O intervalo entre dois abismos
*Paulo José de Oliveira
Entre o peso de Dostoiévski
e o silêncio de Kafka,
há um lugar onde o coração aprende a existir sem respostas.
Eu já segurei como quem segura uma chama na mão,
achando que o ardor era prova,
que amar era resistir até virar cicatriz.
Confundi permanência com verdade,
e fiz da dor uma espécie de fé.
Havia noites em que eu acreditava
que tudo que fere é profundo,
que tudo que marca é destino.
E então eu ficava —
não por coragem,
mas por medo de que soltar fosse admitir
que eu tinha sonhado sozinho.
Mas o tempo...
o tempo não grita.
Ele ensina devagar,
como quem encosta a mão no ombro
e diz sem voz:
nem toda intensidade é amor.
Um dia entendi o gesto de partir.
Não como fuga,
mas como quem devolve ao peito o próprio nome.
Porque há dores que não são raízes,
são correntes.
E há silêncios que não são vazios,
são liberdade nascendo.
Eu segurei porque queria que fosse eterno.
Eu soltei porque queria que fosse verdade.
E entre ficar e partir,
descobri algo que ninguém me contou:
o amor que fica não precisa sangrar,
e o amor que dói demais
talvez nunca tenha sido casa.
Hoje não culpo quem segurou,
nem quem deixou ir.
Ambos estavam tentando amar
com as ferramentas que tinham.
Mas se me perguntarem o que aprendi
no intervalo entre dois abismos,
direi apenas isto:
há um tipo de amor que se prova no aperto,
e outro que se revela no alívio.
E às vezes,
o gesto mais sincero do coração
não é insistir —
é abrir as mãos
e finalmente respirar.
*Paulo José Santana de Oliveira, estudante, cronista e poeta, nasceu em São Luis (MA) em 11 de março de 1999. Filho de Fábio Nogueira de Oliveira e Gabriela Santos de Santana, estudou no Colégio Santa Teresa, é graduando do curso de Ciências Contábeis da UFMA. Seus textos carregados de sensibilidade onde extravasa seus sentimentos, são publicados regularmente no www.wattpad.com-user-Peraltajs, com o pseudônimo de Peraltajs. É coautor da obra, O Iguaraense, 175 anos de Vargem Grande (2020), organizada por Jucey Santana e Púcaro Literário IV (2024), organizado por Jucey Santana e João CARLOS Pimentel Can tanhedced. . Também tem poemas publicados no Jornal de Itapecuru e no blog literário de Jucey Santana: http://juceysantana.blogspot. com/

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