*Wanda
Cunha
O
professor Antônio Lisboa Carvalho de Miranda, maranhense, um dos grandes
expoentes da Literatura do Maranhão e de além-mar, é um daqueles estudiosos que
consegue, com muito zelo, fazer um resgate de autores nacionais e, em
particular, de autores maranhenses. Em seu site antoniomiranda.com.br, ele coloca
em destaque, por exemplo, a memória de Carlos Cunha, poeta, crítico literário,
ensaísta, cronista, professor e jornalista maranhense. No estudo, revela
algumas de suas poesias, dentre as quais “Punhal de Aurora”, “Condor Ferido”;
trovas e outros fragmentos do seu livro “Cancioneiro do Menino Grande”. Ao
final da pesquisa, inclui, no acervo bibliográfico do maranhense Carlos Cunha,
um poema intitulado “Canto do Natal No Perímetro Urbano”, do livro “Breve
Romanceiro do Natal”, 1972, publicado pela Editora Beneditina Ltda., em
Salvador.
Nos
meus estudos literários sobre o maranhense Carlos Cunha, não constatei qualquer
poesia que tivesse o título “Canto do Natal No Perímetro Urbano”, ainda que o
maranhense fosse um exímio poeta em temática de Natal, a exemplo de seus poemas
“Bilhete a Papai Noel” e “Canção de Natal Para o Menino Pobre”. A coincidência
da temática social e a descoberta de um homônimo fizeram-me sair,
insistentemente, à procura daquele que seria, em primeira instância, um sósia
intelectual de Carlos Cunha, meu pai.
Não
sei se o termo exato para comparar os dois Carlos Cunhas seria sósias, posto
que sósia é uma palavra oriunda da mitologia grega, mais precisamente da
Comédia “Anfitrião”, de Plauto. Como sempre, Zeus, no afã de conquistar mulheres
alheias, tomou a forma de Anfitrião, esposo de Alcmena, para, naquela
oportunidade, com ela deitar-se. Sósia era o escravo de Anfitrião. Hermes,
filho de Zeus, assumiu a forma humana do escravo Sósia para vigiar o portão,
enquanto Zeus conquistava a mulher de Anfitrião. Foi assim que sósia passou a
designar “cópia humana”. Da relação entre Zeus com Alcmena, nasceu o semideus
Hércules.
Nas
coincidências que envolvem os dois Carlos Cunhas, não sei se há o dedo de
deuses; mas sei que se trata de um fato que merece um olhar mais aguçado sobre
os dois escritores. Localizei, na obra “A Literatura na Bahia – Livro 5 – Peji
de Inventos”, do professor Cid Seixas, o capítulo intitulado “Do Velho
Preciosismo ao Non Sense Pós-Moderno”, no qual Seixas traça um perfil estilístico
daquele Carlos Cunha de origem sergipana que fincou sua carreira literária em
Salvador. Enquanto o maranhense Carlos Cunha publicou seu primeiro livro em
1967, intitulado “Poesia de Ontem”, o Carlos Cunha da Bahia publicou, em 1961,
seu livro de estreia “Goivos de antófilos”.
Segundo Seixas, “Goivos” traduz o fascínio do Carlos Cunha da Bahia pela
estética preciosista Parnasiana. Diz Seixa (p. 13): “goivo é uma planta
ornamental de flores rubras, raiadas de branco. Muito cheirosas e apreciadas para
compor arranjos decorativos, estas flores são encontradas também na cor
amarela. Antófilo, como se sabe, é o apreciador ou o entusiasta, quase
obsessivo, das flores. (...) Mas, goivo também é uma palavra que evoca gozo ou
alegria, uma vez que o nome da flor vem do latim gaudium, que segundo o
dicionário dessa língua quer dizer ‘satisfação, prazer, regozijo’”.
O
maranhense Carlos Cunha traz, em sua poética, uma verve simbolista por meio da
qual se manifesta um romantismo vestido de modernidade. O romantismo é fruto da
sua condição de homem intrinsecamente espiritual e humano. Dentro de suas
fases, verifica-se o poeta que sabia burilar, com maestria, os versos da medida
velha. Em sendo contemporâneo do Modernismo, também soube dar aos versos
brancos e livres sua arte literária. Mas, sem postergar esses dois extremos de
sua criação literária, Carlos Cunha deixou para posteridade uma safra de
sonetos que era comum na corrente parnasiana, mas, contrariamente,
trabalhou-os, em sua construção, o estilo humanístico sob a égide do
petrarquismo.
O
Carlos Cunha, oriundo de Sergipe, que se ligou ao movimento literário da Bahia,
era filho do professor sergipano Cecílio Cunha. Carlos Cunha maranhense era
filho do condutor de bonde Carlos José da Cunha, que trabalhava na antiga Ullen
Company. Carlos Cunha de Sergipe passou a fazer parte da geração da Moderna
Poesia baiana, por meio da antologia do mesmo nome, tornando-se um agitador
cultural atuante na esfera da Bahia. Por seu turno Carlos Cunha maranhense
publicou, em 1974, a antologia “Poesia Maranhense hoje ou 50 anos de poesia”,
transformando-se também em um dos grandes representantes e divulgadores da
cultura maranhense de seu tempo, resgatando autores antigos e promovendo novos
escritores, inclusive artistas plásticos; estes últimos, ele os divulgou na
obra intitulada “A Páscoa das Gaivotas”.
Conforme
informações de Seixas, Carlos Cunha da literatura baiana conseguiu propagar-se
em movimentos de ideais coletivos, ladeado por vários outros escritores que
viam nas antologias uma ferramenta para divulgação de suas obras de cunho
moderno. Em 1963, Cunha da Bahia adquiriu um estilo neorromântico, com a obra
“Ilhas para morrer”. Um fato curioso registrado por Seixas é o de que o
sergipano Carlos Cunha, nos anos de 1970, recolheu os exemplares de seu livro
de estreia, que estavam nas mãos de seus leitores mais íntimos; e, em 1977, por
ocasião da publicação de seu livro “Flauta Onírica”, ao fazer referência à sua
bibliografia, riscou a palavra “antófilo”, do título da sua primeira obra,
deixando apenas “Górvio”.
Na opinião de Seixas, essas atitudes de Carlos Cunha contribuíram para que sua
produção não fosse conhecida pelo leitor, impossibilitando o acompanhamento e a
comparação das diferentes fases poéticas deste escritor. Disse Seixas (p. 16):
“O leitor fica privado de acompanhar e comparar as diferentes estações do
trajeto poético desse escritor arredio, mas significativo; posseiro de dicção
pessoal e inconfundível, no quadro da poesia baiana da segunda metade do século
XX”. Observa-se, nas palavras de Seixas, um recolhimento voluntário de Carlos
Cunha da literatura baiana, sem que se possa cogitar o motivo que o fizera
limar o próprio nome do círculo literário soteropolitano. Sabe-se, conquanto,
que Sergipe deu à Bahia um filho ilustre que ainda hoje é cantado e decantado
pelos seus admiradores.
Eis
as semelhanças e diferenças entre os dois Carlos Cunhas: o maranhense deixou
uma obra que serve de herança aos filhos gonçalvinos; membro da Academia
Maranhense de Letras, onde ocupou a cadeira nº 33, fundada por Viriato Correa;
com mais de 24 obras publicadas, de críticas, ensaios, poesias, folclore,
palestras, crônicas, oriundas de seu espírito irrequieto de jornalista,
escritor, professor e declamador; muitas das quais servem hoje de fontes para
os estudos da cultura maranhense. Mesmo assim, poucos de seus conterrâneos
tentam resgatar a memória desse ilustre filho do Maranhão.
Já
o baiano Carlos Cunha trilhou caminhos relativamente diferentes: não deixou de
participar da vida intelectual de Salvador, chegou mesmo a trabalhar na
administração da Academia de Letras da Bahia, mas, ao final, manteve-se silente
como escritor. Por isso, acentua Seixas: “Creio que a obra poética de Carlos
Cunha ficou reduzida às três fases distintamente marcadas pela publicação dos
seus livros Goivos de antófilo, ilhas para morrer e A flauta onírica".
Outro fato curioso apontado por Seixas é que Carlos Cunha da Bahia não quis a
inclusão de seus poemas na antologia “Poesia Baiana do Século XX”, organizada
por Assis Brasil.
O Carlos Cunha ludovicense está na “Poesia Maranhense do Século XX”, na qual
Assis Brasil faz a seguinte referência: “Luiz Carlos da Cunha, um dos
intelectuais maranhenses mais atuantes em sua época, nasceu em São Luís no dia
18 de maio de 1933, tendo se destacado como jornalista, cronista e poeta, além
de ter fundado jornais e colégios. Em destaque, também, os comentários sobre os
livros de inúmeros poetas veteranos e novos de sua terra, abrindo, neste setor,
um leque para a edição de livros”. (p.215-216).
Na Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 55, de março de 2017, Edivaldo M.
Boaventura, membro da ABL, discorre sobre o trabalho dignificante e incessante
de Carlos Cunha da Bahia, como diretor executivo daquele sodalício, ao lado do
então presidente Claudio Veiga (p. 31): “Empreendia a promoção cultural, sabia
animar as pessoas a escrever e dava inclusive sugestão de títulos. Atuando na
administração, durante vinte e cinco anos, apoiou criativamente várias
iniciativas. Além de poeta, era, verdadeiramente, um animador cultural. Com o
conhecimento da vida literária, atraiu jovens e escritores para o convívio
acadêmico”.
O sergipano Carlos Cunha, de coração baiano, por diversas vezes fora convidado
a tomar assento em uma cadeira da ALB, dada a primazia de sua poesia e, também,
dada a sua dedicação por aquela casa de cultura; mas ele sempre recusava o
convite. Faleceu aos 71 anos de idade, em 18 de dezembro de 2011, no Hospital
Português, na Bahia. O Carlos Cunha gonçalvino faleceu aos 57 anos, no dia 22
de outubro de 1990, também no Hospital Português, mas, em São Luís do Maranhão.
Coincidências ou não, de Maranhão a Bahia, os Carlos Cunhas escreveram belas
páginas literárias em favor da Literatura Brasileira.
*
Wanda
Cristina da Cunha e Silva, poeta, cronista, compositora, teatróloga,
cordelista e musicista, Graduada em Letras e Comunicação. Estreou na Literatura Maranhense aos 12 anos de
idade, com uma peça teatral, “Sociedade
Moderna”. Publicações: “Uma Cédula de Amor no Meu Salário”, poesias
(1981), "Engraxam-se Sorrisos”, crônicas (1983), “Rede de Arame”
(1986), poesias. Em 1989, o título barroco, “Geofagia ruminante
no sótão da preamar ruminante no
sótão da preamar”, poema estilo de cordelista,
“Flor de Marias No Buquê de Costelas” (1993). Lançou, em
2009, o CD “Vida de Ouro e Amor de Prata”. o livro de teatro
Viagem às ruas de São
Luís; o livro de conto infantil
Parede tem ouvido; e o livro de
crônicas
Engraxam-se sorrisos. Wanda Cunha, que tem outras
pérolas literárias ainda inéditas. Ganhou vários prêmios nas áreas de
Literatura e Música.