Quando um homem se transforma em memória
*Franklin Falcão
Há notícias que chegam e, por alguns instantes, parecem não encontrar lugar dentro de nós. A gente lê, relê, silencia e custa a acreditar. Foi assim que recebi a notícia da partida de Roque Pires Macatrão, meu amigo e confrade.
Algumas perdas não são apenas perdas pessoais. Elas atingem também as instituições, a cultura, a história e a memória de uma cidade. A partida de Roque é uma dessas perdas.
Academia Ludovicense de Letras está de luto. Perdemos um grande confrade, um amigo querido e, sobretudo, aquele que teve a responsabilidade e a honra de ser seu primeiro Presidente.
Ser o primeiro Presidente de uma Academia é muito mais do que ocupar uma cadeira ou exercer uma função. É participar do momento em que uma ideia começa a transformar-se em realidade. É acreditar que as palavras podem construir pontes, preservar a memória e deixar para as futuras gerações aquilo que o tempo jamais deveria apagar.
Roque esteve lá, no começo.
Ele ajudou a escrever as primeiras páginas da história da nossa Academia. E talvez seja justamente por isso que seu nome jamais poderá ser separado da trajetória da ALL. Quando falarmos de sua origem, de seus primeiros passos e daqueles que acreditaram em seu futuro, Roque Macatrão estará sempre entre nós.
Mas a vida de Roque foi muito maior do que sua participação na Academia.
Homem do Direito, formado pela Universidade Federal do Pará, advogado, intelectual e estudioso, construiu uma trajetória respeitada e ocupou importantes funções na vida pública do Maranhão. Foi Procurador-Geral de Justiça do Estado, estando à frente do Ministério Público maranhense no início da década de 1980. Também exerceu funções de Procurador e Secretário de Estado de Justiça durante o governo de João Castelo.
Essas funções revelam a dimensão pública de sua trajetória. Mas os cargos, por mais importantes que sejam, não conseguem traduzir completamente quem foi um homem.
Porque um homem não é apenas aquilo que fez. É também aquilo que deixou!
E Roque deixou muito.
Deixou sua contribuição ao Direito, à administração pública, à cultura e às letras. Deixou seu nome ligado a instituições importantes. Deixou respeito entre aqueles que com ele conviveram. E deixou, principalmente, amizades.
É dessa última herança que hoje me lembro com mais carinho.
Porque, para mim, Roque não é apenas o Procurador-Geral de Justiça, o Secretário de Estado, o advogado, o intelectual ou o primeiro Presidente da Academia Ludovicense de Letras.
Para mim, Roque é o amigo. É o confrade. É a pessoa com quem compartilhei a caminhada acadêmica e momentos que agora ganham um significado ainda maior diante da saudade.
A vida tem essa maneira curiosa de nos ensinar o valor das pessoas. Muitas vezes, enquanto convivemos, não percebemos que estamos construindo memórias. Somente quando alguém parte é que compreendemos que aquelas conversas, aqueles encontros e aqueles momentos aparentemente comuns eram, na verdade, pequenos tesouros que a vida estava nos oferecendo.
Hoje, essas lembranças ganham outro valor.
E é por isso que não quero falar de Roque apenas com tristeza.
Quero falar com gratidão.
Gratidão por sua amizade. Gratidão pela convivência. Gratidão por tudo o que representou para a Academia. Gratidão pela história que ajudou a construir.
A morte encerra uma presença, mas não consegue encerrar uma história.
Enquanto houver alguém que se lembre, alguém que conte, alguém que pronuncie seu nome com carinho, uma parte daquele que partiu continuará entre nós.
E Roque será lembrado.
Será lembrado nas páginas da história da Academia Ludovicense de Letras. Será lembrado por seus amigos e confrades. Será lembrado por sua família. Será lembrado por sua atuação no Direito e na vida pública do Maranhão.
E será lembrado, sobretudo, por aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo de perto.
Neste momento, meu pensamento se volta também para sua família e, de maneira muito especial, para seu filho, Paulo Macatrão.
Paulo, receba o meu abraço mais fraterno e os meus sentimentos mais sinceros.
Sei que nenhuma palavra é suficiente diante da perda de um pai. Há dores para as quais não existem frases capazes de oferecer consolo imediato. O tempo talvez não apague a saudade — e nem deveria —, mas poderá ensinar a transformá-la em uma presença diferente: a presença das lembranças.
Que você possa encontrar conforto ao olhar para a trajetória de seu pai e perceber o quanto ele deixou de si neste mundo.
Um pai permanece nos filhos. Permanece nos ensinamentos, nos gestos, nos valores, nas histórias contadas à mesa e nas lembranças que o tempo jamais consegue destruir.
Roque permanece também naquilo que construiu.
Paulo, seu pai teve uma vida de participação, de trabalho e de realizações. Teve o privilégio de servir ao Maranhão, de exercer funções de grande responsabilidade, de participar da vida cultural e jurídica do Estado e de contribuir para a construção da Academia que hoje lamenta sua partida.
Por tudo isso, espero que você e sua família encontrem, em meio à dor, algum conforto na certeza de que Roque não será esquecido.
A Academia Ludovicense de Letras, saberá guardar seu nome.
E nós, seus confrades e amigos, teremos a responsabilidade de preservar sua memória.
Talvez um dia outro acadêmico ocupe a cadeira que foi sua. É assim que as instituições continuam. Novos nomes chegam, novas histórias são escritas, novas gerações assumem responsabilidades.
Mas existe uma cadeira que ninguém poderá ocupar.
É aquela que Roque conquistou na memória e no coração daqueles que o conheceram.
Essa cadeira permanecerá eternamente ocupada.
A ALL perde seu primeiro Presidente.
O Maranhão perde um homem que dedicou parte de sua vida ao Direito, à administração pública, à cultura e às letras.
Nós perdemos um grande confrade.
Eu perco um amigo.
E talvez seja justamente nessa frase tão simples que esteja toda a dimensão da minha tristeza. Não quero, porém, que a última palavra seja a tristeza.
Quero que seja a gratidão.
Obrigado, Roque, pela amizade.
Obrigado pela convivência.
Obrigado pelo exemplo.
Obrigado por tudo o que fez pela nossa Academia.
Obrigado por ter ajudado a escrever as primeiras páginas dessa história que
continuaremos a construir.
A morte pode levar o homem, mas não leva o legado.
Pode silenciar a voz, mas não silencia aquilo que foi escrito no coração dos amigos.
Pode encerrar uma caminhada, mas não consegue apagar as marcas deixadas pelo caminho.
Roque Macatrão fez sua caminhada. E deixou suas marcas.
Agora cabe a nós continuar escrevendo. E sempre que a Academia Ludovicense de Letras abrir suas portas, sempre que os confrades se reunirem para falar de literatura, cultura e memória, sempre que alguém recordar aqueles que ajudaram a construir nossa instituição, haverá um nome que voltará às nossas lembranças:
Roque Macatrão.
O nosso primeiro Presidente, nosso confrade e nosso amigo.
Que Deus o receba em sua infinita misericórdia, conceda-lhe o descanso eterno e conforte Paulo, seus familiares e todos aqueles que hoje sentem a sua ausência.
Descanse em paz, querido Roque.
Você partiu, mas não deixou de estar entre nós.
Sua presença tornou-se memória.
Sua memória tornou-se história.
E sua história permanecerá para sempre na Academia Ludovicense de Letras.
*Roberto Franklin Falcão da Costa, escritor, poeta
maranhense.
Membro da Academia Ludovicense de Letras
