quarta-feira, 9 de novembro de 2022

CENTENÁRIO DO PADRE JOSÉ ALBINO CAMPOS FILHO

 

        
    

       Homenageado da V FLIM

(Festa Literária de Itapecuru Mirim – 2022)

          O cônego José Albino Campos Filho, conhecido na infância  como Zequinha,  nasceu em 4 de fevereiro de 1922, em  São Vicente de Ferrer, cidade da Baixada Ocidental Maranhense. Filho de José Albino Campos e Maria Sodré Campos. Tinha três irmãos: Geraldo, Maria Emília e Dinorá.

            Cursou até o 4º ano do  primário, na Escola Agrupada de São Vicente de Ferrer, e concluído  no Grupo Escolar Mota Júnior em São Bento (MA), dirigido por frades Capuchinhos.

            Demonstrando inclinação religiosa, seus pais resolveram, em 1935, encaminhá-lo ao  Seminário de Santo Antônio em São Luís, com 13 anos de idade. Concluiu o curso de Humanidade em 1941, o de Filosofia em 1943 e  Teologia em 1944.

            Recebeu a primeira  tonsura no dia 25 de abril de 1944, sendo oficiante Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, então Arcebispo do Maranhão. Em nove de dezembro de 1945 recebeu as  ordens menores do Ostiriato e Leitorato,  das mãos do bispo de Caxias, Dom Luís Gonzaga da Cunha Marelin;  as segundas ordens do  Subdiaconato  foram ministradas  a 11 de setembro de 1947 por Dom Adalberto Acioli Sobral; em 26 de outubro, de Diaconato  e em  11 de novembro do mesmo ano recebeu o ministério  de Presbiterato.

            Ordenou-se no dia 8 de dezembro de 1947 na Catedral Metropolitana, sendo o bispo ordenante Dom Adalberto Acioli Sobral. Foi seu companheiro de seminário e ordenação José Ribamar Carvalho, (reitor da UFMA). Celebrou sua Primeira Missa na Igreja de Santo Antônio, em 9 de dezembro de 1947 e celebrou a "Missa Nova" na Matriz de São Vicente de Ferrer, sua terra natal, a 1º de janeiro de 1948 com a presença de todos os familiares e amigos.

            Em 1948, foi celebrada a 1º provisão de Vigário Coadjuntor da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, no bairro Monte Castelo, em São Luís, depois designaram-no Capelão do Hospital Geral, instituição hospitalar dirigida por  religiosas,  permanecendo  por cinco meses.

          Em seguida, foi transferido para a Catedral Metropolitana como Vigário Cooperador onde trabalhou durante sete meses, até ser removido para a Paróquia de São Vicente de Ferrer, em substituição ao Monsenhor José Bráulio Nunes. De lá foi   para  Itapecuru-Mirím, com  29 anos, em substituição ao padre Alteredo Soeiro, que havia sido transferido.

            No dia 12 de dezembro de 1950, chegou a Itapecuru-Mirím, recebendo a provisão de Pároco das mãos do arcebispo Dom Bacelar Portela, recepcionado pelo padre Alteredo Soeiro e grande número de paroquianos.

            Imbuído de entusiasmo e  temperamento extrovertido, conquistou logo de início a cidade e o seu povo. Em Itapecuru Mirim viveu  19 anos, dirigindo como bom Pastor o seu rebanho, desenvolvendo  atividades, não só no campo espiritual, como também,  no âmbito social e educacional. 

       Movimentava-se bem em todas as classes sociais. Foi apaixonado pela educação.  Deixou para Itapecuru Mirim um legado imorredouro de ações concretas e necessárias.

 

 Hino da Padroeira e Queda da Torre

 

          Logo que chegou a Itapecuru Mirim, Padre Albino  reorganizou o coro recrutando mais pessoas para o grupo  e introduzindo novos cantos. Encomendou também um novo a Padroeira Nossa Senhora das Dores. Em 15 de setembro de 1956  foi cantado pela primeira vez o hino,  com a letra de Luiz Gonzaga Madureira (vigário-geral Spiritualibus) e a música do Padre Videi (superior da prelazia de Pinheiro). O novo hino substituiu o antigo “Hino de Nossa Senhora das Dores” , de autoria da poetisa  Mariana Luz.

           Em 21 de janeiro de 1961 a cidade foi abalada por um temporal que, fez desabar a cúpula da torre da igreja e em consequência ruiu também o coro e parte do teto, trazendo prejuízo e tristeza, escreveu Padre Albino.  Com campanhas comunitárias, adesão de voluntários e ordens religiosas, ele conseguiu além da reconstrução da torre e do coro, fazer uma reforma  total na igreja que foi  pintada a óleo e  forrada, para livrar das andorinhas e morcegos.  Em 1º de janeiro de 1965, na festa de São Benedito, houve a bênção da nova torre da Igreja na presença da população, padres das cidades vizinhas e autoridades convidadas especialmente para o evento .

       Os  grupos religiosos da época eram: Apostolado da Oração, Confraria de São Vicente de Paulo,  Irmandade de Nossa Senhora das Dores, Zeladoras do Coração de Jesus,  Zeladoras de São José e Associadas Filhas de Maria.

       O sino era um dos meios de comunicação atuante, badalado pelo sineiro e sacristão Clóvis Cordeiro Mendes, amigo e companheiro do Padre Albino, nas diversas desobrigas. O sino anunciava, nascimento, morte, as chamadas das missas, e repicava por ocasião festivas servindo de referência para os hábitos da comunidade.

 

Escola Paroquial

 

      Padre Albino reabriu em 1952 a escola iniciada por Padre Alteredo Soeiro de Mesquita  e o professor Natinho Ferraz, em 1º de março de 1947. A escola havia funcionado pouco tempo.       A direção foi entregue  a Teresinha Aragão filha da professora Cotinha Lima. Em 1953 com o casamente de Teresinha com o empresário Benedito Bráulio Mendes assumiu em seu lugar a normalista Maria Galileia Rodrigues filha do prefeito João Rodrigues. O padre e a nova  professora passaram a organizar várias companhas comunitárias para aquisição de carteiras e material didáticos com vistas ao crescimento da escola. Três anos depois a escola já havia se expandido para todos os cômodos da Casa Paroquial.

            Houve a necessidade de contratar novas professoras e fazer campanhas maiores  com alunos, pais e  grupos religiosos, para construção da sede própria da escola. Recebiam  doações, faziam vendas em barracas, leilões, bailes beneficentes etc. No início de 1957 foi iniciado a construção do prédio  na Avenida Brasil. A Escola Paroquial São Vicente de Paulo foi inaugurada  no final de 1958,  com um programa de educação aprimorado. 

             Pouco tempo depois parte da escola desabou. Fala-se que a estrutura lateral foi construída em cima de um poço antigo, sem o aterramento apropriado, sendo logo reerguida não sofrendo descontinuidade em seu programa.  A festa de entrega de diploma da 1ª turma do antigo primário aconteceu em 15 de novembro de 1960, com nove concludentes.

            No ano de 1960, Padre Albino, foi elevado, por merecimento, à dignidade de Cônego na Catedral Metropolitana.

 

Irmãs Josefinas

 

            O  padre Albino intermediou  junto ao arcebispo Metropolitano    Dom José Medeiros Delgado, a vinda das Irmãs Josefinas, para atuar na  administração da Escola Paroquial e nas ações de evangelizadoras de Itapecuru Mirim.

            A fundação e instalação da Casa das Irmãs Josefinas aconteceu em 28 de julho de 1963, com a presença do arcebispo Dom José Medeiros Delgado, que mesmo já transferido  para Fortaleza, esteve no evento. Na solenidade estiveram  presentes a Madre Superiora e fundadora da instituição, Irmã Rosita Paiva; a mestra das noviças, Irmã Maria Luiza Fontenele, padre Hélio Paiva, mais cinco irmãs da congregação, que vieram para ficar em Itapecuru Mirim.

        A casa foi adquirida do telegrafista (guarda-fio) Euclides Zoca e doada pela Prefeitura, na gestão de Abdalla Buzar Neto.  

            A bênção da casa foi acompanhada por grande multidão, autoridades e convidados de outros municípios, com a banda musical  executando o Hino da Padroeira Encerrou-se com um almoço na casa paroquial, oferecido por padre  Albino. 

 

Ginásio Bandeirante

 

       Com a criação do projeto “Ginásio Bandeirante,” em 1967,   a professora Ana Maria Patello  Saldanha, coordenadora do projeto  informou que Itapecuru Mirim tinha sido contemplado com uma unidade. Como  a Prefeitura Municipal não recepcionou de imediato  o programa, o Padre Albino cadastrou a Escola Paroquial no convênio do Estado, em caráter de urgência  e apresentou toda a documentação em tempo hábil para não perder o beneficio.  Em 14 de março de 1968 sob  intensa chuva, foi oficialmente instalado o Ginásio Bandeirante com 41 alunos matriculados.  O Jornal Pequeno publicou:

 

  Importante iniciativa do governo através da Secretaria da  Educação e Cultura em convenio com a Paróquia Nossa     Senhora das Dores (...). além da presença a professora Ana  Maria e Padre Albino, estiveram  presentes e Dr. Benedito Bogea Buzar, Doutor Antenógenes médico da  cidade,  Dra Elite Promotora da Comarca, o corpo docente e discente do estabelecimento, benfeitores e amigos, que no final do evento foram   recepcionados com um jantar na Casa Paroquial. (Jornal Pequeno, 3 de abril de 1968).

 

          Ele contou com muitos colaboradores como, Teresinha Aragão Mendes, que organizou o Ginásio, e teve  um corpo docente de primeira linha: Maria José Valquitã, Nonato Lopes, Ozanan Coelho, Astor Serra, Maria das Dores, Alzir Carvalho, João Silveira e outros. Embora já doente, o padre Albino foi o seu primeiro diretor até a sua morte.  

            Também foram diretores: Padre Benedito, Dr. Fernando Wellington, professor Raimundo Nonato Lopes. Em 1979, o Ginásio Bandeirante  foi transformado em CEMA, outro programa do Governo. Também auxiliou na fundação da Escola de Regentes de Educação por Leonel Amorim em 15 de fevereiro de 1955, e lecionou voluntariamente  música e latim.

 

Missões Populares e Estrada do Tingidor

 

                 Das quatro grandes missões, ao estilo antigo em Itapecuru Mirim, duas delas se realizaram a pedido de padre Albino. Em agosto de 1955 os padres da Congregação Redentoristas efetivaram  uma grande cruzada de evangelização, quando colocaram o cruzeiro em frente ao DER,  antigo Morro do Diogo, em 29 de agosto.  Como os missionários desejavam visitar o povoado Tingidor, e o acesso era precário, Padre Albino estimulou os lavradores a abrirem uma estrada de emergência para passar o caminhão das Missões Volantes, cedido por  Geraldo Vasconcelos residente do DER local.

            Os antigos moradores lembram-se da população rural   de machado, foice e outros instrumentos agrícolas, tendo à frente o padre comandando o trabalho. − A estrada do Tingidor, é uma providencia de grande alcance para a economia do vale do Iguará e Munim, principalmente, para facilitar o escoamento do arroz, com grande demanda na região,  dizia o padre. Aquela estrada foi  usada até no início dos anos 70, quando foi compactada pelo prefeito Miguel Fiquene.

            Outra Missão foi em 1962  pelos missionários Lazaristas.

 

Agricultores e Associações  de Classes

 

            Padre Albino foi um dos fundadores da Cooperativa Industrial e Agrícola,  em   24 de maio de 1953  com  a finalidade  de fazer funcionar a Usina de Álcool de Mandioca e amparar os operários,   agricultores e  pequenos empreendedores com financiamentos. Tendo como presidente    José Alexandre de Oliveira, fazia parte também da sua diretoria: Padre Albino,  Abdala Buzar, João Rodrigues, Orlando Mota, Benedito Bráulio Mendes e Sebastião Bandeira.

            Em 28 de dezembro de 1957, foi inaugurado o Coreto da Matriz, doado pelo Dr. Rui Mesquita, diretor do DER.

 

Principais Festas Religiosas

 

             As festas religiosas na época do Padre Albino ainda eram de responsabilidade das famílias influentes. A de São Benedito, realizada no final de dezembro tinha como responsável o Sr. Abdala Buzar, que emprestava grande brilhantismo ao festejo. 

             A segunda festa em importância no calendário litúrgico, a Festa da Santa Cruz, em meados de outubro, sob a responsabilidade da família Nogueira, tendo na pessoa de Francisco Nogueira  (Chico Nogueira), o seu maior ícone.

            A terceira, a Festa do Divino Espírito Santo,  era de responsabilidade de  Raimundo Francisco Veras.

            A quarta   festa em importância, era de Nossa Senhora das Dores, a Padroeira, ficava a cargo de  Eudâmidas e Cirene Sitaro e outras famílias influentes e finalmente a Festa de São Vicente de Paulo de responsabilidade dos Vicentinos.

            Com o desaparecimento dos seus mantenedores e do padre Albino estas festas entraram em declínio.  

Grandes Acontecimentos

 

          Grandes eventos marcaram a administração de Padre Albino em Itapecuru Mirim. O golpe militar de 1964 que instalou o regime ditatorial no País e a reforma religiosa.         Com a ditadura militar e a igreja fazendo a opção pelas classes oprimidas surgem novas práticas de evangelização, para estabelecer contatos diretos com os fiéis como, as Comunidades Eclesiais de Base, Comissão de Justiça e Paz, Conselho Indigenista Missionário, Comissão Pastoral da Terra e outras ferramentas para o intercâmbio entre Igreja e o homem do campo,  os “ Sem Terra”.

            Padre Albino implantou no município  a nova orientação eclesiástica. Criou grupo de pastoral da terra, organizou a Semana Ruralista em Agosto de 1957, com a presença do governador, José Matos Carvalho, comandante do 24 BC, do arcebispo dom José Delgado,  Secretários de Estado e médicos. Com fórum de debates sobre problemas da região como: saúde, educação, transportes, assentamentos, cooperativismo etc. Ao final  houve desfile dos lavradores pelas ruas, ostentando as suas ferramentas de trabalho.

            Organizou o curso de Líderes Rurais de 15 a 29 de março de 1961. Para jovens de Itapecuru e Vargem Grande, dirigido por técnicos agrícolas de São Luís e outros eventos ruralistas.

            Outro acontecimento importante na época do padre Albino foi a reforma religiosa, que  alterou a estrutura da igreja,  o Concílio Vaticano II, que mexeu nos dogmas da Igreja com mudanças radicais. Para citar algumas: a missa em latim passou a ser celebrada na língua pátria,  a mudança da postura do celebrante, nos rituais eucarísticos,   passou a ser de frente para os fiéis, também houve mudanças  na aplicação de alguns sacramentos, retirada de ícones entre outras. 

            As modificações implantadas a partir de 7 de março de 1965, trouxeram  à comunidade católica  expectativas e incertezas, quanto ao  rumo da Igreja. O padre conduziu com sabedoria metodológica, passando tranquilidade à população. 

     .

Agência do Banco do Brasil

 

                    Antiga reivindicação da Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Itapecuru Mirim, a instalação de uma  agencia  do Banco do Brasil na cidade, teve na pessoa do padre Albino um patrono importante no processo.

            O Banco do Brasil planejava instalar uma agência em  Chapadinha ficando a de Itapecuru Mirim em segundo plano.  O padre, sendo primo do diretor Regional do Banco, Sr. Agenor Fernandes, intermediou trazendo a agencia imediatamente para o município e  intercedendo para que  os gerentes fossem itapecuruenses.  Pleito atendido em 18 de maio de 1964, em acontecimento festivo foi  inaugurada a  agência tendo  Astor Cruz Serra e Wallace Mota designados gerente e sub-gerente, ambos itapecuruenses. 

 

              

Outras Informações

          Padre Albino  fez parte do grupo de itapecuruenses  composto por Joaquim Araújo, Feliciano Costa Luis Bandeira que resgatou em 1953  o hino de Itapecuru, de autoria do maestro Sebastião Pinto. Como ficou descontente porque no texto não citava a palavra Itapecuru, o padre criou o seu estribilho “ Terra de amor, Itapecuru” , sem prejuízo da música. (Vr. Sebastião Pinto).

        Para atender a tantas comunidades, as desobrigas (visitas pastorais  às comunidades rurais),   em lombo de burro, que muitas  vezes duravam semanas sem voltar à Casa Paroquial.  Sobre esses eventos  contam-se muitas histórias pitorescas de situações difíceis que ele vivenciou, como uma viagem,  em época de chuvas ao saltar o riacho Ipiranga, caiu cavalo e cavaleiro na enxurrada, sendo salvo por intervenção de lavradores, e outras situações, enfrentando atoleiros. Ele se sentia à vontade com  os caboclos, gostava das roças.

             O Padre Albino era considerado quase como um membro de cada família.   Deixou centenas de afilhados e compadres de “alma”. Muitos pequenos itapecuruenses receberam na pia batismal o nome Albino, em sua homenagem. Ele sempre dizia, “A casa paroquial deve ser a primeira a abrir e a última a fechar, porque é a casa do povo”.

           Quando do translado do seu corpo de São Luís para Itapecuru Mirim, foi decretado feriado local. Houve comoção geral no acolhimento do corpo   que foi  sepultado na Igreja,   com autorização de Dom Mota Albuquerque  por intermédio de Dom Medeiros Delgado, de  Fortaleza (CE).   Faleceu em São  Luís, no dia 24 de Janeiro de 1970.

             A missa do sétimo dia foi concelebrada por três cônegos, amigos: cônego Gerson Nunes Freire,  cônego  José Ribamar Carvalho (amigo de ordenação) e cônego Raimundo Carvalho. (de Vargem Grande).

                        José Albino Campos é patrono da cadeira 17 da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes tendo como  ocupante,   Antonio Blecaute Costa Barbosa.

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Do livro Itapecuruenses Notáveis (2016) de autoria de Jucey Santana

 

                     Cordel em homenagem ao Conego Albino           Campos, prestada pelos professores e alunos da Escola José Albino Campos de povoado do São Francisco – Itapecuru Mirim;

 

 

Autor: Professor, João Evangelista Marvão de Oliveira (Dedéu Marvão)

Co-autores:  Alunos,  Arthur Gabriel e Lara Letícia

 

Preste muita atenção

No enredo da minha história

Falarei do Padre Albino Campos

E da sua linda trajetória.

 

Filho de família humilde

Mas de grande coração

Sempre pensando nos pobres

 Fez a sua devoção.

 

Ordenou-se muito jovem

em Itapecuru chegou contente

 Construiu importante escola

 Para ensinar a sua gente.

 

Enfrentou grandes tormentas

Mas nunca se deixou abater

Sempre firme e determinado

 Esse era o seu dever.

 

Para Nossa Senhora das Dores

Um novo hino encomendei

Letra de Luiz Gonzaga Madureira

Música de Padre Videi

Nas quermesses e novenas

As famílias sempre estavam

Apoiando e dando graças

A tudo que conquistavam.

 

Reuniu os lavradores

Para falar sobre labor

E também da importância

D estrada do Tingidor.

 

Para escoar as produções

E gerar renda e freguesias

Promover a segurança

E o bem-estar das famílias,

Ele incentivou a criação

Da cooperativa agrícola Industrial

Que tinha como intuito

Desenvolver seu pessoal.

 

As principais festas religiosas

As famílias influentes coordenavam

Sempre como muito esmero

Todos juntos lá estavam.

 

Am o golpe de 64

Ele tomou sua posição

Sempre ao lado dos oprimidos

Fez sua opção.

 

Aos jovens da região

Do Itapecuru, da Vargem e do Munin

Trouxe cursos e formações

Pensando sempre neles tudim.

 

Falo ainda dos grandes feitos

Trazidos pra nossa gente

Trouxe o Banco do Brasil

Mostrando ser competente.

 

Finalizo nossa jornada

Cheio de grande fervor

Falar padre Albino Campos

O nosso grande pastor


quinta-feira, 20 de outubro de 2022

ESCRITURA PÚBLICA DA VILA DE ITAPECURU MIRIM

Registrada em cartório em 15.10.1818

A lavratura da Escritura de Obrigação e Patrimônio que faz o Brigadeiro José Gonçalves da Silva por seu procurador Antônio Gonçalves Machado, para a Vila de Sua Majestade houve por bem mandar criar nesta povoação do Itapecuru Mirim, como abaixo declara:

Saibam quanto este Público Instrumento de Escritura de Obrigação e Patrimônio, Cessão e Traspasso ou como o direito melhor nome tenha e disser-se possa, virem que sendo no Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de Mil Oitocentos e Dezoito, aos quinze dias do mês de outubro do dito ano, nesta povoação de Itapecuru Mirim, em meu escritório, foi presente o Brigadeiro José Gonçalves da Silva, por seu bastante Procurador Antônio Gonçalves Machado, pela Procuração que apresentou e adiante vai lançada como parte deste instrumento e que reconheço ser o próprio de que trato e faço menção, do que dou fé. E logo pelo mesmo Procurador foi dito em minha presença e das testemunhas adiante mencionadas, e assinadas, que seu Constituinte, o referido Brigadeiro José Gonçalves da Silva, sendo obrigado a comprar as terras necessárias para se verificar nesta Povoação a Vila que deve fundar pela Mercê que lhe faz Sua Majestade, como é expresso na Régia Provisão de vinte sete de novembro de mil oitocentos e dezessete, que foi expedida em consequência do decreto de 14 de junho do dito ano e Despachos da Mesa do Desembargo do Paço, de dezessete de julho e vinte e quatro de novembro do mesmo ano, tem com efeito o referido seu Constituinte comprado as terras necessárias para a Vila que deve fundar nesta Povoação, como consta das Escrituras de Compra das terras que apresentou, a saber:

Oitocentos e noventa e três braças e três quartos de frente, na beira-rio Itapecuru, principiando do Pau de Arara, testadas dos herdeiros José Antônio de São Paio, rio abaixo, até encontrar as terras de Manuel Antônio Martins, com mil e quinhentas braças de fundo, que foram compradas a José Pereira de Sousa, e seiscentas e cinquenta braças de frente, na mesma beira-rio, principiando no referido Pau de Arara, rio acima, até a boca do Igarapé que fica junto à Rampa e Porto desta Povoação, com uma légua de fundo ou o que na verdade se achar, tendo pelo mesmo fundo setecentas e cinquenta e cinco braças de largura até se encontrar com uma porção de terras, digo, de terra que pertence a Manuel Alves Viana, que foram compradas aos mesmos herdeiros do referido José Antônio de São Paio, e que em toda a terra mencionada constituía o dito Brigadeiro, o Patrimônio da Vila de que se trata, para que, desde já, fazia pura e irrevogável Cessão e Traspasso, demitia de si toda a posse e domínio da mesma terra, que fica vinculada para sempre à dita Vila, debaixo da Inspeção da Câmara da mesma Vila, ficando livre e sem prescrição alguma de foro todo o terreno em que se acha fundada a mesma Povoação, com seiscentas e cincoenta braças de frente na beira-rio, principiando do Igarapé da Rampa do Porto desta Povoação, rio abaixo, até o Riacho do Pau de Arara, com trezentas braças de fundo, atendendo as despesas com que os moradores da mesma Povoação, com licença do antepossuidor, abriram as ruas e tem feito à sua custa as casas e edifícios que acham em grande número e que todos os dias mais se vão aumentando, de sorte que pelas suas proporções e situação local vai a ser uma das Vilas notáveis desta Capitania, concedendo a Câmara, gratuitamente, os chãos que ainda se acharem devolutos, dentro do referido terreno, a quaisquer pessoas que nos mesmos chãos pretenderem edificar, procedendo à sua arrumação, e toda a mais terra deste Patrimônio fica livre a mesma Câmara, para aforar como lhe for mais conveniente, aplicando os rendimentos para as suas despesas e não duvida o dito Procurador, por seu Constituinte, que a Câmara tem posse Real e Civil e Natural das terras mencionadas , ele há pois que, desde já, ele há por empossada a mesma Câmara e para que não haja dúvidas e contestações para o futuro, passa também a demarcar à sua custa as ditas terras para a mesma Vila, em observância da Ordem Régia no principio declarada, e se obriga o dito Brigadeiro, seu Constituinte, por si e seus herdeiros, fazer esta Escritura firme e valiosa e de paz para sempre, sob cargo de seus bens.

Em fé e testemunho da verdade, assim o deu e se obrigou, ouviu ler e foi contente. – E eu, Tabelião, assisto a presente Escritura pela parte ausente a que tocar possa e fiz este Instrumento em virtude do Despacho do Doutor Desembargador Ouvidor e Corregedor da Comarca, Francisco de Paula Pereira Duarte, que adiante vai copiado. Testemunhas que foram presentes: o Escrivão da Provedoria Marcelino José de Azevedo e o Escrivão da Ouvidoria e Correição José Joaquim da Silva Baima que, com o Procurador do referido Brigadeiro José Gonçalves da Silva, que aqui assinaram e todos são conhecidos de mim – Germano Lourenço Figueira, Tabelião que o escrevi e assinei em público e raso. Estava o sinal público. Em testemunha da verdade, - Germano Lourenço Figueira – Antônio Gonçalves Machado – Marcelino José de Azevedo – Joaquim José da Silva Bayma.

 

A Vila de Itapecuru Mirim foi muito próspera, ficando por muito tempo na categoria de terceira mais importante no Maranhão, só perdendo para a capital São Luís e Caxias. O seu desenvolvimento teve apogeu entre os anos de 1818 a 1880, com muitos negociantes, fidalgos, fazendeiros, produtores de arroz, algodão e cana-de-açúcar, comendadores, conselheiros imperiais, jornalistas, poetas etc. e grandes feiras de gado e escolas importantes.

 

 

Do livro, Sinopse da História de Itapecuru Mirim (2018), de autoria de Jucey Santana

204 ANOS DE EMANCIPAÇÃO POLITI CA E ADMISTRATIVA DE ITAPECURU MIRIM

    Fundação da Vila  -  20.10.1818


Jucey Santana

Por volta de 1615 a ribeira do rio Itapecuru começou a ser povoada pelos missionários jesuítas e colonizadores portugueses. Região de promissoras terras férteis e abundante fauna. Não foi pacífica a colonização, tendo havido confrontos e massacres entre colonizadores, nativos e missionários. A Ribeira do Itapecu­ru compunha-se de várias povoações, entre as quais o Arraial da Feira, a Freguesia da Nossa Senhora de Rosário, localizada acima do Forte do Calvário, na subida do rio Itapecuru, que agregava os povoados de Pai Simão e São Miguel, hoje muni­cípio de Rosário, habitada outrora por índios Tabajaras e Cabi-Cabi, rio acima até o Arraial (Itapucuru Mirim), antes habitada pelos Tapuias, Uritis e os Ubirajaras conhecidos por “Barbados”.

Raymundo de Sousa Gaioso em seu Compêndio histórico-político dos princípios da lavoura do Maranhão (1812), havia registrado: A frequência de boiadeiros que ali (Itapecuru Mirim) vem sortir-se dos efeitos que carecem para o seu negócio, e gasto, tem constituído esta povoação em um giro de comércio assaz importante, e a tem enriquecido. Já Francisco de Paula Ribeiro em 1815, verificou que Itapecuru Mirim era o segundo lugar mais notável da ribeira do Itapecuru.

 

Importância das famílias na fundação da Vila

 

Entre os séculos XVIII e XIX importantes famílias, dentre as quais: Gomes de Sousa, Belfort, Burgos, Lamagnere, Gaioso, Guilhon, Nunes, Homem Souto Maior, Leal, Vieira da Silva, Henriques e outras, com influência na corte portuguesa, foram fundamentais para o progresso da região, por possuírem grandes extensões de terras, oriundas de sesmarias, com produtivos engenhos impulsionados com mão de obra de escravos, daí a necessidade de uma administração independente do ponto de vista político.

 

Primeiras manifestações para a fundação da Vila de Itapecuru Mirim

 

Segundo o livro História da Independência da Província do Maranhão, de Luís Antônio Vieira da Silva, as primeiras ações sobre a organização administrativa da povoação do Arraial da Feira, antiga denominação de Itapecuru Mirim, datam de 17 novembro de 1751, quando o governador Luís de Vasconcelos Lobo dirigiu ao rei D. José uma carta com 1.094 nomes, pedindo a fundação de uma vila, em face do contínuo desenvolvimento (grafia da época):

 

Snr. Pedem a V. Magde. os moradores do Itapucuru lhe queira fazer amce. De lhe conceder hua Villa, pareçeme que justamente pedem por q são os moradores tantos como V. Magde. pode mandar ver na lista junta, e pareçeme serão mais bem Governados, mais bem administrados a Justiça se V. Magde. for servido conceder-lhe foral de Villa com Justiças. Constante que andão fabricando Igreja Matriz de pedra mto. bem feyta por cuja rezão, parece se fazem credores da graça q pedem. V. Magde. mandará o q for servido. (História da Independência da Província do Maranhão, por Luís Antônio Vieira da Silva).

 

A solicitação não foi levada na devida conta pela realeza portuguesa. Segundo César Marques, no seu Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão, “só em 25 de agosto de 1768, D. José fez saber ao governador do Maranhão que os moradores da ribeira do Itapucuru lhe pediram alvará de confirmação da vila”. Frustradas as primeiras tentativas para a fundação da vila de Itapecuru Mirim, só 49 anos depois o assunto voltou a ser objeto de apreciação de Sua Majestade. Desta feita, por meio de um ilustre e rico cidadão lusitano, que se fazendo intérprete dos anseios da povoação, fez ver ao rei que estava em condições de materializar aquela empreitada.

 

 Fundação da Vila

 

D. João VI governava Portugal e suas colônias como príncipe regente quando veio para o Brasil em 1808, fugindo das tropas do imperador francês Napoleão Bonaparte, que resolveu invadir Portugal. Ao chegar ao Brasil decretou a “abertura dos portos brasileiros”. D. João VI, em 16 de dezembro de 1815, elevou o Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves, deixando o nosso país de ser colônia. A partir daí todas as nossas capitanias receberam o nome de província.

Na época, o riquíssimo português José Gonçalves da Silva, a troco de muitos agrados à Família Real, solicitou a Dom João VI o título de nobreza de alcaide-mor. O título já estava em desuso, porém o rei tinha a prerrogativa da outorga. As condições para ser um Alcaide-Mor eram fundar uma fortaleza, uma vila ou um castelo para ter o domínio e receber o título perpétuo. Foi-lhe negado o pedido da alcaidaria de Guimarães, onde era dono de quase tudo. Então, voltou sua atenção à Ribeira do Itapecuru, povoação em plena expansão graças à prosperidade dos proprietários de terras, na sua maioria amigos e parceiros de negócios de José Gonçalves e já com uma administração atuante na categoria de Freguesia criada em 25 de setembro de 1801, sob as bênçãos de Nossa Senhora das Dores.

Em 7 de novembro de 1817 o Rei D. João enviou Provisão Régia autorizando a fundação da Vila de Itapecuru Mirim, sob as seguintes condições: que fossem adquiridas e legalizadas as terras para a criação da vila, a construção de casas para 30 “habitadores” (casais) brancos, a construção da Casa da Câmara, da Cadeia Pública e oficinas para fundar a vila.

Novamente citando César Marques, “Em 20 de outubro de 1818, presentes o Desembargador, Ouvidor e Corregedor da Comarca de São Luís do Maranhão, Francisco de Paula Pereira Duarte, Alcaide-Mor José Gonçalves da Silva, representado por seu procurador Antônio Gonçalves Machado, o Clero, Nobreza e povo, levantou-se o Pelourinho, deram-se “ viva” do estilo, criaram-se por eleição de Pelouro, dois juízes ordinários, um juiz de órfãos, vereadores e mais oficinas instalando-se assim solenemente a Vila de Itapecuru Mirim”.

 

Alcaide-mor de Itapecuru Mirim

 

José Gonçalves da Silva recebeu o título de alcaide-mor, registrado no Cartório de Nobreza e Fidalguia,  mesmo não tendo cumprido na íntegra as exigências da Provisão Régia para construir a sede de governo na vila. Ele só doou as terras e as legalizações de praxe. Depois o rei desculpou o ouvidor da comarca, Francisco de Paula Pereira Duarte, por ter antecipado o evento, dando um prazo de dois anos para atendê-las, sob pena de José Gonçalves  perder as regalias do título de alcaide-mor. Infelizmente ele faleceu três anos depois (24.11.1821), sem cumprir o acordo na sua totalidade e seus herdeiros não honraram os compromissos assumidos. A justiça chegou a penalizar os herdeiros com a indenização de 500$000 por casal.

Vale registrar que o auto da fundação da Vila de Itapecuru Mirim, segundo Luís Antônio Vieira da Silva em História da Independência da Província do Maranhão, ocorreu na residência do próprio ouvidor Francisco de Paula, que tinha interesse pessoal na fundação da vila, na qualidade de esposo de Carlota Joaquina Belfort, neta do fidalgo irlandês Lourenço Belfort (fundador do Engenho Kelru), que havia deixado grandes extensões de terras aos seus descendentes na região, justificando o interesse próprio do ouvidor em elevar a freguesia à categoria de vila sem cumprir as determinações reais. Assinaram como testemunhas 35 pessoas da elite dos latifúndios da Ribeira de Itapecuru.

José Gonçalves da Silva morreu com o título de alcaide-mor de Itapecuru Mirim. Seu corpo foi sepultado na capela da Quinta das Laranjeiras.

 

Do livro, Sinopse da História de Itapecuru Mirim (2018), de autoria de Jucey Santana