasamento dos fundamentos toponímicos.
Desta forma, o lugar de habitação é especial, é o
chão onde fixamos nossas raízes, é por isso que, se lançarmos um olhar
despretensioso sobre sua denominação, pode ser que não vejamos os variados
motivos que teve o nomeador ao adotar um étimo como individualizador de onde
fixa moradia, de onde escolhe como endereço, de onde constituirá família e, sem
muito nos alongar, de onde alimentará sentimentos de pertencimento porque
aquele lugar lhe é caro, por conta dos bens ali postos. O que queremos dizer é
que o topônimo não serve apenas como o nome de lugar, mas como o elemento que
está na vida das pessoas assim como estão seus documentos oficiais de
identificação.
Considerando esse caráter documental dos nomes dos
lugares, nos vêm os questionamentos: (i) Por que nomear uma comunidade com um
étimo indígena como mandioca? (ii) Por que usar uma palavra da flora
sul-americana para perpetuar os usos e costumes locais de uma comunidade? (iii)
Que importância local, municipal, estadual, regional, nacional ou continental
teria um elemento da flora na gastronomia, na medicina popular, na língua, na
história de vida das pessoas de um determinado lugar? Todas essas indagações perpassam
pelo uso do termo mandioca para
nomear uma comunidade localizada às margens do rio Itapecuru no município
maranhense Itapecuru Mirim.
O Povoado Mandioca, assim como Javi e Pequi, é uma
localidade ribeirinha de Itapecuru Mirim. Distante 12 km da sede do Município,
podemos chegar a ele tanto acessando o rio Itapecuru em canoas quanto pela
estrada vicinal, passando pelos Povoados de Campestre, Coqueiro, Barriguda,
Campo Rio e Pequi. Além dessas duas vias, há outro caminho alternativo, vindo das
povoações do município de Santa Rita, tendo como rota os povoados São Tiago,
Veneza, Pirical, Santa Luzia e Maria de Fogo.
Fundamentação teórica
Como
referencial tanto do uso toponímico, da descrição geográfica e da perpetuação
histórica deste povoado, podemos citar, antes de adentrarmos nestes conceitos a
miúde, o Mapa do Ministério do Exército – Departamento de Engenharia e
Comunicações - Diretoria de Serviço Geográfico. Referência Itapecuru Mirim, nº
MI 610. Ano de 1980. Nele aparece os nomes de todos os povoados supracitados,
assim como o termo Mandioca, já com a grafia atual.
Quando nos perdemos, é no nosso lugar de origem que nos encontramos,
encontramos traços de nossas histórias, de nossa remanência. Se por algum
motivo o nome do lugar for mudado (alteração toponímica/toponomástica) ou o
lugar deixar de existir, a história das pessoas, de igual forma, desaparece
também, por isso, o topônimo tem valor documental e de preservação da memória
coletiva e individual, além disso, tem valor sentimental, muito discutido pela
Topofilia.
No que tange à
etimologia da lexia mandioca, sabemos que é um étimo de origem Tupi, que para
Sampaio (1987, p. 277) seria: “many-oga,
procedendo de manyba ou mandyba”. Nos dicionários gerais da Língua portuguesa, há registro de que
mandioca se refere tanto à planta quanto ao arbusto. Para Maranhão, por
exemplo, (2012, p. 183) “maniva é “arbusto semelhante no lenho à macieira nova,
com folhas retalhadas a modo de mão aberta. São várias as castas”. Vale ressaltar, que castas para o
autor refere-se as variedades de mandioca que temos na América do Sul, de onde
a planta é procedente.
É no contexto histórico da doação e/ou
ocupação das sesmarias das Belfort, com a presença de mão de obra escravizada
(tanto de africanos quanto da população local), em que vamos ter acesso ao
cultivo da terra e, a partir dele, o manejo de produtos da agricultura familiar
e do comércio de subsistência, com a mandioca, arbusto nativo da América do Sul
que é usado como topônimo de uma comunidade Remanescente Quilombola e
ribeirinha itapecuruense, resgatando, dessa forma, um elemento de grande importância não só para os maranhenses, mas para os nordestinos, pois, da mandioca podemos
usar todas as partes (raizes/tubérculos/batatas, caule, folhas).
Foto 1: Início
do Povoado Mandioca
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Foto 1: Acervo do autor
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O Povoado Mandioca é constituido de 22 moradias,
onde habitam 41 famílias em casas de alvenaria
e também de taipa, isto é, feitas de barro e cobertas com palha de palmeira de
babaçu. Esse lugar tem o título de Comunidade Remanescente Quilombola conferido
pela Fundação Cultural Palmares (Santana, 2018), terras essas, vinculadas ao Terrítório
Quilombola de Santa Maria dos Pretos, uma vez que fazia parte da sesmarias
da família Belfort, respectivamente de Ana Rita e Maria Rita Belfort, que de
acordo com Coutinho (2005) as doações destas terras, pela Coroa Portuguesa,
datam dos primeiros anos do século XIX.
A respeito da motivação toponímica do povoado
ribeirinho itapecuruense Mandioca, temos o registro histórico do início do
século XX, no Jornal maranhense, A Pacotilha (1901, p. 3), que noticiava que:
O individuo José Romão, que
residiu algum tempo em localidade d’este termo, ultimamente chegado do Pará,
procurou-me em minha alludida residência, a pretexto de haver de mim a importância
de ordenados como ex-empregado de minha casa no lugar Mandioca, cargo que
desempenhou com todo desleixo durante quatro ou cinco mezes, há aproximadamente
nove annos
(sic).
(A Pacotilha, 1901, p. 3).
A partir
dessa notícia do Pacotilha, podemos inferir várias informações sobre o Povoado
Mandioca: (i) a contextualização geográfica do
povoado, uma vez que ele é apresentado como termo, isto é, região ou
território que se estende em torno de uma cidade, vila, neste caso, uma
comunidade circunvizinha do Município e do Rio Itapecuru; (ii) a ocupação
dessas terras por um donatário que a usufruía e que tinha posses, poder
aquisitivo elevado; (iii) a existência documental do topônimo, comprovando,
assim, seus mais de 2 séculos de nomeação, provavelmente sem alteração
toponímica ao longo desse tempo.
A partir do que afirmamos, podemos
perceber que o Povoado Mandioca tinha importância econômica no contexto do
município de Itapecuru não só por ser uma sesmaria, mas porque lá havia intenso comércio fluvial entre 1840 e 1960 favorecendo com que Mandioca se tornacesse um porto
ribeirinho de destaque, se consolidando como ponto de acesso a vários lugares
da região, o que, acertadamente, serviu para consolidar a motivação toponímica,
já referenciada tanto para os moradores,
quanto para os transeuntes e comerciantes do lugar.
Vale a ressalva de
que, mesmo que nosso estudo seja sobre o toponimo Mandioca, as variações
do Tupis: manyba, mandyba e maniva também são usadas como
topônimos nas áreas adjacentes ao Rio Itapecuru, a exemplo de Maniva, topônimo
do município de Santa Rita, que por estar há mais de 2km da margem do rio Itapecuru, não foi inserido no locus desta pesquisa.
Nos países hispânicos sul-americanos onde percebemos
a presença marcante da mandioca não só na gastronomia quanto nas lendas dos
Impérios Incas, Maias e Astecas, a mandioca é chamada de yuca e é
considerada como alimento presenteados pelos deuses, isto é, sagrado, enviado
ao homem em período de extrema escassez de alimentos, em que os povos clamavam
por ajuda, dos seus deuses e, forma atendidos com um alimento que poderiam
plantar e se alimentar abundantemente.
De fundamental
importância é frisarmos que o étimo mandioca, por vias do consumo (humano e
animal) e comercialização de subprodutos (farinhas, tapioca, bolos, doces,
bebidas), acabou se difundindo em outros continentes, chegando a ser cultivado
em Angola, Moçambique, Índia, China, Espanha e Portugal. A respeito deste
exportação da farinha de mandioca para Portugal, Lima (1998, p. 144) afirma
que, já no século XVIII, em 1797, “D. Rodrigo de Souza Coutinho dirigiu-se ao
governador do Maranhão D. Fernando de Noronha, transmitindo-lhe ordem régia de
sua Magestade para que fose facilitado o cultivo da farinha-de-pau e sua
remessa para o reino”.
A partir da etimologia de mandioca
podemos pereber a grande influência que têm as línguas indígenas na nomeação de
lugares no Maranhão, neste caso, se trata
da adoção e manutanção de uma palavra do tupi que, mesmo sendo proibido o uso
com a Lei pombalina (1758), foi sobrevivendo nessas pequenas amostras de
resistência, isto é: (i) no uso de indigenismos para nomeação de elementos antropoculturais
e da Terra/flora; (ii) na literatua oral, com as lendas e relatos que
sustificam o surgimento de seus minhos e elementos étnicos; (iii) de algumas
técnicas agríciolas de plantio e colheita de produtos como o milho, mandioca,
abóbora, feijão, batata doce; (iv) na gastronomia com elementos da fauna e da
flora, no consumo de alimentos in natura ou cozidos, moqueados, assados;
(v) na medicina popular com o manejo das ervas medicinais; em técnicas de caça
e pesca; (vi) em usos, costumes e hábitos que incorporamos à nossa rotina, como
comer de cócoar, fazer punhados de comida para levar à boca, dormir de rede,
entre outros.
No que tange aos indigenismos, ou seja,
às contribuições de palavras, construção ou
locução das Línguas indígenas que foram tomadas de empréstimo pela Língua
Portuguesa, muita foram mantidas, outras
foram adaptadas à grafia lusitana, mas o certo é que, na Toponímia maranhense é
significativa a presença de nomes de lugares/topônimos indígenas, conforme
podemos evidenciar na nomeação dos municípios do nosso Estado: Anajatuba,
Bacabeira, Mirinzal, Itapecuru Mirim, Bacuri, Bacurituba, Peri-Mirin, Camboa,
Anil, Bacanga, Itapiracó, entre outros.
A metodologia e os resultados esperados
A metodologia da pesquisa engloba a delimitação da área, o
levantamento dos topônimos, a classificação e a descrição linguística por meio
da classificação toponímica e da interpretação da nomeação do povoado como
sinal discursivo do processo de identificação dos moradores ribeirinhos, que já
estão consagrados na linguagem e cultura local. O foco é o espaço geográfico do
topônimo ribeirinho, a beira do rio Itapecuru; a nomeação é o reflexo da
prática discursiva ali operada que vai fazer com que o processo de
identificação se manifeste pela historicidade local sinalizada na motivação dos
topônimos.
No município de Itapecuru Mirim, essa regra que vale
para o Estado, também se aplica, uma vez que temos muitos topônimos de origem
indígena, caso do Povoado Mandioca, cujo étimo mandioca está entre as
“plantas nordestinas mais significativas no contexto regional, ..., a pesar da
sua generalidade por todo o território” (Dick, p. 164). O que a pesquisadora põe de relevo é que, entre os topônimos que são de origem
física porque resgatam elementos da natureza, a planta da mandioca, figura como
uma entre as principais que são usadas para nomear lugares no território
nacional, essa é uma das importância desse fitotopônimo, memorizar no coletivo
nacional, um elemento da flora nacional de fundamental importância na economia
e cultura do brasileiro.
Além de valorizar a presença da mandioca na Toponímia
nacional no norte, nordeste, centro-este, assim como das suas variações fitotoponímicas: Carimã, Croeira, Tapioca, Tapiti,
Tipiti, Manituba e Maniva, Dick (p. 195-196) nos assegura que:
A importância e a função motivadora
da vegetação na toponímia estão, portanto, caracterizadas, não apenas na
variedade de fatores determinantes, (...), como, também, no processo
distributivos dos nomes das áreasespecíficas de referência, de acordo com o
elemento predominante. De maior valiapara o estudo científico se torna, assim,
o topônimo, quando a espécie por ele lembrada se encontra em conjunção com a área
geográfica de sua ocorrência. (Dick,
p. 195-196).
A partir
dessa afirmativa da pesquisadora pontuamos que o Povoado Mandioca reflete
exatamente isso, por ter sua nomeação motivada por fatores: (i) econômicos, por
ter surgido em área de porto fluvial e de sesmarias; (ii) físicos-geográficos,
por ser comunidade ribeirinha e rural, onde há a grande incidência da
agricultura familiar e/ou de subsistência; (iii) étnico-cultural, por ser
demarcada, delimitada como sendo parte integrante de uma Comunidade
remanescente Quilombola, comprovando, dessa forma, que o que assegura Mey (1998, p. 76-77), quando afirma
que a
Língua se relaciona com a sociedade porque é a
expressão das necessidades humanas de se congregar socialmente, de construir e
desenvolver o mundo. A língua não é somente a expressão da ‘alma’ ou do íntimo,
ou do que quer que seja, do indivíduo, e é, acima de tudo, a maneira pela qual
a sociedade se expressa como se seus membros fossem a sua boca. (Mey, 1998, p. 76-77).
Na literatura
cuja temática gira em torno do ameríndio, são abundantes as lendas ou mitos
etiológicos, isto é, aqueles que explicam a origem de seres, coisas, técnicas,
instituições da cultura indígena, dessa forma, destacamos a publicação de
Savary (2016) e uma obra publicada pela Embaixada da Espanha que trata das
lendas da Amazônia. No livro, de edição bilíngue (Português/Espanhol) Gómez
Platero (2011) aborda 17 lendas, dentre elas encontramos a que trata da
mandioca. tanto a narrativa de Savary (2016) quanto a de Platero (2011) conta
que a filha do cacique de uma tribo tupi engravidou sendo virgem/sem namoro,
pariu uma indiazinha chamada mani, que adoeceu misteriosamente e morreu
antes dos dois anos de idade, após a morte de mani, as mulheres e todas
as pessoas da tribo regavam diariamente a cova da cunhã com água do rio, ocorre
que, um dia Gómez Platero, 2011, p. 31:
Na medicina popular
maranhense, a mandioca ou seus subprodutos estão presentes nos mais diversos
usos, a exemplo: (i) do mingau da farinha seca ou de puba que é usado para
aumentar o leite das parturientes/mulheres paridas; (ii) do cataplasma da
farinha seca ou farinha d’água que é usado para dores e inchaços; (iii) do
costume de engolir punhados ou caroços de farinha d’água para desengasgar de
espinhas de peixe; (iv) do uso da macaxeira dissolvida no vinho branco para
curar/tratar sífilis; (v) do cataplasma da raspa da mandioca para curar/tratar
erisipela; (vi) do uso da cachaça ou álcool misturado à tapioca com mel de
abelha para tratamento de queimadura de sol.
A respeito da lexia
cataplasma que citamos duas vezes aqui, vale o esclarecimento oportuno para
evitar incertezas, pois cataplasma nada mais é do que uma espécie de papa
medicamentosa feita de farinhas, polpas ou pó de raízes e folhas que se aplica
sobre alguma parte do corpo dolorida ou inflamada. Lima (1998, p. 126), explica
que para fazermos um cataplasma é necessário triturar/amassar/socar/pilar as
ervas até que virem um pó, misturar água e farinha de mandioca e aplicar quente
no local doente, entre dois ou três pedaços de pano, medicina popular genuína!
Na
gastronomia, os usos da mandioca são tão abundantes quanto os da medicina
popular, uma vez que as guloseimas preparadas a partir dos subprodutos ou
partes da planta/alimento, levam qualquer amante das farinhas, tapiocas ou
bebidas, a cometerem o pecado da gula, dessa forma, temos duas espécies de
mandiocas a amarga e a doce, o que difere uma da outra é que a primeira é
venenosa e precisa de tratamento especial para expurgar o veneno, já a primeira
pode ser consumida sem tratamentos especiais. Vejam na sequencia as partes das
plantas que usamos, assim como seus subprodutos, que comprovam a polivalência
desse alimento divino, a mandioca/yuca.
| ARTES
|
PRODUTOS
|
|
PLANTA mandioca amarga,
mandioca brava
|
Tubérculo, raiz, batata
|
farinha d’água ou
amarela, farinha seca ou branca, grossa ou fina/mimosa, farinha
carimã/massa-d’água ou puba, pirão, farofa, papas, mingau suco/molho tucupi,
tiquira
|
|
mandioca doce,
mandioca mansa, macaxeira, aipim
|
Tubérculo, raiz, batata
|
tapioca de
caroço, tapioca fina polvilho, goma, bolo, pudim, beiju, maniocaba
consumida cozida, assada, frita, em forma de purês
|
|
Caule
|
usado como
pedaços ou toras para plantio
|
Uma nova planta,
nascida sem sementes
|
|
folhas da
mandioca mansa
|
Folha inteira ou
picada
|
usada como se
fosse espinafre
|
No que se
refere ao tucupi, Lima (1998, p. 147) explica que esse “suco é no começo
venenoso,
mas, depois de fermentado torna-se bastante inofensivo para servir de bebida.”
Acrescenta ainda que esse líquido pode ser “misturado com sal, pimenta e alho
se transforma no tucupi simples e quando fervido ao fogo é chamado de tucupi
cozido, excelente molho para caça ou pescado”. Os bons glutões de plantão
quando ouvem tucupi, o associam também ao irresistível pato no tucupi, ao
tacacá, iguarias paraenses! Já nós maranhenses não resistimos a uma garrafada
de pimenta feita com o tucupi! Coisas de quem vive na região da Amazônia Legal (Lima, 1998, p.
149).:
A farinha é sempre bem-vinda à mesa
maranhense, d’água ou seca, escaldada como pirão, em farofa torrada ou molhada,
no angu, engrossando o chibé, com café, leite, melado, socada com arne na
paçoca, acompanhando a manga, o abacate, a melancia, encorpando a juçara, o
buriti (Lima, 1998, p. 149).
Salientamos ainda, que poucas palavras
representam tão bem a cultura e a língua dos nativos como mandioca, pois, desde
os primeiros registros de que temos notícia, a mesma aparece atrelada aos
hábitos alimentares dos aborígenes, além dos rituais sagrados da religião
cristã na América do Sul, quando os seus derivados farinhas, beijus e bolos são
produzidos durante as Ceias de Natal, Semana Santa e festejos tradicionais, sem
esquecer é claro da tiquira.
Há pelo menos 9 mil anos, os
indígenas sul-americanos domesticaram a mandioca, raiz que hoje é um dos
alimentos mais básicos da população brasileira. O estado de Rondônia foi o
pioneiro no plantio da raiz, que se espalhou por todo o território brasileiro e
foi recebendo diversos nomes, conforme a língua da tribo ou da variedade
cultivada”.
(Mendonça, Alves, 2020, p. 123)
Estudiosos das coisas do
Maranhão, como Lima (1998), Maranhão (2012) e Mendoça e Alves (2020) fazem um
arcabouço detalhado sobre a planta e o tubérculo. Esses pesquisadores são
enfaticos em afirmar que há duas espécies de mandiocas: a amarga e a doce, como
podemos evidenciar a seguir na afirmação de Maranhão (2012, p. 183) sobre a
planta que:
Produz na
raiz uma espécie de batata denominada mandioca, comprida e grossa de casca
áspera e grossa. Desta batata descascada, ralada, bem espremida, e depois
torrada em grandes alguidares de barro ou cobre, chamados fornos e assentados
sobre fornalhas, aqui se faz a farinha chamada da terra, e em Portugal,
farinha-de-pau, e que serve de pão aos habitantes do país. (Maranhão, 2012, p. 183)
No que se refere à técnica de plantio e fabricação de farinhas da
mandioca, tradicionalmente o processo dessa cultura, ainda é familiar ou de
subsistência e obedece ao seguinte processo: (i) preparo do terreno/roça com
queima, arrancamento de tocos, adubagem com as
coivaras; (ii) abertura de covas, de tamanho regulares, de 5 a 6
polegadas para o plantio do caule; (iii) consorcio do plantio da mandioca com
outros produtos alimentícios, como o milho, melancia, feijão, maxixe, quiabo,
vinagreira, para otimizar o uso do terreno; (iv) arrancamento da mandioca ou colheita
dos tubérculos/raízes/batatas, no período de 15
e 24 meses, a depender da terra, do clima e da necessidade do agricultor; (v) processo
primitivo de industrialização caseira com a lavagem, descascamento, moagem,
fermentação, prensa da massa e torragem na casa-de-farinha (Cf. foto 2).
Fonte
– Acervo
do Autor (2021
Foto 2: Agricultor
torrando farinha seca.
Quanto à técnica de fabricação da farinha de puba toda a carga de mandioca/bubérculos
é posta num local chamado de pubeiro (Cf. foto 3), que pode ser em
igarapés, fontes ou tanques de cimento, lá fica depositada de 2 a 3 dias para
que possa amolecer ou mesmo apodrecer, para então, obter um tipo de massa de
mandioca fermentada (a massa de puba), que pode ser usada para fazer iguarias
gastronómicas, dessa forma, o processo é simples: (i) a mandioca é posta
no rio para amolecer e é protegida das correntezas com palhas de babaçu; (ii)
na sequência ela é retirada do rio e transportada em jacás, no lombo de
jumentos para a casa-de-farinha; (iii) lá a mandioca é processada a partir da prensa
no tapiti para enxugar a massa obtida; (iv) a
massa obtida é torrada, transformando-se em farinha.
Foto 2: Pubeiro em Igarapé
Fonte
– Acervo
do Autor (2021).
Vale lembrar que,
caso a farinha seja seca ou branca, o que difere desses dois processos de
fabricação, acima descritos, é o ato de pôr no pubeiro, pois a farinha seca não
precisa apodrecer as raízes na água para ser produzida. Outra curiosidade a
respeito do manejo da mandioca para consumo, é muito comum, nas casas de
forno/casa-de-farinha, os agriculotres fazerem um tipo de lanche com a farinha
escaldada, isto é, quando ela não possui mais a toxina, que já fora extinta
pelo calor do forno e ainda não secou o suficiente, eles a temperam com se sal,
pimenta, limão, cheiro verde e se come com peixe assado, camarão, carne seca!
Em algumas regiões do município de Itapecuru Mirim e Presidente Vargas, essa
iguaria é chamada de cafofa, no vale do Itapecuru, é mais conhecida como macaco.
Análise
dos dados
As pesquisas
em Toponímia no Brasil, em nível de academia, têm fundamentalmente como
objetivo macro: a coleta e a formação de um banco de dados em textos
discursivos, que são arquivados e catalogados por meio das fichas
lexicográficas-toponímica ou/e artigos científicos. Desta forma:
I - Analisamos qualitativamente as
informações a fim de encontrar o que motivou a nomeação do topônimo selecionado
dentro do que observa a onomástica toponímica e do que já fora descrito nesta
pesquisa sobre a taxe de natureza antropocultural;
II - As informações toponímicas
presentes nesta pesquisa partem de um período histórico do século XVII, que
ficou conhecido, para a posteridade, como o da Fundação da França Equinocial ou
simplesmente invasão francesa do Maranhão, uma vez que é das narrativas
descritivas de D’Abville (2002), que remete ao ano de 1612, de onde tiramos o
primeiro registro toponímico referente ao rio Itapecuru, ou seja, a zona de
pesquisa do povoado;
III – Buscamos por meio da
investigação dos fatores linguísticos e extralinguísticos traçar a origem do
topônimo. Esse percurso pode ser visualizado pelo contexto histórico e na taxonômica
do topônimo, que respectivamente apresentam os primeiros registros do termo e
as suas alterações toponímicas.
Notadamente,
houve buscas em outros momentos emblemáticos, perpassando pela expulsão dos
franceses do Maranhão, pela invasão e expulsão dos holandeses, distribuição das
cartas de sesmarias e datas pelos portugueses, assim como registros em mapas,
documentos oficiais da administração pública, jornais antigos e autores
consagrados da historiografia maranhense.
Considerações finais
Deste modo, com a conclusão dos dados, a formulação
do corpus da pesquisa e após termos
alcançado os resultados esperados, acreditamos que as informações produzidas
por este artigo de natureza toponomástica podem contribuir na formulação de
novos estudos acadêmicos sobre a toponímia ribeirinha do rio Itapecuru e, por
conseguinte, da maranhense, assim como motivar os habitantes ribeirinhos a
conhecerem as suas raízes linguísticas, tendo como parâmetro o resgate da
linguagem dos topônimos, servindo de consulta para trabalhos escolares na
Educação Básica do Ensino Fundamental I ao Ensino Médio, principalmente das
escolas localizadas nos topônimos investigados. Assim, como possibilitar o
desenvolvimento de novas pesquisas acadêmicas sobre a temática.
Referências
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campesinato numa sociedade escravista: Maranhão, 1800 – 1850 / Mathias
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BECHARA, Ivanildo. Dicionário
escolar da Academia Brasileira de Letras: língua portuguesa / Evanildo Bechara (organizador). – São
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2022.
As sesmarias eram terrenos abandonados ou sem cultivos que os reis de
Portugal cediam aos novos povoadores para que estes fixassem moradia e,
consequentemente, cultivassem, dessa forma, a ocupação territorial poderia
desenvolver-se com fazendas, criação de gado, engenhos, entre outros.