quarta-feira, 11 de maio de 2016

ITAPECURUENSES NOTÁVEIS


O LIVRO MAIS ESPERADO DO ANO
Por: Jucey Santana
No dia 19 de maio as 15h30min no Auditório  da Regional da Saúde – IPEM, será lançado a  obra  Itapecuruense Notáveis de autoria de Jucey Santana.
Esta obra é o resultado de um demorado estudo e pesquisas  em livros, jornais e inúmeros arquivos muitos dos quais corroídos pelo tempo, com o objetivo de compor a história  do município de Itapecuru Mirim  através de suas  personalidades,    com intuito de favorecer a sociedade e a classe estudantil uma  construção de conhecimentos da memória histórica da nossa região.
Ainda que o ritmo da sociedade contemporânea seja altamente tecnológico, os estudiosos recorrem à história como mecanismo necessário de entendimento para a previsão do futuro. A história local estabelece conexões entre conflitos diários em forma de política, lutas de resistência, mudanças e apegos a tradições, com os antepassados.           Quando salvamos o passado, resgatando a sua memória, estamos sendo  útil ao presente e ao futuro.  Segundo a citação da embaixatriz Beatriz de Moura quando esteve em Itapecuru Mirim em 1996: – Só poderemos saber para onde vamos se soubermos de onde viemos.
Meu interesse teve início a partir do meu tronco familiar, daí em diante passei a investigação mais abrangente como ponto de partida  a pesquisa da poetisa Mariana Luz, professora de meu pai.
A obra não é conclusiva. Muitas personalidades que fizeram história no município não foram favorecidas, diria que esta é uma primeira parte. A bicentenária Itapecuru Mirim ainda guarda muitos mistérios a serem desvendados.
Estão entre as 114 personalidades catalogadas na obra:  fidalgos, senhores de engenhos, políticos, poetas, escritores, musicistas, jornalistas, sindicalistas, latifundiários, professores, comerciantes e outros  que de algum modo contribuíram para o engrandecimento  da cidade.
Famílias ilustres do Sec. XVII e XIX
Na obra são destacadas as seguintes famílias: Belfort, Burgos, Vieira, Henriques, Lisboa, Silva, Gomes, Nunes, Gonçalves, Sousa, Leal, Cardoso, Reis e Serra.  A partir da segunda metade do Século XIX  surgiram as famílias: Nogueira da Cruz, Bandeira de Melo,  Frazão, Luz e outras.     No final do Século, passaram a ter atuação importante no cenário político os Sitaro e Bezerra.
Vale citar que os Bandeira de Melo, Nogueira da Cruz, Bezerra e Sitaro, continuaram atuando na política itapecuruense até os anos 40 do século  XX.
Primeira metade do século  XX
Novos núcleos familiares se formaram no inicio do século com a migração dos sírios-libaneses, que se instalaram em Itapecuru Mirim e movimentaram economicamente a cidade com várias modalidades comerciais. As principais famílias: Mubarack, Fiquene, Buzar, Assef, Jorge, Lauande, Ahid e outros. Também os retirantes das secas nordestinas se instalaram formando grandes comunidades familiares: Rodrigues (três famílias distintas), Araújo, Sampaio, Conegundes, Abreu e outros.
Itapecuruenses nas Academias Literárias
Figuram na obra, dois ilustres itapecuruenses que fizeram parte dos quadros Academia Brasileira de Letras: João Lisboa (patrono) e Viriato Corrêa (membro efetivo).
Entre os  filhos ilustres da terra, dez  tiveram seus nomes gravados nos anais  da Academia Maranhense de Letras, sendo cinco dos quais, patronos: Joaquim Gomes de Sousa, escritor e matemático;   Antônio  Henriques Leal, biógrafo, escritor e jornalista;  João Francisco Lisboa, jornalista e escritor;  José Cândido de Morais e Silva,  jornalista e professor e Pedro Nunes Leal, lexicógrafo, escritor e tradutor. Quatro membros efetivos: Salomão Fiquene, cientista, professor e escritor; Viriato Correa, romancista, teatrólogo e jornalista, Mariana Luz, poetisa, teatróloga e professora e Benedito Buzar,   escritor, jornalista e pesquisador.  Tivemos também um membro correspondente na pessoa do general Hastímphilo de Moura, escritor e general de divisão do Exército Brasileiro.
É de bom alvitre lembrar Joaquim de Jesus Dourado, romancista e cronista, outro imortal da Academia Maranhense de Letras  que mesmo  nascido no Ceará viveu quase 13 anos  em Itapecuru Mirim na juventude, época que seu tio e tutor foi vigário da Paróquia e depois de ter recebido o sacramento da ordem,   desenvolveu o um trabalho religioso e empreendedor de  relevância na Paróquia de Nossa Senhora das Dores.  Portanto, em minha opinião, foram onze itapecuruenses  que integraram os quadros do  Academia Maranhense de Letras.
No Instituto Histórico e Geográfico Maranhense temos  Benedito Buzar e Raimundo Gomes Meireles este último também integrante dos quadros da Academia Ludovicense de Letras. Não podemos esquecer João Duarte Lisboa Serra que é patrono da cadeira 36 da Academia de Letras do Banco do Brasil e foi sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,  comprovando que a terra de Mariana Luz e Gomes de Sousa é berço de cultura.
Muitos ilustres que desfilam nas páginas do presente livro, não são itapecuruenses natos, mas, se instalaram na região com trabalho e determinação, auxiliando no progresso local.

Também registramos notáveis filhos da terra que fizeram sucesso em outras plagas, levando longe, com muito orgulho, o nome de Itapecuru Mirim.



domingo, 8 de maio de 2016

JOVENS ARTISTAS ITAPECURUENSES



Por: João Carlos Pimentel

         A cidade de Itapecuru Mirim é famosa pelo seu passado glorioso ligado à economia, com grande produção de algodão e comércio de gado bovino; à história, servindo de palco para episódios da Balaiada e da Adesão do Maranhão a Independência do Brasil; e principalmente à intelectualidade, sendo berço de intelectuais como a magnífica Mariana Luz, o ilustre Gomes de Sousa, o notável Zuzu Nahuz e tantos outros.
Devido a esse passado imponente é comum ouvirmos em tom de lamentação, que Itapecuru é a terra do “já foi e já teve”. Mas nem só das glórias do passado vive Itapecuru, seus filhos contemporâneos, tem buscado manter acesa a chama da intelectualidade com iniciativas como a criação da Academia de Ciências, Letras e Artes objetivando fomentar a produção cultural, a pesquisa e a preservação dos diversos aspectos da história itapecuruense.

No entanto, não é a Academia o tema deste texto, e sim o CURSO DE DESENHO ARTÍSTICO DA CASA CULTURA, criado em março de 2013, por iniciativa da escritora Jucey Santana, em parceria com Beto Diniz. Atualmente o dedicado e talentoso professor/artista Ailson Lopes, é o instrutor do curso,  mantido com o apoio da prefeitura  Municipal a solidariedade  de alguns outros itapecuruenses.
Em breve conversa com Jucey Santana, Ailson e os alunos do curso, pude conhecer um pouco mais dessa bela iniciativa, que pode servir, em breve, para a criação de um centro de criatividade em Itapecuru Mirim.
Segundo Jucey, ela criou o curso de desenho, que é gratuito, para atender a população jovem que busca preencher o tempo ocioso com atividades lúdicas e criativas com foco nas artes visuais e principalmente para inclusão dos que estão expostos a vulnerabilidade social. 

O curso funciona em uma sala ampla na Casa da Cultura Professor João Silveira e é ministrado pelo Ailson, que trabalha como professor voluntário, sendo auxiliado pelos alunos mais experientes.
Para participar do curso basta ter idade mínima de 10 anos. Os alunos são divididos em dois turnos com aulas três  vezes por semana. Sendo duas turmas por turno. Alguns alunos gostam tanto do curso que frequentam todos os dias.
Quando perguntei ao professor Ailson a respeito das suas afinidades artísticas, ele comentou: “sempre gostei do trabalho artístico. Sou pintor amador, autodidata. Os cursinhos que apareciam por aqui eu fazia. Sempre fui curioso. Sou também músico, e estou também iniciando o curso de xadrez na Casa da Cultura, para movimentar a Casa com atividades culturais e lazer saudável. ”
Ao conversar com Ailson é possível perceber a sua felicidade em contribuir com a formação artística de tantos jovens. Segundo ele, “é um trabalho bastante prazeroso pelo fato de ser uma atividade que tenho afinidade. Construí amizades, sou respeitado e valorizado na minha arte. Vejo com satisfação o desenvolvimento de muitos alunos e a busca incessante por espaços desta categoria.

Os alunos comentaram que despertaram o gosto pela arte de desenho e pintura ainda na infância, e ao saber do curso, procuraram a Casa de Cultura, iniciaram as aulas e lá permanecem com muita dedicação.  A maior motivação da maioria é o professor Ailson. Ele é muito querido. Tem uma excelente didática, sabe brincar, coloca apelido em todo mundo, mas ao mesmo tempo é exigente e respeitado pelos alunos.  O sonho de todos é que o curso seja legalizado e o Centro Artístico seja criado em Itapecuru Mirim.

“Me sinto gratificado em poder dar essa contribuição aos jovens carentes de atividades culturais e artísticas, preenchendo uma lacuna para a classe juvenil exposta aos descaminhos sociais.”
Ailson Lopes


Texto publicado no artedomaranhao.blogspot.com.br
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CEM ANOS DA PROFESSORA SANTINHA



Por: Benedito Buzar

No meu santuário de recordações, uma mulher terá sempre um lugar cativo e será eternamente reverenciada: Anozilda Santos Fonseca ou Santinha. Foi ela que me deu a luz da alfabetização e ainda me fez devoto das letras e dos livros, que me valeram a ser bem sucedido no curso primário e chegar ao ginásio sem maiores problemas.
Por tudo que fez por mim e pelas novas gerações da minha terra, curvo-me diante dela, com o respeito e a veneração que merece, para homenageá-la pela luminosa idade de 100 anos, que completou dia 26 de abril, mas que os familiares, ex-alunos e amigos vão comemorar hoje.
Para minha alegria e felicidade, acompanhei de perto a sua longa trajetória de vida, toda dedicada ao magistério, profissão que abraçou e se entregou de corpo e alma.
Vê-la completar uma centúria de existência, plena de invejável lucidez e inquebrantável vitalidade, é uma glória e uma benção divina. Dos idos de minha infância, quando a conheci, aos dias de hoje, Dona Santinha  nunca deixou de ser uma mulher destemida , virtuosa,  exemplar esposa, mãe e amiga. Na sua caminhada de vida, passou por bons e maus momentos e enfrentou dias de alegria e de tristeza, mas manteve-se firme, sabendo-se comportar com dignidade e ética.
Por dever de gratidão e sentimento de admiração, quero hoje tornar pública a  história de vida dessa mulher que veio ao mundo para cumprir a mais nobre missão humana: educar, educar e educar.

Anozilda nasceu na cidade de Guimarães, filha da doméstica Antoninha e do farmacêutico Manoel dos Santos. Com oito anos,  já chamada de Santinha, mudou-se para São Luis, onde o pai montou uma botica, na Rua de Santana.  Santinha só não foi farmacêutica, porque a mãe obrigou-a ser professora. Começou os estudos na Escola Modelo de onde saiu para brilhar em outros colégios, como aluna exemplar, no Convento de Santa Teresa, Ateneu Teixeira Mendes, Rosa Castro e Liceu Maranhense. Diplomou-se normalista em 1936, mas só três anos depois, ou seja, em 1939, conseguiu o emprego de professora substituta, lotada na cidade de Itapecuru-Mirim, no Grupo Escolar Gomes de Sousa, que ainda funcionava numa casa particular. Ficou apenas um ano na função, pois a titular, voltara às atividades. Logo depois, outra professora, na mesma cidade, pediu licença para tratamento de saúde e ela é convocada para substituí-la. Cumprida a missão, retorna a São Luís, indo lecionar num colégio no interior da Ilha.
            Nos idos de 1941, conhece em Itapecuru um rapaz forte e bem disposto chamado José Barbosa Fonseca, mais conhecido por Zezeca. O namoro rapidamente se transforma em avassaladora paixão, mas contra a vontade de dona Antoninha, que desejava para a filha um candidato formado. Quanto mais a mãe pressionava, mais Santinha se empolgava com a conversa e o porte físico do jovem itapecuruense.
Na tentativa de sufocar aquela arrebatada paixão, dona Antoninha exila a filha em Guimarães, mas o namorado, perdido de amor, parte atrás da amada, apenas com a cara e a coragem. O auge da perseguição ocorre quando flagra a filha e o namorado sob tórrido romance, que custa a Santinha uma incrível surra.
Diante de tamanha agressão, a filha reage e articula com o namorado uma fuga para São Luis, onde se hospedam na casa de uma amiga. Dias depois, procuram o Tribunal de Justiça, cenário da união jurídica de Santinha com Zezeca, ato realizado em 8 de maio de 1942. Para pagar as despesas do casamento, a noiva teve de se desfazer de um preciso anel de ouro, por ironia, presente da mãe.

Cinco dias após o casamento, o casal viaja para Itapecuru, onde residiam os pais de Zezeca, na suposição de que, naquela cidade, tinham pelo menos comida e casa para morar. Para ajudar no sustento da família, Santinha resolve lecionar em casa, valendo-se dos anos em que, como professora substituta, se tornou conhecida e fez um bom relacionamento na cidade. Além do ensino particular, ela consegue um lugar de professora no Colégio Rio Branco, graças à benevolência do proprietário, o professor João da Silva Rodrigues.
No correr de 1943, a sorte começa a arejar a vida do casal. Tudo acontece quando o engenheiro Emiliano Macieira, então diretor do Departamento de Estradas de Rodagem, visita a cidade. Sem medo de ser feliz, Santinha pede emprego para o marido e Dr. Emiliano concede.
No ano seguinte, o Governo do Estado começa a construir um grupo escolar em Itapecuru, para atender a demanda crescente de matrículas e levando em conta de que a casa onde funcionava o colégio não mais satisfazia às exigências educacionais do município. Quando o interventor Paulo Ramos e o prefeito Bernardo Tiago de Matos escolhiam o local onde seria levantado o grupo escolar, Santinha não deixa a oportunidade fugir. Apresenta-se como professora e desempregada. Paulo Ramos impressiona-se com a desenvoltura e a iniciativa da normalista e a nomeia.
Imediatamente começa a trabalhar no velho e improvisado Grupo Escolar Gomes de Sousa, sob a direção da professora Sinhá Tavares. Dois anos depois, em 1946, o novo colégio é entregue à cidade, em solenidade que conta com as presenças do interventor Saturnino Bello e do prefeito Abdala Buzar Neto.
Santinha, no novo colégio, impõe-se pela liderança e competência na arte de ensinar e de lidar com adolescentes. Nos meados da década de 50, a então diretora do Gomes de Sousa, professora Cotinha, aposenta-se. Espontaneamente, o nome de Anozilda Fonseca vem à tona para substituí-la. As autoridades do município e a comunidade apontam-na, por mérito e direito, para dirigir o novo Grupo Escolar.
Na função de diretora, passa vinte anos, no correr dos quais conquista a admiração dos corpos docente e discente pela maneira democrática e transparente como se conduzia à frente do colégio. Algumas vezes, ela chegou a ser alvo de perseguição, por não se submeter às injunções e aos caprichos da política municipal.
Em 1969, Santinha, decide mudar completamente o rumo de sua vida familiar. Em função dos nove filhos, alguns precisando de ensino universitário, outros de emprego, ela deixa Itapecuru, onde viveu boa parte de sua existência, construiu um lar e se fez respeitada e conceituada.
Negocia a sua transferência para São Luís com a Secretaria de Educação, sendo a mesma deferida, sem perder as vantagens e os direitos adquiridos. Passa o cargo de diretora do Gomes de Sousa para a amiga e professora Maud Mubarack, e assume, em São Luís, a diretoria de um colégio no bairro Sacavém, e ainda consegue com o então governador José Sarney uma casa para morar, construída pelo IPEM.
Anos depois, por razões pessoais, pede remoção para o Colégio Júlio Mesquita, na Cohab, na direção do qual se manteve até o ano do seu pedido de aposentadoria, em 1974.


quinta-feira, 5 de maio de 2016

LAVADEIRA


À minha mãe

   Por: João Batista

    Tu que lavas, velha guerreira,
    Alegre, cantando, púrpura fina,
    Subindo e descendo ias tu na ladeira
    Samaritana, cândida, és linda.

   Cores! Que cor era teu quinta,l
   Artista, exposição, que beleza,
  Enfeitas inesquecível varal
  E como deusa era tua leveza.

  Tuas mãos meigas, suaves e perfeitas,
  De magia invejável, era sim,
  Qual a fonte, me diz, que rejeita
  O magistral perfume das roupas, jasmim.

  Vivas, prêmio nobel, que lição,
  Heroína imortal, filha da emoção,
  Quem aquele que não se curva ao teu trono?

  Tua arte é uma fonte, que brancura,
  Que moldará teu descanso, flores puras
  E não te legou, ó lavadeira, te amo.




   João Batista Pereira dos Santos, poeta e teatrólogo,  é patrono da cadeira nº 10 da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes. Faleceu em 2.10.1999 atingido por  um raio.


terça-feira, 3 de maio de 2016

O Cisne do Itapecuru..


Por: Josemar Lima                                                                                        série crônicas – ano III/nº 29/2016

Fui a busca de um itapecuruense que foi fundador e o primeiro presidente do Banco do Brasil e encontrei muito mais do que procurava. Trata-se de JOÃO DUARTE LISBOA SERRA, nascido em Itapecuru Mirim, em 31 de maio de 1818. Teve como genitores Francisco João Serra e Leonor Duarte Serra, uma das famílias ricas residentes na então recém-criada Vila do Itapecuru-mirim e citado no livro “O Dia a Dia da História do Itapecuru Mirim” de autoria do jornalista conterrâneo Benedito Bogéa Buzar.

Antes de chegar à presidência do Banco do Brasil esse jovem itapecuruense teve uma trajetória de vida marcante, passando pela Universidade de Coimbra, bacharelando-se em matemática, ciências naturais e filosofia; foi deputado pelo Maranhão na Assembleia Nacional, passou pelo governo da Bahia, foi conselheiro do império e conselheiro da Fazenda Nacional.

Fez seus estudos primários em São Luís, capital do estado do Maranhão. Muito aplaudido pela sua brilhante inteligência, doce caráter e ótimo procedimento, segue para Portugal em 1834, com apenas dezesseis anos, e na Universidade de Coimbra cultivou a poesia com ardor e, pelas suas primeiras e felizes composições publicadas na Revista Acadêmica da Universidade de Coimbra, em 1839, prenunciava-se um poeta de alto merecimento e grande futuro, como observa o escritor Joaquim Manoel de Macedo em seus comentários sobre a vida acadêmica de Lisboa Serra, como era conhecido pela crônica literária de Coimbra.

O seu primeiro e belo canto denomina-se “Subindo pelo Vouga”, ambientado na paisagem portuguesa, muito elogiado pela crítica literária lusitana e que vem reproduzido no Phanteon Maranhense, tomo 2º, pp. 177/179, de autoria do jornalista, escritor e pesquisador, também itapecuruense, Antônio Henriques Leal.

Subindo o Vouga, publicado em 1839, igualada em beleza ao romantismo da canção “O Pastor do Rochedo”, de Schubert, abre em grande estilo a obra do jovem poeta itapecuruense. Seus primeiros versos seguem rumo à paisagem da natureza, musa que lhe inspira doce enlevo:
“Sumiu-se o Sol! É quase amortecida
 A muda desmaiada natureza!
E em dormente langor, em paz serena
Parece molemente reclinar-se
Nos torvos braços da calada noite,
Que de Sombras em leito majestoso
Aa vai acalentando”
...
Conclui seus estudos em Coimbra em 1841 e escreve “Um Adeus aos Meus Amigos”, poesia de sua partida da Universidade de Coimbra.

De volta ao seu Maranhão, visita a sepultura de sua queridíssima irmã, Leonor Francisca Lisboa Serra, não se sabe ao certo se em São Luís ou Itapecuru Mirim, e derrama de sua alma mais um emocionante poema “No Cemitério dos Cristãos”, uma canção com melodia melancólica, profunda, longo gemido cheio do mais terno sentimento, publicado nos jornais e revistas de São Luís em 1842 e, também, reproduzido no já referido Phanteon Maranhense, tomo 2º, pp. 180/186.

 Antes, anotou palavras que   inspiram uma prece sentida:

“Em qualquer recanto do Globo em que me asile, no labiríntico tumultuar das cortes, ou no plácido remanso da natureza, no centro da risonha prosperidade, ou a braços com a feia adversidade, oh!  Nunca este dia deixará de ser por mim consagrado à mais viva, à mais pungente saudade, nem os meus suspiros, convertidos em ardentes preces, deixarão de subir ao trono do Senhor”. 

 O tema central da elegia “No Cemitério dos Cristãos”, de Lisboa Serra, é a saudade e as meditações acerca da vida em outra dimensão maior.  Assim é o início do canto elegíaco:
“Asilo da solidão!... Morada escusa dos mortos!
Quão sublime falas ao coração do Vate,
Que te busca de saudosas memórias repassando
(Oh! Quão saudosas!)
E no pó das campas vem meditar saudades
Que revela silêncio dos túmulos!
...
Em Coimbra, conheceu e foi colega de turma de Gonçalves Dias. Tornaram-se amigos fiéis e, quando da morte de sua irmã, em 1841, o futuro autor de “Canção do Exílio” escreveu e dedicou ao amigo o primeiro canto de um de seus poemas.

Tudo indicava que o “Cisne do Itapecuru”, antonomásia possivelmente criada pelo estimado amigo, seguiria o culto às musas, também poeta inspirado que já provara ser.  Mas não foi assim: Por quê? Sua prodigiosa inteligência, mesmo com tenra idade, apenas vinte e quatro anos, o direcionou para novos desafios.

Ainda em 1842, Lisboa Serra deixa o Maranhão e vai para o Rio de Janeiro, capital do império, onde casa-se com uma jovem fluminense que conhecera ainda em Coimbra.

O casamento, o contato diário com o mundo econômico e financeiro, pois agora já desempenhava com louvor a função de Inspetor da Tesouraria da Província do Rio de Janeiro, parecem ter apagado no promissor poeta a flama da poesia?

Creio, leitores, que foi exatamente isso! Eu, quando estudante em Itapecuru Mirim, aventurei-me até a escrever sonetos decassílabos e venci festivais de poesia, mas quando vim para São Luís e, no INCRA, debrucei-me sobre uma máquina de calcular impostos de terras, e eram mil e oitocentas operações feitas para a geração de cada guia do Imposto Territorial Rural, também fui progressivamente perdendo o veio das belas palavras. Só redigia telex? É a vida!

Voltemos a Lisboa Serra!

“Domine Exaudi Orationem Meam”, título em latim que em tradução livre significa (Ó Deus, Ouve a Minha Oração) foi literalmente o seu último canto. É uma enternecida prece, partida de um coração de pai estremecido à lembrança cruel de deixar seus filhos órfãos, escrita pouco antes de morrer, publicada no jornal “Correio Mercantil” e depois na Selecta Brasiliense. Também é registrada no Phanteon Maranhense. Lisboa Serra desceu à sepultura em 16 de abril de 1855, aos 37 anos de idade, vitimado por uma nefrite albuminosa, uma grave doença renal; legando à pátria a memória de um homem honrado, de esclarecida inteligência e do mais generoso coração.

A respeito da vida acadêmica de Lisboa Serra, o dicionarista e bibliográfico Sacramento Blake registra as seguintes informações: “Foi um dos fundadores da Sociedade Estatística, sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e cultor fervoroso das letras, principalmente da poesia, desde os tempos acadêmicos, época em que foi colaborador da Crônica Literária de Coimbra”. É patrono da Cadeira 26 da Academia de Letras do Banco do Brasil.

Como quer que fosse o jovem e promissor poeta sufocou em sua alma as inspirações de seu gênio, e tudo se voltou para o positivismo da administração e para as aspirações políticas. Nessas também mostrou toda a sua precoce genialidade!

Na função Inspetor da Tesouraria da Província do Rio de Janeiro o jovem itapecuruense destacou-se pela honradez e irresistível predomínio de uma inteligência brilhante. O governo foi então atribuindo-lhe funções mais importantes e em todas desempenhou-as sobejamente, superando todas as expectativas nele depositadas. O governo o chamou para exercer a função de Tesoureiro da Fazenda Nacional. Exerceu por um curto espaço de tempo a Presidência da Bahia quando foi convocado para coordenar a criação do Banco Nacional.

Foi nomeado o primeiro Presidente do Banco do Brasil, conforme ato datado de 05 de setembro de 1853, permanecendo até 1855, quando teve que se licenciar para tratamento de saúde. Entre 1847 e 1853 foi deputado pelo Maranhão na Assembleia Nacional, com destacada atuação, principalmente da defesa intransigente dos segmentos mais fragilizados da sociedade.

Mesmo originário de uma família que integrava a elite maranhense, defendeu na Assembleia Nacional em celebres discursos a liberdade dos negros, e exigia: “que o governo manifestasse uma vontade firme e enérgica no emprego das medidas necessárias para lançar longe de nós essa nuvem negra e medonha que nos vem das terras africanas. Ela encerra uma questão de vida ou morte para o futuro do império”.

Estranho à sórdida e mentida política de personalidades – apanágio da mediocridade – ele bebia os princípios desta ciência na filosofia e no evangelho: para ele o fim da política era o bem-estar moral e material da sociedade por meio da ordem, da liberdade e da igualdade. Detestava essa liberdade frenética e delirante que substitui o governo pela anarquia, a moralidade pela depravação, a religião pela impiedade, a virtude pelo crime.

Esta era a sua convicção política, íntima, profunda, convicção que ressalta em todos os seus escritos, em todos os seus discursos; era o escopo, a que sempre se dirigiu firme e resoluto, sem embargo de ver a seu lado estes ou aqueles homens, porque ele reconhecia que em política “as ideias são tudo, e os homens pouco”.

Estes dois últimos parágrafos foram extraídos da Crônica Biográfica, intitulada “Uma Lágrima à Memória do Conselheiro João Duarte Lisboa Serra, escrita por R.A. Valle de Carvalho, publicada originalmente pelo Jornal Observador de Lisboa, nº 42, de 14 de maio de 1855.

É mais um itapecuruense que integra essa geração de ouro, atualmente compondo a nossa imortal “Legião do Além” que, graças a Deus, continua a amar essa terra e a nos enriquecer com seus ensinamentos e exemplos de vida. Que esses exemplos se estendam sobre a nossa velha e amada Itapecuru Mirim!

Procurava, no início, talvez um carrancudo financista que chegou à condição de primeiro presidente do Banco do Brasil, mas encontrei um afável jovem, uma inteligência privilegiada, um poeta talentoso, um parlamentar brilhante e um administrador com capacidades múltiplas. Procurava uma águia e encontrei a beleza e leveza de um cisne – O Cisne do Itapecuru!

     JOSEMAR SOUSA LIMA é economista, com especialização em Desenvolvimento Rural Sustentável e membro da Academia        Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes – AICLA.