quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

ESPECTROGRAFIA DAS CINZAS



  (Para Jucey Santana)


Neurivan Sousa


a casinha rosa e rústica
fachada pintada à guache
pelos olhos da infância

resiste à gula do tempo
espremida pelos prédios
postes e placas de led

ninguém a vê exceto eu
quando de mim salta
aquele menino pálido

que vasculhava vazios
e via a vida pelas costas
no rútilo das esquinas

ela não tem fundo ou cômodo
só um rio afogando-se no estio
da ingratidão dos próprios filhos

e rufla em mim uma dor
de flor dentro do fogo
pássaro de asa quebrada.

Do livro Púcaro Literário II, 200 anos de Itapecuru Mirim.

Neurivan Sousa




Neurivan Sousa, professor, poeta, cronista, membro correspondente da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes - AICLA sóc, io da Associação Maranhense de Escritores Independentes – AMEI  e sócio da Sociedade de Cultura Latina do Brasil.

MEU ITA


(Para Tiago Oliveira)
Neurivan Sousa

eu não nadei entre os teus peixes,
meu fôlego era pouco, insuficiente
para tanta fundura e correnteza.

não pulei da ponte sobre tua cheia,
preferia molhar só os olhos e encher
a cabaça para me batizar em casa.

não bebi cachaça em tuas várzeas,
nem retive areia ou pedra do teu leito,
e sobre meu caminho perdi as rédeas

enquanto espiava as lavadeiras
enxaguarem as manchas da vida
cantando as suas dores como prece.

mas no fundo tenho um sonho:
morrer afogado em tuas águas,
para que morrendo eu viva em ti.


Do livro Púcaro Literário II, 200 anos de Itapecuru Mirim.
 



Neurivan Sousa, professor, poeta, cronista, membro correspondente da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes - AICLA sóc, io da Associação Maranhense de Escritores Independentes – AMEI  e sócio da Sociedade de Cultura Latina do Brasil.

CRÍTICA HÍDRICA



(Para Inaldo Lisboa)
Neurivan Sousa

uma cidade banhada por um rio
mas cujas torneiras já enferrujam
desde os últimos resíduos de cloro

uma cidade banhada por um rio
mas que a população dorme
sem sequer lavar as genitálias

uma cidade banhada por um rio
um povo mudo sem voz e vista
para mudar as próprias vestes

uma cidade banhada por um rio
assistindo ao voo dos abutres
sobre sua própria cabeça oca

uma cidade banhada por um rio
mas cujo povo prefere perfurar
poços ao lado das suas privadas

uma cidade banhada por um rio
povo que se curva à ditadura da seca
bem merece morrer de bunda suja.

Do livro Púcaro Literário II, 200 anos de Itapecuru Mirim.





Neurivan Sousa, professor, poeta, cronista, membro correspondente da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes - AICLA sóc, io da Associação Maranhense de Escritores Independentes – AMEI  e sócio da Sociedade de Cultura Latina do Brasil.



domingo, 13 de janeiro de 2019

HINO BISSECULAR ITAPECURUENSE



Saulo Barreto

Glórias, Glórias à cidade criada pelo Rei,
 Nascida em meios às pedras pequeninas.
Com imponente e inesquecível memória,
Teus concidadãos dirão: “Te honrarei!”

Sobreviestes à Colônia, ao Império e à República,
Urbe tão antiga; tão provecta como o Brasil.
Impulsionada pela criação do gado e do engenho,
Fazem, pois, da tua História, um torrão pênsil.

Terra de Viriato Correa, dos “Buzar” e Mariana Luz...
Não bastasse a tríade patente de briosos retros mencionados.
Ainda contamos com Gomes Sousa, Henriques Leal, Jucey Santana...
João Lisboa, Zumira Fonseca... nomes que à imortalidade, fazem jus.

Cantão de Quilombos, teu solo é encharcado e abluído com sangue negro,
Foi palco de batalhas sanguinolentas travadas pelos revoltosos balaios.
Guerra essa que culminou na execução do seu líder maior: Cosme Bento,
Entretanto, tua resistência africana se traduz na valente Santa Rosa dos Pretos.

Parabéns, pois, Itapecuru-Mirim do Estado do Maranhão!
És cidade de muita nostalgia, Letras, Artes, futuro e Ação,
Hoje na passagem da tua ducentenária lisonjeira,
Peço vênia para fazer minhas as palavras do teu hino:
“Seja de glória tua existência inteira.”






Do Púcaro Literário II, 200 anos de Itapecuru Mirim (2018) pag. 86.
Saulo Barreto Lima Fernandes,  escritor, advogado e graduado em Ciências Sociais é autor de 10 obras entre as quais:  O Príncipe do Norte: a Saga de Chagas Barreto e o livro de contos existencialistas,  Discursos Mudos.





CORRENTEZA




Josemar Lima

Creio ter sido concebido em tuas águas límpidas
Numa noite de paixões intensas
E do ventre ainda verde de minha mãe em espasmos
Saltei pras águas impregnadas de essências
Que aprisionadas numa bacia de esmalte branca
Me esperavam para o primeiro banho
Suas ondas carameladas acenavam à lavar meus pés medrosos
E fui aos poucos me afundando nelas
Até explodir em guichos multicores
E borbulhas sorridentes
Em ti também afoguei meus medos juvenis
Dei um cangapé nos traumas e tristezas
E nadei para a margem oposta ao trago e à fumaça branca
Mergulhei em ti minhas incertezas mais profundas
E fui tomando fôlego para a vida adulta
Minhas mágoas e meus tormentos tu os lavastes todos
E minha alma livrou-se dos pecados vis
Agora corro contigo nessa marcha insana
Até desaguar na baia da eternidade.
            Itapecuru Mirim, 17 de fevereiro de 2018.

            Do Púcaro Literário II, 200 anos de Itapecuru Mirim (2018), pag.