domingo, 8 de janeiro de 2017

BENEDITO BRÁULIO MENDES



Jucey Santana

 Benedito Bráulio Mendes – Biné Mendes - Nasceu em Itapecuru Mirim em 26 de março de 1908.    Fez curso de enfermagem e trabalhou no Departamento Estadual de Estradas de Rodagem (DER) na função de enfermeiro.

Era considerado médico dos pobres. Atendia a todos que batiam em sua porta a qualquer hora. 

Possuindo alguns compêndios de farmacologia homeopática e enciclopédia agrícola, da época que cursou enfermagem, dominava o conhecimento de manipulação de medicamentos caseiros tendo receita rápida para qualquer doença. Fazia pequenas cirurgias,  extrações de dentes e   partos.

Atuação na Política

Na política, foi vereador em dois mandatos, chegando a responder pela presidência da Câmara Municipal em substituição ao presidente Orlando Mota que se afastou das funções para assumir a Prefeitura Municipal em 1951.

 Sua  atuação na política foi  relevante, tendo apresentado vários projetos entre os quais o de  abrir crédito imediato para construção  de uma  olaria   objetivando   incrementar a fabricação de telhas e tijolos, para vender os material de construção mais barato à população ao tempo  que criava emprego e renda aos desempregados  e  comerciantes de transportes.  Também recuperou a rampa Manoel Cobra para evitar que a Rua Vistosa desaparecesse. 

Sempre foi determinado na luta pelo progresso do município. Os irmãos Mendes, Antônio, Manoel e Raimundo Álvaro (Mundiquinho),  foram renomados comerciantes. Mundiquinho foi também político e sindicalista, tendo exercido quatro mandatos na Câmara Municipal  chegado ser  prefeito de Itapecuru Mirim  em 1945 e consta como um dos fundadores do Sindicato dos Lavradores juntamente com Sebastião Cabral em 1949.

                   Associações  e Sindicatos

Foi incansável benfeitor do município e incentivador dos produtores rurais. Dinâmico e questionador,  auxiliava na formação de sindicatos e associações de classes de trabalhadores.  Foi um dos fundadores da Associação Comercial e Industrial de Itapecuru Mirim,  em 1º de maio de 1944 que teve como primeiro presidente  o amigo José Alexandre de Oliveira. 

 Em 24 de maio de 1954, Biné Mendes com  o coronel José Alexandre de Oliveira, padre José Albino Campos, João Rodrigues, Abdala Buzar, Manoel dos Santos  e muitos outros criaram a Cooperativa Industrial e Agrícola com o objetivo de fazer funcionar a Usina de Álcool de  Mandioca e beneficiar com financiamentos pequenos empresários e agricultores.

Participou da fundação do Clube Social de Itapecuru Mirim em 15 de novembro de 1961 tendo sido um dos diretores.

Foi sócio fundador do Sindicato Rural de Itapecuru Mirim criado em 21 de março de 1966 tendo como primeiro presidente o seu amigo Bispo Rodrigues.

A Família

Casou-se com Raimunda Dácia Mendes, com quem teve 6 filhos. Ficando viúvo em  8 de agosto de 1950 contraiu novas núpcias com Teresinha de Jesus  Aragão  em  1953,  nascendo do consórcio 7 filhos.  A segunda esposa faleceu  em 1978.

Depois do segundo casamento, ainda no início dos anos 50, foi residir no Caminho Grande, atual Avenida Benedito Bráulio Mendes, onde se tornou muito querido e popular. Por ser proprietário de olaria e de máquina de beneficiar arroz, sua casa era muito  frequentada pelos inúmeros trabalhadores que dependiam  direta ou  indiretamente dos serviços do “Seu Biné”, como era conhecido.

Ainda nos anos 50 construiu estradas rurais e pontes, auxiliado diretamente  pelo companheiro e compadre Manoel Germano dos Santos, que era uma mistura de cientista e engenheiro leigo.  Algumas das pontes construídas por eles foram: do riacho Paulica, do rio Iguará e Riachão entre outras.

Biné Mendes foi um líder muito  querido  pelo povo. Sempre me orgulhei  de tê-lo por padrinho. Aliás, devo esclarecer que ele era padrinho de todos os vizinhos que eu conhecia no Caminho Grande, da minha infância,  uma espécie de patrono. É a minha homenagem a esse notável itapecuruense que faleceu   em 20 de março de 1976.










  O texto faz parte do livro Itapecuruenses Notáveis  (2016), de autoria de Jucey Santana

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Uma viagem confortável



João Francisco Batalha

         Exonerado da SEDUC/MA, depois de 23 anos de serviços prestados ao Estado do Maranhão, alterei meu estilo de vida. Uma semana em Arari e três em São Luís (escrevendo minhas memórias ou viajando para outros destinos).

         Tenho feito minhas excursões para aquela cidade, para onde viajo todos os meses, pelo Trem de Passageiros da EFC, da Vale. Mais barata do que uma viagem de ônibus ou de Van. Classe executiva, R$ 28,00; Classe Econômica R$ 12,00.

         Rapidez (2 horas e dez minutos de viagem), pontualidade, conforto, segurança e sistema de controle monitorado, que garante a confiança do trajeto, com área sinalizada e luzes indicativas. Portas divisórias automáticas. Partindo da Estação de São Luís prossegue-se cortando o interior sudoeste da Ilha de São Luís, Campo de Perizes e áreas rurais de Bacabeira, Santa Rita, Anajatuba, Miranda do Norte e Arari, num percurso de 126 quilômetros de belas paisagens.

         Lanchonete, restaurante, refeições e lanches de boa qualidade. Boa climatização e comodidade, com poltronas confortáveis e espaçosas (duplas e individuais), numeradas e declináveis. Mais de dez vagões de passageiros, todos climatizados.

         Bom tratamento dos servidores da empresa, banheiros limpos e higienizados. Belas visões e panoramas agradáveis, que se descortinam no decorrer da viagem, através de amplas janelas envidraçadas, sem poluição sonora.

         Áreas de refeição, de apoio e PcD, ambulatório, fraldário, TV/Vídeo, tomadas e entradas de USB e dispositivos para músicas diferentes. Pode-se, ainda, acessar tablete e redes sociais através do sistema wi-fi. Escrever e-mails, visitar sites e trocar mensagens. Ou, então, bater papo a dois, nas poltronas; ou em grupo, nas mesas do refeitório.

         Não comparável com os morosos ônibus, em decorrência do fluxo de veículos da BR 135, ou da insegurança das Vans que tomam parte do tempo fazendo recepção ou distribuição de passageiros. Algumas das tais com motoristas desatenciosos ou colados aos celulares durante a viagem, ou até mesmo, porfiando com os concorrentes, o que leva risco à vida e à integridade física dos viajantes.

         Diante da insegurança das estradas, o roteiro de Trem é uma boa opção para viagens individuais, a dois, ou em grupos, para todo o corredor da EFC que liga São Luís ao sudeste do Pará, atravessado os rios Mearim, Pindaré e Tocantins, interligando mais de vinte comunidades, através de uma dezena de paradas e das estações de Santa. Inês, Açailândia, Marabá e Parauapebas.





terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A PROFECIA DOS TAPUIOS URUATIS



Daniel Ribeiro

Às águas às margens da tribo subiam demasiadamente, ganhavam outra tonalidade avermelhada, barrenta e escura, era o sinal do espírito das águas, haveria de chover por várias luas, previa Guaraci a filha mais nova do cacique em mais uma de suas visões. Naquela tarde todos estavam preparando mais uma cerimônia para os espíritos da floresta que haveriam de percorrer a costa do grande rio “Itapicuru”. Segundo a tradição desses povos a cada 25 anos aconteciam grandes cheias que inundavam o entorno do aldeamento, obrigando os índios a adentrarem a mata em busca de abrigo. 

Touceiras de espinhos de tucum era o lugar preferido para a manifestação da presença dos deuses, que logo arrebatariam todo o mal, trazido das águas de cima do grande e majestoso Itapicuru. Os Uruatis respeitavam muito esse manancial sagrado que garantia a sua sobrevivência, por isso, não permitiam nenhum cultivo na sua mata ciliar, quem o fizesse sofreria punições severas. Após as oferendas serem ofertadas a Tupã deus do trovão, raios e tempestades e a Caaporã protetor das florestas e dos rios partiriam em retirada, respeitando os limites que haveriam de inundar todo o leito. Os nativos construíam suas pequenas ocas em terras muito acima do leito do rio, seus antepassados também entenderam a dinâmica das inundações, por isso, adotaram um calendário de acordo com o ciclo das enchentes, dividia o ano em dois longínquos períodos que seriam respectivamente o tempo de Peurê, o senhor do verão e Nhará, que preside o inverno, o próprio Itapicuru era sinônimo de divindade. 

Entre as crianças era contado à lenda do grande peixe, o “Surubim de Cama” que habitava o fundo do rio, era um semideus violento e irritável, agitava as águas, e atormentava os homens, protetor das espécies de peixes e animais aquáticos. Nessa ocasião somente as mulheres aproximavam das beiras, os homens só poderiam tomar banho nos igarapés, segundo Ubiracy o pajé da tribo, o terrível monstro assemelha-se a um tubarão, implacável com aqueles que desobedecessem à estação de reprodução dos peixes. 

No entanto, adorava receber enfeites, e pequenos outros peixes como o Jeju, Bodó, Carambanja e o Cascudo encontrado principalmente nos igarapés e afluentes, eram apresentados como oferendas somente pelas índias virgens da tribo, isso acalmava as águas quando o gigante estava muito agitado. Reza ainda a lenda que nas noites de lua cheia, o mesmo transforma-se em homem e seduzia suas parceiras para margens dando continuidade a espécie de gente dessas matas. 

A sabedoria dos Tapuios passada de geração em geração transmitia os ensinamentos do cultivo da terra, manipulação das ervas, e os ritos de celebração religiosa, além dos segredos das florestas. A jovem Guaraci herdara o dom de prever as coisas, desde criança tinha visões proféticas em seus sonhos. Numa madrugada chuvosa sonhou que homens brancos, barbudos com um mau cheiro impregnado, usando vestimentas que cobriam todo o corpo navegariam o majestoso rio acima expulsando o seu povo, deitando com suas irmãs, e destruindo tudo que encontravam em seu caminho. 

Depois em outro de seus apocalípticos sonhos, viu os primeiros colonizadores europeus que traziam no seu corpo doenças, que foram dizimando a todos os povos indígenas da região. Fazendo-os se deslocarem para terras mais ao sul que ficava há léguas de distância. Os colonizadores começam a explorar o pau de tinta muito comum nessa região, trocavam a madeira por objetos, colares, espelhos, pentes, entre outros e tentavam ensinar ritos de uma religião que pregava um deus desconhecido pelos indígenas, mas que prometia salvar-lhes de um fogo abrasador de um lugar chamado inferno, tão logo, observaram que as terras eram produtivas introduziram por essas brenhas o cultivo de cana de açúcar, algodão e arroz. As terras eram doadas e seus proprietários que nem sabiam da sua dimensão exata agora lavravam em cartórios documentos que os assegurasse a posse. 

Em outra de suas visões Guaraci aterrorizou-se ao ver que homens de uma terra afastada, separada pelas grandes águas foram traficados de forma violenta, arrancados do seio da mãe África, vieram aos montes nos porões insalubres de navios, desceram o Itapicuru a trabalhar nas lavouras dessas velhas povoações de Rosário, Itapecuru e Caxias. Morriam simplesmente  por serem tratados de forma desumana. Todavia, resistiram e foram formando grandes comunidades ao longo da beira do rio, chamadas de quilombo. A cor de sua pele compôs todo o aspecto cultural dessa gente nova, filha de índios, europeus e pretos. 

Após sucessivas invasões, resistência e extermínio de indígenas as vilas cresceram dando origem a cidades prósperas do Maranhão. Principalmente com a produção de algodão que durante a “Guerra de Independência dos Estados Unidos da América” alavancaria, sendo o estado periodicamente o grande produtor, isso criaria uma elite maranhense europeizada que via o Itapicuru como fonte de lucro e exploração. Com a independência do país “Ianque” voltaria o Maranhão a viver da exploração das drogas do sertão novamente e da forte dependência comercial com os lusitanos. Desceram o rio povos vindos de outras nacionalidades sírio-libanês, comerciantes por excelência também aqui fincaram o pé nas margens da divindade desses povos, o rio Itapicuru. 

O pajé Ubiraci interpretava os sonhos da jovem índia Uruati como uma maldição dada aos homens que haveriam de pagar um preço muito alto pela não preservação do rio, ao longo dos séculos seguintes cheias devastadoras inundaria cidades, aumentariam a proliferação de doenças, retomariam o leito devastado para o plantio. Haveria sede e o caminho a ser seguido seria respeitá-lo como um deus que sempre fora para os Tapuios Uruatis e tantos outros povos que assim o consideravam. 

No último de seus presságios Guaraci viu quando boa parte das espécies de peixes, aves e mamíferos deixariam de existir nas dependências desse bioma, sofreu com fortes dores, febre e convulsões, morreu quando pressentiu que seria muito difícil os homens de outras gerações voltassem a amar o rio Itapicuru como dádiva, e sinal de existência da própria vida, os seus descendentes ainda como derradeira gota de esperança migraram para a cabeceira do Itapicuru, resistiriam até o fim da própria vida para preservá-lo.


domingo, 1 de janeiro de 2017

OS PERFUMES MÁGICOS DE MADALENA



Josemar Lima                                                  SÉRIE CRÔNICAS – ANO IV/nº 37/2017 

Ela percorria diariamente, geralmente à tarde, as ruas arenosas e escaldantes e também as duas únicas avenidas calçadas com pedras cabeça-de-jacaré que existiam na cidade de Itapecuru Mirim. Andava retilineamente no centro das vias como se fosse a porta-estandarte de um pelotão imaginário. Seus trajes finos chamavam atenção pela variedade das cores e pelos adereços que usava. 

A minha primeira visão dela foi privilegiada! Da ala norte do imponente prédio da Prefeitura Municipal de Itapecuru Mirim, onde trabalhava todas as manhãs como encarregado dos cadastros rurais. O palácio municipal se alevanta do chão por quase dois metros e, dali, tem-se uma visão ampla de toda a Praça Gomes de Sousa e áreas adjacentes. 

Lembro quando fui chamado com  certa insistência e apreensão pelo amigo “Borá”, que ali também prestava serviço, mas dividia suas tarefas com uma insistente preocupação com a larga janela arqueada que dava para a rua. 

– Acho que chegou um circo! Dizia ele, apontando para a praça. 

Cheguei até uma das janelas laterais de onde tinha visão privilegiada do Itapecuru Social Clube e, lá em baixo, como que desfilando pelo centro da antiga Rua da Boiada, passando justamente pela parte lateral do clube em direção à Rampa Velha, pude apreciar a figura de uma mulher morena, alta, que se destacava pela sua indumentária luxuosa, extravagantemente colorida e uma tiara de flores naturais sobre a cabeça. Lembrava os trajes estilizados de Carmem Miranda! 

Os cabelos se dividiam em dois longos cachos que escorregavam sobre os seios. Usava uma saia longa, vermelha, que descia até aos pés e se encontrava com um sapato preto de salto alto, que ela equilibrava magistralmente sobre as pedras irregulares do calçamento. A blusa era de um amarelo-ouro, com mangas compridas e botões dourados. 

Confesso que nunca tinha visto uma cena igual, nem quando vinha a São Luís e visitava a Rua Grande, local onde desfilavam a riqueza e a beleza da capital. 

Posteriormente fiquei sabendo que Madalena, recém-chegada de Chapadinha, tinha perdido o esposo e, com o trauma,  boa parte das faculdades mentais. Entre as ideais fixas, destacava-se essa de desfilar diariamente toda a sua beleza exótica pelas ruas da cidade. Recebia, entretanto, uma gorda pensão do falecido e isso lhe garantia uma vida sem apertos e bancava os seus prazeres que afloraram após o falecimento do marido.
Ela residia sozinha em um casarão lá para os lados do Mercado Público e não recebia visitas. Passava as manhãs confeccionando e preparando suas roupas e suas tiaras de flores naturais. 

No dia seguinte no colégio, nesse tempo eu cursava a segunda série ginasial, na Escola Normal Regional Gomes de Sousa, o assunto era um só – O Desfile de Madalena! E começaram a aparecer as mais diversas versões e uma delas versava sobre os seus perfumes... 

Dizia-se que ela mesma fabricava em casa, para seu uso exclusivo, com mistura de flores, raízes e essências, perfumes que nada deviam aos melhores de Paris. 

A sua beleza exótica logo começou a despertar paixões exacerbadas entres os jovens. Um colega meu matava aulas para acompanhar sorrateiramente os passeios de Madalena. A coisa agravou-se e ele passou quinze dias sem aparecer na escola. 

Num sábado à tarde resolvi fazer uma visita ao amigo e saber o que estava acontecendo; encontrei-o deitado em uma rede na varanda da residência de seus pais, localizada no final da Rua da Bica, não sei se essa rua ainda existe com essa denominação. 

Espantei-me com sua magreza e um silêncio sepulcral, completamente diferente de sua forma habitual, alegre e brincalhão. Sua mãe serviu um café com bolo de goma. Comi sozinho, pois ele nem tocou! 

Quando eu já me estava preparando para pegar a bicicleta e voltar para casa, percebi que ele tirara o lençol do rosto e disse que queria contar-me uma história, mas que eu jurasse que não contaria para ninguém mais ... saímos para o quintal, sentamos debaixo de um pé de manga rosa e ele de olhos voltados para o chão e gaguejando frequentemente, relatou-me o motivo de não ter ido à escola nos últimos quinze dias: 

Disse que resolvera fazer uma visita surpresa ao casarão de Madalena. Escolheu um horário que ninguém pudesse vê-lo. Esperou anoitecer e as luzes da cidade, após o costumeiro sinal, apagarem-se completamente. Chegou tremendo à porta principal e bateu com os nós dos dedos na grande porta de cedro. 

Na segunda batida a porta se abriu e Madalena, como se já o esperasse, mandou-o entrar mesmo sem vê-lo direito. Foram até uma mesa grande na varanda sem trocarem nenhuma palavra. Madalena vestia um chambre longo e transparente, que deixava vislumbrar à luz da lamparina, os contornos do seu belo corpo. Meu amigo tremia! 

Mandou-o esperar por um momento e entrou em um dos vários quartos do casarão e, quando voltou, trazia nas mãos um “lavabo”, formado por uma grande bacia de porcelana e, dentro dela, uma espécie de “cântaro” cheio de uma água amarelada e flores de cores variadas. Sem pedir licença derramou todo o conteúdo na cabeça do meu pobre amigo, encharcando-o da cabeça aos pés. 

Literalmente, um balde d’água fria nas terceiras ou quartas intenções de meu alquebrado amigo! O pior é que aquele líquido  começou a exalar um cheiro tão forte e intenso que ele sentiu vertigens. Levantou-se bruscamente e saiu quase correndo pelo corredor escuro até chocar-se violentamente com a sua bicicleta Monark vermelha que havia deixado logo da entrada do bendito corredor. 

Sentiu um gosto salgado na boca e ao passar a costa das mãos sobre a testa descobriu a imensa brecha de onde jorrava muito sangue. E o cheiro intenso de flores continuava a persegui-lo insistentemente como uma praga. Sua cabeça doía muito pelo ferimento e pelo odor forte das flores que deviam estar ali num processo de infusão ou coisa parecida. 

E agora como voltar pra casa naquelas condições e com aquele cheiro? 

Resolveu, então, ir até a Rampa do Adhir, que ficava na mesma rua e lavar-se nas águas do Rio Itapecuru. Já passava da meia noite! 

Encostou sua bicicleta da calçada (naquele tempo não se falava em roubo, assalto, etc. E quando sumia alguma coisa já se sabia que tinha sido o “Homem Branco”, o único meliante de carteirinha que existia na cidade). 

Desceu correndo a íngreme rampa de pedras que ia até à margem do rio e jogou-se com roupa e tudo nas águas mornas do Rio Itapecuru! 

Ali passou imerso  alguns minutos e quando saiu pensando ter resolvido parte de seus problemas qual não foi sua surpresa ao sentir um odor mais forte ainda e, dessa vez, o único aroma que chegavam ao seu nariz eram de “cravo de defunto”, uma florzinha amarela muito presente no centenário cemitério da cidade. 

Tirou então a calça comprida e a camisa que, inclusive era a camisa de farda escolar, enrolou-a às calças e prendeu na garupa da bicicleta e lá se foi pelas ruas apenas usando sua famosa cueca “samba canção” que ganhara de presente de aniversário de quinze anos de uma tia que morava em São Luís. 

A porta principal de sua casa estava apenas encostada e ele entrou nas pontas dos pés, rezando para que sua mãe não tivesse acordada. Teve sorte! 

Foi até o quintal, estendeu sua calça, camisa e cueca em um arame que servia de varal, armou sua rede e tentou dormir com aquele cheiro de cravo de defunto que não lhe saia da pele. Adormeceu... 

No dia seguinte, quando foi acordado para tomar seu café e explicar-se, todos da casa estavam se queixando de um forte cheiro de cravo de defunto que vinha do quintal se alastrava pela casa toda e aumentou quando ele se sentou à mesa! 

Meu pobre amigo foi então chamado aos aposentos dos pais e, passados alguns minutos, os demais que tinham ficado à mesa do café, começaram a ouvir o estalar de chibatadas e os gritos abafados do jovem aventureiro. As marcas lhe ficaram às costas e esta era uma das razões da ausência à escola. Entendi perfeitamente! 

E Madalena? Sofreria ela de loucura ou seria apenas uma metáfora da Maria Madalena dos Evangelhos? Maria Madalena urgiu Jesus com essências perfumadas trazidas num cântaro de alabastro! Mera coincidência? Coisas que vão muito além de nossa vã filosofia, como diria “Caneca”, outro personagem folclórico das ruas arenosas de nossa cidade dos anos 60/70.