quinta-feira, 8 de junho de 2017

EFEMÉRIDES ITAPECURUENSES -MÊS DE JUNHO



           

Jucey Santana


Dia 01 (1863) – Falecimento do matemático Joaquim Gomes de Sousa, aos 34 anos;

Dia 03 (1969) – Falecimento de Carlos José Bezerra, fundador da banda Lira Ideal;

Dia 04 (1874) Hastímphilo de Moura mudou-se com a família para são Luís;

Dia 07 (1946) Falecimento do Almirante Silvinato de Moura;

Dia 10 (1823) – Sangrento combate entre as tropas portuguesas e os Itapecuruenses em frente à antiga igreja de Nossa Senhora do Rosário pela consolidação da Adesão do Maranhão à Independência; 

Dia 10 (1908) – Faleceu Raimundo Nogueira da Cruz e Castro, Presidente da Câmara de Itapecuru Mirim e governador do Estado em 1904:  

Dia 11 (1959) – Casamento do comerciante Jamil Mubarak com a professora Maud Mubarak;

Dia 13 (1888) – Antônio Marcelino Nunes Gonçalves recebeu de D. Pedro II  o título de Visconde de São Luís. Foi político, abolicionista e escritor;

Dia 17 (2002) – Falecimento de Astor Cruz Serra, poeta, professor  e primeiro gerente da agencia do Banco do Brasil de Itapecuru Mirim;  

Dia 20 (1933) – Restabelecimento da Comarca de Itapecuru Mirim, como de 1ª Entrância;

Dia 20 (1812)-José Gonçalves da Silva, fundador da Vila de Itapecuru Mirim, recebeu o título de Senhor do Morgado das Laranjeiras. 

Dia 21 (1761) – Lourenço Belfort, fundador do Engenho Kelru,  foi armado Cavalheiro da Ordem de Cristo em Lisboa, pelo Rei D. José I; 

Dia 22  Aniversario de Werbty Almeida Diniz  (Beto Diniz);

Dia 23 (1864) – Morte de Joaquim Vieira da Silva, Presidente da Província do Maranhão de 1832/1834; 

Dia 23 (1886) – Nascimento de Joaquim Ferreira Lima, Major Lima, proprietário do antigo Engenho Kelru;
Dia 23 (1999) – Falecimento do ex-prefeito Bernardo Thiago de Matos;
Dia 25 (1852) – João Lisboa fundou o jornal Timon Maranhense;
Dia 24 (1901) – Nascimento do jornalista João Rodrigues, duas vezes prefeito de Itapecuru Mirim;
Dia 25 (1956) – Falecimento do General Hastímphilo de Moura;

Dia 27 (1976) – Inaugurado o Centro Espírita Amor e Caridade, tendo Luís Bandeira de Melo como o primeiro Presidente;

Dia 28 (1963) – Instalação do Núcleo das Irmãs Josefina;

Dia 28 (1922)- Feliciano Lopes assumiu-o o cargo de delegado de policia;
Dia 30 (1871) – Falecimento de Maria Nogueira da Cruz, filha de Raymundo Nogueira da Cruz e Castro em Oiteiro dos Nogueiras;

terça-feira, 6 de junho de 2017

MEMÓRIAS DE DEOLINDA



     

Série Contos Itapecuruenses de outrora.

Daniel Ribeiro.

A tarde cai sobre Itapecuru, o sol despede-se em mais uma de suas belas pinturas. Da margem direita do rio a velha senhorinha enche os olhos de lágrimas; emocionada ao lado dos seus netos, que sempre ao final da tarde reuniam-se na Avenida Beira Rio, ali próximo das antigas rampas para ouvir suas histórias.
Maria Deolinda da Conceição morava há mais de quarenta anos no mesmo endereço, herdara uma casa de seus pais, comprada com muito esforço por senhor Doca, seu velho pai, um antigo estivador que trabalhava no transporte de cargas das balsas, aquelas a vapor que desciam da capital para interior pelas águas do Rio Itapecuru.
Sabedora dos fatos mais marcantes de sua cidade teimava com qualquer um que afirmasse, a maior cheia do Rio Itapecuru tinha sido a de mil novecentos e setenta e quatro (1974) ou a de mil novecentos e oitenta e seis (1986).
— Papai atravessava gente na canoa, ali do comércio da Helena até           o “arto” depois do Luiz da Chiquita.
— “Marminino” quer dizer que “ocês” mais novo que eu, querem teimar.
Seus netos adoravam tirar do sério sua adorada vovó, sempre muito vaidosa e de memória bem viva para os seus já quase noventa anos.
Continuava a perfumar-se e pentear os cabelos com todo capricho, como nos velhos tempos do festejo de Nossa Senhora das Dores, festividade que movimentava a cidade de Itapecuru, muita gente de fora, feirantes de toda parte, enfim, segundo a velha era a festa do ano.
— Lá vem Deolinda falar de sua vaidade, nos seus tempos de nova, mulher “sorteira”, pisava muito por tudo que é canto de Itapecuru, seu querido neto André.
— Na festa da padroeira tinha muita coisa boa, a feira ao redor da igreja, onde fazíamos as compras da “ropa,” de ano logo. 
— No tempo de “padi” Albino era muito animado os festejos.
 — “Oia” tinha até festa em tudo que é canto. Pau furado ali “pros” lado do Caminho Grande, “morça sorteira” não saia sozinha. Papai cuspia no chão esperando eu e minha irmã Noca chegar das missas.
A velha Deolinda sempre saudosista falava com entusiasmo e um amor sem igual por sua cidade, porém também retrava os tempos difíceis de sua família e a sua infância pobre.
— Quando “nóis” era menina, mamãe levava a gente pra lavar “ropa” nas pedras aqui na margem do rio, descíamos a rampa construída pelos “nossos” no passado, os antigos escravos.
— Nóis é que lavava pras gente rica da cidade, isso ajudava na despesa da casa.
— Mamãe contava que nossa tataravó Binoca era filha de escravos, nagô das “banda” d’África.
Mesmo sem nenhuma instrução a anciã da família Conceição carregava consigo um conhecimento vasto de sua cultura. Adquirida ao longo da convivência com seus avôs e seus pais.
— Já moça “nóis” banhava no rio, “os rapaz” ficava tudo de tocaia nos mato pra espiar, vigia, eita tempo...
— Água pra “mode” nos beber era da fonte da Miquilina, dava era fila de manhã cedo, mamãe acordava eu e a finada Noca as cinco hora da matina, “barde” na cabeça.
— A finada Maria Miquilina, uma veia que tomava de conta. E aí de quem cortasse um pé de mato ao redor da fonte, ou a sujasse, ela ficava braba e caia de chicote.
Dona Deolinda casara duas vezes e teve seis filhos dos dois casamentos. Considerava-se uma mulher feliz e realizada ao ver a família reunida nos almoços de domingo.
Vez ou outra se mirava no espelho e via a jovem de quadris largos, seios fartos, cintura bem afinada. Lembrava com muito orgulho de sua mocidade tirava atenção dos rapazes da época.
— Eu nunca “gustei” de “rapozala”, arrumei logo dois cabras mais velhos que eu.
— O finado Martiniano das bandas do Kelru, devoto de São Patrício que não sei donde preto é devoto de santo de branco.
 Seus netos riam do tom sempre bem humorado da senhorinha, estavam acostumados e sabiam que era uma forma alegre e descontraída dela relembrar seu passado.
— O finado Bruno, carpinteiro de mão cheia das bandas da Santa Maria dos Pretos.
— Ocês oia que sempre fui apaixonada por gente da nossa cor, acho lindo o povo negro e sua fisionomia, gestos, cabelo, tudo me atrai em nossa gente.
O orgulho era imensurável por seus antepassados, carregava consigo o legado da história do povo que muito lutou por liberdade na antiga Ribeira, isso enchia dona Deolinda de altivez quando narrava aos descendentes sobre o Negro Cosme.
— Tutor e Imperador das Liberdades, onde já se viu minha gente naquele tempo, receber um título de nobreza dado por seus homens.
— O finado Lúcio um velho que morava pros lados da Trizidela era neto do Barão, um negro que andava com uma carta dada pelo Negro Cosme. Vê se pode. Dizia ter título de barão.
A forma didática utilizada por dona Deolinda nunca antes aprendida em nenhum curso de pedagogia. Encantava a quem escutasse suas longas narrativas.
— Meus filhos, o que mais me admira nesse preto Cosme é que esse “tar”, Tutor das Liberdade, inventou até escola pra preto no meio do Quilombo Lagoa Amarela ali pras banda da Chapada das mulatas, oia vigia só.
Envaidecia-se toda vez que contava os casos de Cosme Bento das Chagas. Era como se sua missão fosse levar o legado do seu povo aos mais novos, filhos, netos, bisnetos e descendentes. Deolinda sabia que a má fama imposta ao anti-herói, fora dada por aqueles que afugentavam sua amada gente.
— Não acreditem no que diz essas “cartilha,” “veia,” empoeirada nas escolas, que nosso negro era bandido, assassino, pra “nóis” gente de cor, foi como dizia, o povo estudado da nossa história, um mártir que lutou pela liberdade.
— “Veje” bem meus netos tudinhos, escancha neto, essa terra que “nóis” tudo pisa é sagrada pra “mode” nunca deixar morrer nossa memória.
Em si tratando de Deolinda havia sempre de surpreender a todos com um fato ou outro que deixou de ser exposto.
— “Ocês” querem saber de uma coisa Itapecuru foi construída mesmo foi por braço de preto, suor dessa gente forte, que resistiu ao cativeiro, e a toda má sorte de viver sob o controle dos brancos.
Antes de partir dessa para melhor, constituiu uma espécie de atlas histórico-cultural por ser fonte de informações preciosas de sua cidade. Sua modesta casa continuou preservada por seus familiares que continuavam a reunir-se e manter viva a memória de Deolinda.
Contudo, a sua maior herança deixada aos descendentes era o bem imaterial constituído de saberes sobre Itapecuru e que agora seriam preservados e repassados a mais pessoas de sua terra natal.

                                       


domingo, 4 de junho de 2017

O ÚLTIMO CARRO DE BOI




      


                                                                                               
                                                                                                                                SÉRIE CRÔNICAS – ANO IV/nº 42/2017

Josemar Lima

Ele vinha pela arenosa Rua da Boiada! A sua cantiga característica, uma espécie de chiado longo, percorria mais de trezentos metros e chegava bem primeiro aos meus ouvidos, antes mesmo dele aparecer ali no Largo da Trapiá, no início do Caminho Grande. (Trapiá era a denominação de uma casa de comércio de secos e molhados ali existente). Eu invariavelmente estava ali postado, pois tinha a tarefa de vigiar a Sapataria de meu tio Zé Félix e atender eventuais fregueses que desejassem comprar sapatos, tamancos, ou mesmo as alpercatas com solados de pneus de caminhão, as mais procuradas. Nesse tempo ainda não existiam as sandálias japonesas!

Os Carros de Boi originaram-se na Idade da Pedra e chegaram à Região da Ribeira do Itapecuru, em 1619, na memória de artesões açorianos que logo começaram a produzi-los para as atividades dos Engenhos de cana-de-açúcar que se instalavam às margens do Rio Itapecuru. Foi, com certeza, o primeiro e o principal veículo de transporte terrestre utilizado no nosso município no início da colonização.

Conta a lenda que a denominação povoado “Carro Quebrado” advém de um acidente em que ali um carro de boi atolou-se e quebrou o eixo sendo abandonado pelo seu proprietário. A partir daí os residentes na região quando queriam referirem-se ao local exclamavam: - Lá no Carro Quebrado! E assim ficou ...

O carro de boi original é composto por duas rodas grandes feitas de madeira de lei, com um anel de ferro circular que as protegem em toda extensão no contato com o terreno. A grade, ou carroceria, possui em média três metros de comprimento com um metro e meio de largura, com duas vigas laterais bem resistentes e uma terceira no meio, mais alongada, destinada a atrelar o carro às cangas, feitas também de madeira, com uma curvatura destinada a se encaixar perfeitamente no pescoço do boi, guarnecidas por pinos e correias de couro denominadas brochas.

É nessa viga central que se aloja o “carreiro, responsável  pelas atividades de manobras do veículo e manutenção dos bois em ritmo constante e sincronizado.

A carroceria é apoiada sobre um eixo talhado em madeira resistente que se encaixa em dois mancais laterais, pontos de apoio do eixo central. São da fricção do eixo sobre os mancais que reverberam os sons denominados “chiados” ou “cantigas”, característicos dos carros de boi.

Era essa cantiga que eu ouvia todos os dias, mesmo ante de divisar aquele veículo tão original. Via inicialmente os bois, geralmente duas juntas, quatro animais; dois à frente e dos mais atrás, tocados por um vulto de chapéu de couro e camisa de mangas compridas, sentado no início da grade central, com uma vara comprida às mãos e mais detrás de si, a carga transportada, quase sempre formada por toras de madeiras tostadas de fogo, de mais ou menos um metro cada uma, caprichosamente empinhadas uma sobre as outras, até uma altura que ultrapassava em muito os taipais laterais do carro. Essa madeira era destinada aos fornos das padarias locais.

Às vezes transportavam pedras, estacas de unha-de-gato, ou quaisquer materiais pesados para as construções no centro da cidade.

Quanto mais se aproximava do batente da porta da Sapataria, local preferido para eu ficar sentado, a cantiga produzida pelo carro se ampliava, quase como uma melodia de poucas notas, e eu podia ver com detalhes a figura de Seu Zé Paraibano ali sentado, fumando um enorme cigarro “pau ronca”, confeccionado manualmente com fumo de rolo e papel de embrulho e, ainda, observar que na extremidade daquela longa vara existia encaixada uma pontiaguda peça de metal que ele usava em estocadas quando os bois ameaçavam parar ou quando o carro atolava na abundante areia branca da rua.

Ele não parava de gesticular e, estranhamente, se dirigia aos animais de uma forma que denotava um certo carinho, mesmo que os açoitasse com aquele terrível ferrão, tratando-os pelos seus nomes de batismo ateu. – Ôhaa, Ôhaa ... Vamos “Branquinho”! ou Força “Boi Estrela”!

Seu Zé Paraibano residia em um sítio amplo, localizado logo no início do antigo Caminho Grande, uma área com muitos cajueiros e mangueiras. Era ali que ele residia em uma casa de taipa, coberta de telhas de barro, mantinha sua capineira para alimentação dos bois de carro e estacionava sua frota, composta de três carros de boi.

Ele sobrevivia dessa atividade em Itapecuru Mirim, creio que até, se não me engano, meados do ano de 1967.

Ele mesmo produzia seus veículos, com madeiras da região. As mais usadas eram pau d’arco, aroeira, maçaranduba e pau roxo.

O carro de boi pode ser puxado  por uma, duas ou mais junta de bois ou parelhas. Cada junta é formada por dois bois, que trabalham um do lado do outro, unidos pela canga.

Na Baixada Ocidental Maranhense, principalmente no município de Cururupu, ainda existem comunidades quilombolas que utilizam o carro de boi, na sua forma original, em suas atividades diárias de transporte de cargas pesadas.

Voltei a ver seu Zé Paraibano no final do ano de 1969, desta vez sem seu traje original de “carreiro”. Sem o chapéu de couro, sem a camisa de riscado, sem seu facão na cintura e, principalmente sem a sua tradicional vara de ferrão.

Era servidor municipal e um dia o recebi na Prefeitura, pois ele desejava falar com o Prefeito Municipal alguma coisa relacionada a sua saúde. Trajava camisa e calça brancas, tossia constantemente e trazia nas mãos uma toalha também branca que colocava sobre a boca toda vez que tentava falar. Quando falava um forte e desagradável odor se espalhava pela sala e não pude dissociar aquela imagem daquela que guardava até então de suas passagens diárias em seu carro de boi pela antiga Rua da Boiada e uma tristeza imensa se abateu sobre mim.

Pouco tempo depois soube do seu falecimento causado por uma doença quase que desconhecida naquela época em nosso município – Câncer na garganta!


JOSEMAR SOUSA LIMA é economista, com especialização em desenvolvimento Rural Sustentável e membro da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes- AICLA.

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sábado, 3 de junho de 2017

CARTA DO GENERAL HASTÍMPHILO DE MOURA AO PREFEITO BERNARDO DE MATOS



     

Rio de Janeiro, 2 de outubro de 1944

Ilustre conterrâneo

 Bernardo Thiago de Matos  D. Prefeito de Itapecuru Mirim.
Em mensagem oral transmitida pelo distinto amigo padre J. Dourado, vigário do abençoado recanto do Maranhão, onde colhi primeira e recente visão do panorama mundial, esse pitoresco Itapecuru Mirim, fez-me ciente do cavalheirismo gesto do operoso prefeito, dando meu nome a praça circunvizinha a Igreja Matriz em homenagem ao modesto e espontâneo concurso com que beneficio o templo onde meus saudosos se remiram, seus filhos se batizaram até o último que é signatário desta carta. 

Concurso nobremente orientado, consultou oportuna aplicação subjetiva, em vez de egoística satisfação de gozo pessoal.

Tão agradável notícia foi recebida com sincero desvanecimento, neste dia 26 de setembro quando tive o prazer de acolher em visita aquele prelado patriota, acompanhado de dois outros sacerdotes meus conterrâneos, um deles o cônego Antônio Lopes Gonçalo, secretário do Bispado, aos quais não teria passado provavelmente despercebido minha doce e incontida emoção. 

A finalidade desta missiva, que o terá surpreendido, é acentuar que mereceu externadas emoções vividas e levar ao longínquo rincão da terra maranhense, declaração, que lhe faço neste momento, de sinceros agradecimentos pelo fidalgo aceno do ilustre conterrâneo que confirma o conceito de nobreza de sentimentos inatos nos bons filhos desta terra, boa terra por mim sempre e cada vez mais amada.

Como me lamento não ser possível está aí em pessoa para cerrá-lo em meu peito e a toda essa gente cativante, descendente de gerações de conterrâneos de meus ancestrais.
Se lhe não parecer abuso de benevolência pedir-lhe-ia tornar conhecidas essas linhas de imorredouras  sensações.

Motivo altamente patriótico  determinou o afastamento do padre Dourado de sua paróquia privando-a de sua eficiente atuação. Ausentou-se o prestigioso vigário com quem mantive todos os entendimentos, mas, seu posto continua firme ilustre prefeito a apresento cordiais saudações. 

 Hastímphilo de Moura.

                                Transcrita no Jornal Trabalhista, 28.12.1946