sábado, 2 de abril de 2022

FUNDAÇÃO DA APAC DE ITAPECURU MIRIM (MA)

A incessante busca pela melhoria do sistema carcerário e o efetivo cumprimento da lei de execução penal no Brasil, no Maranhão e em Itapecuru Mirim      

 *Mirella Cezar Freitas

      Magistrada, recém-promovida  para a 2. Vara da Comarca de Itapecuru Mirim, cidade de mais de 70.000 habitantes, no Maranhão, em 26 de janeiro de 2015. Até aí, só motivos para comemorar. A Vara para a qual fui promovida tem competência privativa de Execução Penal e eu não imaginava o tamanho do desafio que estava por vir.

    Na primeira inspeção na então Delegacia Regional de Polícia Civil, realizada em 9 de fevereiro de 2015, pude constatar um cenário que só conhecia da televisão, da literatura e dos relatos dos colegas que já atuavam na Execução Penal em Comarcas maiores.

     Deparei-me com mais de 100 (cem) presos, de diversos municípios, amontoados em pequenas celas nas quais deveriam estar custodiados, no máximo, 30 (trinta) presos, segundo informações dos policiais que me acompanhavam.

     Jamais esquecerei da sensação e do odor que senti naquele local (odor este que depois fui saber ser de carne humana apodrecendo). Para completar, o local destinado ao banho de sol estava sendo utilizado como cela, onde foi colocada uma lona nas grades superiores para que os custodiados não se molhassem nos dias de chuva e nem fossem submetidos diretamente à luz solar.

     Ao deixar o local, tive  a noite mais longa da minha vida. Eu não podia ficar inerte diante daquela situação, pois, além de haver sido tocada como ser humano, tenho por dever resguardar o cumprimento das leis e da Constituição Federal que tem em seus pilares o princípio da dignidade da pessoa humana (frontalmente atacado).

     Somada a toda essa inquietação, surpreendi-me, numa tarde comum de trabalho, com uma grande mobilização da população, na porta do Fórum da Comarca, pedindo paz e a intercessão do Poder Judiciário para contenção da crescente violência no Município.

     Apesar do pouco tempo na Comarca, o índice de reincidência dos egressos da carceragem da então Delegacia Regional e do Complexo Penitenciário de Pedrinhas (para onde eram encaminhados grande parte dos condenados da Comarca, haja vista ausência de vagas na Delegacia local) era assustador.

     Não era raro fazer audiência com cidadãos de pouca idade que já tinham sido presos mais de cinco vezes e, o mais chocante, que vinham numa escalada criminosa, cometendo a cada nova prisão delitos mais graves e, muitas vezes com violência ou grave ameaça à pessoa.

     Assim, foi necessário pesquisar na tentativa de encontrar uma alternativa ao sistema atual, pois, este era absolutamente falido e incentivador na prática criminosa.

     Uma grande força-tarefa reuniu os Poderes Judiciário Executivo e Legislativo, do Estado do Maranhão e do Município de Itapecuru Mirim, além do apoio incondicional da Unidade de Monitoramento Carcerário do TJMA, da Representante do Ministério Público, Dra. Carla Mendes Alencar, e do então Defensor Público Estadual da 2 Vara, Dr. Marcus Patrício Monteiro, no sentido de envidar esforços, cada um em sua pasta, para promover as soluções que foram discutidas em duas audiências públicas, com presença da maçica comunidade.

     A antiga Delegacia Regional de Itapecuru Mirim foi entregue à Secretaria de Administração Penitenciária do Estado, onde passou a funcionar a Unidade Prisional de Ressocializaçao-UPR de Itapecuru Mirim.

     A Delegacia passou a funcionar em prédio mais central, alugado pela Prefeitura até que a Secretaria de Segurança Pública construa a nova sede da Delegacia.

     Houve também a troca do comando da Polícia Civil local, entre outras providências.

     Ocorre que, apesar de tantas mudanças, o reflexo destas ainda não aparecia nos processos criminais em trâmite na Segunda Vara. A reincidência ainda era muito alta e uma reclamação era constante. As famílias se distanciavam dos sentenciados e os vínculos eram perdidos basicamente pela dificuldade (logística e financeira) em se deslocar da cidade para visitar os presos na capital, além da interferência das facções criminosas na vida do preso, mesmo após a sua liberdade.

     Nesse contexto,  resolvi pesquisar sobre um presídio diferente, que havia surgido como alternativa a um sistema carcerário que se especializou em preparar soldados para abastecer o mundo do crime e que buscava despertar valores como disciplina e amor ao próximo. Assim, surgiu a ideia da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados de Itapecuru Mirim.

     A Associação de Proteção e Assistência aos Condenados - APAC é uma entidade jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, que preconiza a recuperação do preso, a proteção da sociedade, o socorro às vítimas e a promoção da justiça.

    Tal iniciativa foi desenvolvida pelo advogado Mário Ottoboni há mais de 40 anos, na cidade de São  José dos Campos-SP, com a finalidade de preparar o condenado para ser devolvido à sociedade em condições de conviver harmoniosamente e pacificamente em comunidade. Essa preparação tem fundamento no estudo, trabalho, disciplina e espiritualidade.

     Na APAC, os recuperandos são também responsáveis pela sua ressocialização e têm todos os direitos assegurados pela Lei de Execução Penal,bem como todos os direitos estabelecidos nas regras mínimas da Organizações das Nações Unidas-ONU. A segurança e a disciplina dentro do Centro de Reintegração Social-CRS são realizadas com a colaboração dos recuperandos (especialmente no Conselho de Sinceridade e Solidariedade-CSS, formado exclusivamente por recuperandos), tendo como suporte funcionários e voluntários. Nos CRS´s, não há a presença de policiais e agentes penitenciários, nem tampouco os inspetores de segurança usam armas de fogo, cacetetes, spray de pimenta ou qualquer objeto similar.

     A metodologia APAC é caracterizada pela aplicação de uma disciplina rígida, fundada em elementos concretos como: respeito, ordem, trabalho, capacitação profissional, estudo e  envolvimento da família no processo de ressocialização do recuperando.

     Para que essa ressocialização se concretize,  imprescindível é a observância dos doze elementos fundamentais do Método APAC, a saber: participação da comunidade, recuperando ajudando recuperando, trabalho, espiritualidade, assistência jurídica, assistência à saúde, família, voluntários, Centro de Reintegração Social-CRS, mérito, jornada de libertação com Cristo e valorização humana.

     Existem mais de 50 (cinquenta) CRS´s pelo Brasil e pelo mundo e o modelo Apaqueano foi reconhecido pela Prison Fellowship International-PFI, organização não-governamental que atua como órgão consultivo da Organização das Nações Unidas-ONU em assuntos penitenciários, como uma alternativa para humanizar a execução penal e o tratamento penitenciário.

     Tudo isso porque é fato que o preso é um problema social que vai muito além da prisão. Costuma resultar  de uma família sem estrutura, doente e fragmentada. É também o resultado de ausência de políticas públicas para educação, moradia, saúde e trabalho. No que se refere a ausência de políticas públicas para o sistema de saúde, tem-se um dos maiores problemas que é o crescente número de dependentes químicos dentro das unidades prisionais (este tema será tratado em artigo específico).

     Some-se a esses fatores o fato da sociedade ver a prisão como um espaço de vingança, fazendo valer a máxima comum de que "para a prisão, quanto pior, melhor".

     A realidade demonstra que a sociedade precisa, o quanto antes, deixar de cometer o grave equívoco de acreditar que tão somente prender resolve o problema da violência, criminalidade ou impunidade. No Brasil, não há prisão perpétua ou pena de morte (salvo em caso de guerra declarada, como preconiza a CR/1988). Assim, após o cumprimento da pena, o preso, que foi abandonado, torturado e desumanizado no cárcere, retornará ao seio da sociedade cheio de sentimentos negativos e, muitas vezes, tomado por um desejo de vingança.

     Não é incomum o preso para sobreviver, não sofrer ou para conseguir lidar com a situação de condenado, bloquear a realidade e buscar na justificativa um instrumento de defesa para seus crimes (exemplo: eu roubo, mas todo mundo rouba. Há políticos e governantes que até “roubam” muito mais).

     Na APAC, o recuperando é protagonista de sua recuperação, pois, o método procura despertar os sentimentos de responsabilidade, de ajuda mútua, de solidariedade, de fraternidade e da importância de se viver em comunidade. Costuma ser dito que na APAC o recuperando não só tem que deixar de fazer o mal, mas começar a fazer o bem, primeiro dentro do CRS com os demais recuperandos, voluntários e funcionários e, depois, para a comunidade.

     Nesse sentido, fica claro ao recuperando que suas histórias de dor e sofrimento podem explicar eventuais escolhas equivocadas, mas jamais, de forma alguma, poderão justificar seus crimes. Quando o recuperando entende isso,  entra em um processo de conscientização e responsabilização dos erros e consolida valores e atitudes como arrependimento, reconciliação com as vítimas ou seus familiares e consequentemente libertação, primeiro espiritual e depois, propriamente dita.

     O método apaqueano tem transformado os presos em recuperandos e, em seguida, em cidadãos, reduzindo a violência dentro e fora das unidades prisionais, conseqüentemente, diminuindo a criminalidade e oferecendo à sociedade um caminho à pacificação social.

     E assim tem sido possível perceber a diferença nos recuperandos que ora cumprem pena no Centro de Reintegração Social da APAC de Itapecuru Mirim. Relatos sobre o resgate da dignidade e o sentimento de valorização pela sociedade são diários. Atitudes simples que, para quem não conhece a realidade do sistema sequer fazem sentido, mas para aqueles seres humanos que vinham sendo submetidos à situação degradante diuturnamente, fazem grande diferença no processo de ressocialização, cito três que me tocaram de modo especial.

     O primeiro foi a alegria de um dos recuperandos em me descrever o prazer de ver a luz do sol, da lua e as estrelas todos os dias. O segundo, a alegria dos recuperandos em receber a visita de seus familiares em local digno, limpo, sem uniformes ou esteriótipos e sendo chamados pelo nome. O terceiro, o fato de se alimentarem de uma comida caseira, feita pelos próprios recuperandos e usando talheres.

     Poderia enumerar dezenas de histórias e depoimentos tocantes desde 21 de junho de 2016, quando o CRS foi inaugurado e quem sabe não começarei a escrevê-las a partir de agora.

     O meu sentimento de gratidão por todos aqueles que contribuem e reconhecem a importância desse projeto é infinito. As boas práticas, a nova diretoria, voluntários motivados, parcerias essenciais e, sobretudo, compromisso e dedicação com a causa que não é dos recuperandos apenas, mas sim, de toda sociedade que vem sendo vítima da crescente onda de criminalidade, estimulam a implantação de mais e mais projetos, como a remição por leitura, exposição dos artesanatos na Feira de Cultura da cidade, entre vários outros que surgem a cada dia, com apoio da Federação Brasileira de Assistência aos Condenados e a Secretaria de Administração Penitenciária do Estado do Maranhão.

     Porém, apesar de todos os impactos positivos da aplicação do método apaqueano, outro aspecto merece destaque. O tratamento recebido pelos recuperandos dentro dos CRS's Brasil afora nada mais é do que o tratamento definido na Lei de Execução Penal, ou seja, a metodologia é um sucesso porque cumpre exatamente o que determina a Lei 7210 de 1984.

     Assim, o objetivo de todo magistrado ao se engajar em um projeto deste jaez é materializar o que determina a Lei de Execução Penal, pois se a pena imposta ao sentenciado é privativa de liberdade, é isso que ela verdadeiramente será na APAC e não, privativa de dignidade e humanidade, como acontece de forma não rara no sistema comum.

     Diante de tudo o que foi dito, não julgue sem conhecer. Procure o Centro de Reintegração Social da APAC mais próxima e tenha a experiência de ver homens transformados e decididos a fazer o bem e retribuir a sociedade a oportunidade de ressocialização que tiveram.

 

  


 *Mirella Cezar Freitas, juíza titular da 2. Vara da Execução Penal da Comarca de Itapecuru Mirim (MA).

       

 

Do livro, "Coletânea Púcaro Literário" (2017), Pag. 181, organizado por Jucey Santana e João Carlos Pimentel Cantanhede,

 

quarta-feira, 23 de março de 2022

MARCAS DO PASSADO

              

À minha mana Jôse  Déa

         * Moaciene Lima

 

Se um dia chorastes

Foi porque não suportastes

A dor da separação

Mas se um dia sorriste

A que na verdade sentiste

A força mágica da emoção

 

A separação te maltratou

Te sequelou, te tombou,

Porém não te intimidou

A alegria te levou

Emocionada ficaste

A marca da dor se apagou

 

Se no futuro encontrares

Alguém que te ofereça

Amor puro e verdadeiro

Cuidado com os luares

E nunca esqueças

O tempo do desespero

 

Hoje estais sorrindo

Ontem foste pranto

A felicidade agora é pura

Que hoje te venera

Lembra-te que foi amargura

De longo tempo de espera.

 

 


 

*Moaciene Monteiro Lima, é poeta, folclorista e membro da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes - AICLA

sábado, 12 de março de 2022

DIA DA MULHER MARANHENSE

 Aniversário de nascimento de Maria Firmina dos Reis,

 Patrona da Academia Ludovicense de Letras

Dilercy Adler

INTRODUÇÃO

É uma honra para os membros da Academia Ludovicense de Letras - ALL terem a sua Patrona, Maria Firmina, como símbolo da mulher Maranhense.
O dia 11 de março, aniversário de nascimento dessa ilustre escritora maranhense, é instituído por Lei como o “Dia da Mulher Maranhense":  A Lei nº 3.754, de 27 de maio de 1976.

O Projeto de Lei é de autoria do Deputado Celso Coutinho, elaborado em 1975 e a Lei foi sancionada pelo Governador Nunes Freire, em 27 de maio de 1976 (era do conhecimento público que o nascimento de Maria Firmina era 11 de outubro de 1825).

No entanto, por meio de pesquisas recentes (ADLER, 2017) foi confirmada a data de nascimento de Maria Firmina como sendo, de fato, 11 de março de 1822.

A Presidente da Academia, à época, a Profa. Dra. Dilercy Adler, pesquisadora da vida e obra de Maria Firmina dos Reis buscou atualizar a data e, para tal, solicitou ao Deputado Eduardo Braide, que gentilmente atendeu ao pleito e, por meio da Lei nº 10.763, de 29 de dezembro de 2017 sancionada pelo Governador Flavio Dino foi alterado o art. 1º que trata da atualização da data para 11 de março.

Assim, em 2017 foi a última comemoração do aniversário de Marias Firmina no dia 11 de outubro e este ano configura marco importante, no sentido de que é comemorado, pela primeira vez, o aniversário de nascimento de Maria Firmina e o Dia da Mulher Maranhense, neste 11 de março de 2018.

 

        

CONTEXTO DA CRIAÇÃO DA LEI 1975 - ANO ROSA DE JERICÓ DE MARIA FIRMINA DOS REIS:  ano de verdejar

 

O ano de 1975, foi o ano de verdejar para Maria Firmina, o marco que eu intitulei (ADLER, 2017) de o seu “ano Rosa de Jericó”. Essa rosa é também chamada de flor - da - ressurreição por sua impressionante capacidade de voltar à vida.  As Rosas de Jericó podem ser transportadas por muitos quilômetros pelos ventos, vivendo secas, sem água, mesmo durante muito tempo e, ao encontrarem um lugar úmido, elas afundam raízes na terra e se abrem, voltando a verdejar!  

Vejo muita semelhança entre Maria Firmina e a Rosa-de-Jericó, senão vejamos: a Rosa de Jericó, tem aparência frágil, mas, concomitantemente, demonstra consistente defesa diante da situação adversa, neste caso, ausência total de chuvas. Nesse período, as suas folhas caem, seus ramos se contraem e se curvam para o centro, adquirindo uma forma esférica, capaz de abrigar as sementes e protegê-las da aridez dos desertos.  Mesmo frágil e ressequida, ela continua como “peregrina”, devido à quase inexistência das suas raízes, o que facilita o seu deslocamento, e, como “viajante incansável”, deixa-se levar pelo vento do deserto, que tem a força de arrancá-la do solo e arrastá-la por áreas distantes. Também nesse período, ela permanece seca e fechada, aparentando estar totalmente sem vida por alguns meses. No entanto, basta algum contato com a umidade para a Rosa-de-Jericó estender suas folhas, espalhar suas sementes e retornar à vida, mostrando a sua beleza.

Ainda no tocante às gotas d’água que deram a umidade necessária para Maria Firmina retornar ao cenário literário mostrando a sua beleza, Arlete Nogueira da Cruz, no seu livro Sal e Sol (2006) apud ADLER (2014), fundamentando-se no trabalho intelectual de Janilto Andrade, A Nação das Dobras da Ficção, explicita:

[...]. Não fosse José Nascimento Morais Filho, o nosso Zé Morais, este contumaz andarilho de trilhas nunca antes percorridas, Maria Firmina dos Reis não teria vindo à luz. E quando ele a trouxe (no momento em que também a trazia o escritor paraibano Horácio de Almeida), lembro bem, foram alvo de zombarias em São Luís: Zé Morais, Maria Firmina e o seu livro Úrsula; muitos considerando que era de pouca serventia aquele achado e exagerada a relevância que Zé Morais dava à sua descoberta. Pelos daqui, Maria Firmina dos Reis deveria permanecer onde se achava: no limbo. E a sua obra sob o tapete (CRUZ, 2006, p.265).

No limbo.... Sob o tapete... Expressões que retratam não apenas rejeição, mas desprezo, o que não deixa de retratar a alienação e falta de humanidade no trato com as pessoas e suas obras por aqueles que se julgam donos do saber e da verdade ADLER (2014, p.6).

Mas, antagonistamente, outros maranhenses, a exemplo de Josué Montello, reconhecem a importância de Maria Firmina. Montello escreve por ocasião do sesquicentenário de nascimento de Maria Firmina dos Reis um artigo intitulado A primeira Romancista Brasileira, que publicou no Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, em 11 de novembro de 1975 e na Revista de Cultura Brasileña, Madrid, Embajada de Brasil, 1976, jun., n. 41, p. 111-114.

Confesso que não resisti ao desejo de transcrever, nesta comunicação pequeno trecho da sua primorosa referência à Maria Firmina e a Nascimento de Morais Filho. No referido texto, Josué Montello nomeia outro maranhense, Antônio de Oliveira, juntamente com Nascimento de Morais Filho, como responsáveis pela ressurreição de Maria Firmina, e, desse modo, a eles se refere:

[...] o primeiro falando em voz baixa como é do seu gosto e feitio e o segundo, falando alto ruidosamente, com uma garganta privilegiada, graças à qual, sem esforço, pode fazer-se ouvir no Largo do Carmo, em São Luís, à hora em que se cruzam os automóveis, misturando a estridência das suas buzinas e de seus canos de descarga ao sussurro do vento nas árvores da praça.

Desta vez, ao que parece, Nascimento Morais Filho ergueu tão alto a voz retumbante que o país inteiro o escutou, na sua pregação em favor de Maria Firmina dos Reis.

Há quase dois anos, ao encontrar-me com ele na calçada do velho prédio da Faculdade de Direito, na Capital maranhense, vi-o às voltas com originais da escritora. Andava a recompor-lhe o destino recatado, revolvendo manuscritos, consultando jornais antigos, esmiuçando almanaques e catálogos como a querer imitar Ulisses, que reanimava as sombras com uma gota de sangue.

E a verdade é que, no dia de hoje Maria Firmina dos Reis de pretexto a estudos e discursos, e conquista, seu pequeno espaço na história do romance brasileiro – com um nome, uma obra, e a glória de ter sido pioneira.

 

Assim, Nascimento de Morais Filho, como um Sankofa, pássaro africano de duas cabeças, uma cabeça voltada para o passado e outra para o futuro, que, segundo a filosofia africana, significa a volta ao passado para ressignificar o presente, dedicou-se, incansavelmente, para dar novo significado à Maria Firmina dos Reis como mulher, como professora e como escritora, dando a ela o lugar que lhe é devido na literatura maranhense e brasileira.

E ainda seguindo a máxima de Morais Filho, mais pessoas, instituições, cidades e estados brasileiros têm se dedicado a estudos e homenagens a Maria Firmina dos Reis.

É constatado que o trabalho de pesquisa e resgate de Maria Firmina por Morais Filho, de fato resultou em muitos outros trabalhos acadêmicos. Renan Nascimento dá destaque para a tese sobre a romancista, defendida por Charles Martin na Universidade de Nova York.

Eu cataloguei várias Monografias de Graduação, Dissertações de Mestrado, Teses de Doutorado sobre algum aspecto de sua vida ou obras. O romance Úrsula encontra-se entre os objetos de estudo mais analisados.

Assim, em 1975, ano do sesquicentenário de Maria Firmina, em São Luís, foi publicada a edição fac-similar do seu romance Úrsula; inaugurado o busto da escritora na Praça do Panteon, em São Luís; foi criado um carimbo em sua homenagem, uma marca filatélica produzida pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos; também foi criada em sua homenagem a Medalha de Honra ao Mérito, pela Prefeitura Municipal de São Luís; na Assembleia Legislativa do Estado foi instituído o dia 11 de outubro, como Dia da Mulher Maranhense. É importante enfatizar que assim determina a Lei Nº 3.754 de 27 de maio de 1976 no seu Artigo segundo:

 

Art. - 2º Esta lei entrará em vigor, na data da sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

 Mando, portanto, todas as autoridades a quem o conhecimento e a execução da presente Lei pertencerem que a cumpram e a façam cumprir tão inteiramente como nela se contém [...] (Diário Oficial de 14 de junho de 1976) (grifo meu).                                                

 

Em Guimarães, também o ano de 1975 foi o marco do início de maiores homenagens a ela dedicada. Além do desfile em sua homenagem naquele ano, o Centro de Ensino Nossa Senhora da Assunção, desde o ano de 2007, passou a promover a Semana Literária Maria Firmina dos Reis. Também o dia do seu aniversário foi instituído feriado Municipal e comemorado o “Dia da Mulher Vimarense.

 No ano, próximo passado, 2017, foi inaugurada, pelo Governo do Estado do Maranhão e Prefeitura de São Luís, uma praça com o seu nome e ela foi escolhida para Patronear a Feira do Livro de São Luís- FeliS, deste ano, em sua   11ª edição, de 10 a 19 de novembro, que resultou numa grande repercussão local, nacional e internacional.

A Academia Ludovicense de Letras-ALL desde 2013, ano de sua fundação, incorporou-se a esse projeto de consolidar a ressignificação dessa incontestável precursora da cultura e educação maranhense/brasileira, colocando-a como Patrona da Academia, tendo consciência também de que há muito ainda por fazer e para conhecer Maria Firmina dos Reis, fortalecendo esse trabalho que denomino de Missão de amor.

Em 2015, em comemoração ao seu aniversário de 190 anos, foram organizadas, por Dilercy Adler e Leopoldo Gil Dulcio Vaz duas antologias em sua homenagem: Cento e Noventa Poemas para Maria Firmina dos Reis e Sobre Maria Firmina dos Reis.

A ALL busca ocupar todos os espaços culturais locais, nacionais e internacionais, objetivando desenvolver e difundir a cultura e a literatura ludovicense, a defesa das tradições do Maranhão e, particularmente, de São Luís, também levando o nome de Maria Firmina dos Reis como missão precípua.

 

REFERÊNCIAS

 

ADLER, Dilercy Aragão. ELOGIO à PATRONA MARIA FIRMINA DOS REIS: ontem, uma maranhense, hoje, uma missão de amor. São Luís: Academia Ludovicense de Letras, 2014.

_____________. MARIA FIRMINA DOS REIS, uma missão de amor. São Luís: Academia Ludovicense de Letras, 2017.

ADLER, Dilercy Aragão e VAZ, Leopoldo Gil Dulcio (Organizadores). CENTO E NOVENTA POEMAS PARA MARIA FIRMINA DOS REIS. São Luís: ALL, 2015.

Diário Oficial do Estado do Maranhão, de 14 de junho de 1976.                                                

Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, Josué Montrello. 1975, 11 de novembro.

Revista de Cultura Brasileña, Madrid, Embajada de Brasil, Josué Montello 1976, jun., n. 41, p. 111-114.

VAZ, Leopoldo Gil Dulcio e ADLER, Dilercy Aragão (Organizadores). SOBRE MARIA FIRMINA DOS REIS. São Luís: ALL, 2015.

MORAIS FILHO, José Nascimento. MARIA FIRMINA; fragmentos de uma vida. São Luís: SIOGE, 1975.