domingo, 14 de julho de 2024

ACADEMIA DE VARGEM GRANDE - REGIÃO DO IGUARÁ

    

                        Homenagem de Benedita Azevedo

 Olá queridos confrades

Aceitando este convite

De uma confreira irmã,

O meu coração transmite,

Com alegria os sonhos

Destes semblantes risonhos

Tristeza aqui não existe!

 

As terras bem progressistas

Desde o século dezoito

Aquelas do Iguará,

Foram mesmo muito afoitos

Aqueles grandes fidalgos,

Que receberam afagos

Feito vinho com biscoito.

 

Rainha de Portugal

Autoriza a aquisição

De imensas glebas de terra

Para sua criação,

Com sesmarias na mata

Ali se reúne a nata

Aumentando a devoção.

 

Nasce Raimundo Nonato

Escravo, vaqueiro e santo,

Na Fazenda Mulundus,

O seu prestígio era tanto

Que até hoje a romaria

Seu grande prestígio guia

Pessoas de todo canto.

 

Mil oitocentos e cinco

Foi criada a freguesia

Da região do Iguará

O povo também queria;

Mil oitocentos vinte três

Vou contar mais uma vez

João Ferreira Couto ria...

 

 Do apelido recebido

Na adesão do Maranhão.

Em mais dez anos teriam

A grande consagração,

Na sede Manga Iguará

Que vila por fim será

Recebida com emoção.

 

 A Guerra da Balaiada

Tendo à frente um vaqueiro,

Eclode em Manga Iguará,

Raimundo Gomes certeiro

Viu a guerra durar anos!

O que não estava em seus planos

Morrer mais de um companheiro.

 

Oitocentos quarenta e um

Foi o Duque de Caxias Pacificar o Estado.

Se fosse tu que farias?

Antonio Ferreira Coelho

 Reúne com seu conselho

Pra resolver o que queria.

 

 Em um, oito, quatro cinco

Leva lá pra Vargem Grande

Sede da Manga Guará,

A ideia não se expande;

A comarca do Iguará

que era não mais será,

ganhará um novo estande.

 

Recebeu no seu batismo

Nome de Nina Rodrigues

profissional de muitas faces,

mesmo que tu não ligues;

perfeição em muitas áreas

que achasse prioritárias,

se quiser, vá, averigues!

 

 Julho de dois mil dezenove.

Criação da Academia

Vargem-Grandense de Letras

Mas, leva em companhia

O consórcio Iguaraense

Sou itapecuruense

 Escrever, minha mania!

 

Feliz aniversário Academia Vargem Grandense de Letras

 Benedita Azevedo

                               

sexta-feira, 12 de julho de 2024

PÚCARO LITERARIO IV


                                               O Poeta e a história

*Gabriela Santana

Eis que chega o IV volume  do Púcaro Literário, livro coletivo e colaborativo idealizado no ano de 2017 por Jucey Santana, que com seu costumeiro entusiasmo e capacidade de convencimento, convidou o amigo João Carlos Pimentel Cantanhede para organizarem um livro que oportunizasse espaço para escritores iniciantes e ao mesmo tempo agregasse literatos já cristalizados. Na verdade, esse livro iria tornar tangível aquilo que Jucey já fazia no seu blogger http://juceysantana.blogspot.com/, espaço web criado por ela em 2015, no qual publica produções literárias de escritores, independente de idade, estilo ou qualquer outra possibilidade de classificação.

Após algumas conversas e ideias, Jucey e João Carlos resolveram batizar de Púcaro, a sua obra em germinação, título este, em alusão ao antigo nome de Itapecuru, “Itapucuru” que em tupi guarani significa, “Púcaro de Pedra”. E assim nasceu o Púcaro Literário, em 2017.

A primeira edição (2017) com temática livre contou com a participação de 30 coautores, com produções em poesia, conto, crônica e textos de pesquisa histórica. Foi uma obra que propiciou ao leitor conhecer a literatura contemporânea itapecuruense, bem como a alguns aspectos dessa histórica cidade maranhense, e ainda, promover intercâmbio de ideias e congregação cultural do Estado.

Com o êxito do primeiro volume, no ano seguinte foi publicado o segundo, Púcaro,  com a temática: Os 200 anos da Fundação da Vila de Itapecuru Mirim (1818-2018), data relevante, mas completamente esquecida pelos itapecuruenses. O Púcaro II (2018) teve 35 participantes, incluindo escritores de outras academias do Maranhão. Nesse ano, foi lançada em Itapecuru Mirim a Festa Literária de Itapecuru (FLIM).

O Púcaro III (2021) ganhou muitas adesões de escritores maranhenses ligados a várias instituições literárias, totalizando 65 coautores, com o tema chamativo, Protagonismo feminino, em referência ao sesquicentenário da poeta Mariana Luz, importante escritora e professora itapecuruense. 

O Púcaro IV, ressalta as homenagens ao bicentenário do poeta Gonçalves Dias e perpetua a memória do bicentenário da Adesão do Maranhão à Independência do Brasil, com o tema, “O poeta e a história”.

Além das duas temáticas históricas, os organizadores do Púcaro, decidiram homenagear um (a) escritor (a) em vida, algo significativo para os literatos, que normalmente só recebem homenagens póstumas. Ou nem isso. Visto que a maioria acaba simplesmente sendo esquecida paulatinamente. A homenageada deste IV Púcaro é a a escritora itapecuruense Benedita Azevedo.

Assinam a citada  obra, 80 escritores de várias cidades do Maranhão e de outros estados brasileiros, que homenageiam o ilustre poeta caxiense, com textos criativos e inéditos, bem como sobre a Adesão do Maranhão à Independência do Brasil.

O conceito central deste projeto, além de ressaltar os escritores maranhenses, dando publicidade e relevância às suas produções, é a imersão em temas do passado e da contemporaneidade para que não sejam esquecidos.

Diante disso, o Púcaro Literário cumpre seu papel de agente mobilizador e fomentador de novas ideias, por meio de um trabalho coletivo de resgate histórico, colaboração e união de escritores para registro de produções nos mais diversos gêneros literários.

O presente projeto, apresenta-se de forma independente, com o apoio da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes e outras Academias de Letras do Estado do Maranhão, que sempre participaram do projeto.

Com a materialização deste IV volume do Púcaro Literário, fica confirmada a força deste projeto realizado colaborativamente e consolidado pelo esforço de todos, como um trabalho sério e relevante para a literatura maranhense.

Por fim, quero deixar aqui os nossos parabéns a todos que participam desta significativa obra literária.

                                                       

* Gabriela Santana . 

Escritora e pesquisadora maranhense

 

    Capa do Púcaro Literário IV

 

terça-feira, 9 de julho de 2024

MANFREDO VIANA

                                                    Um dos pioneiros da Educação de Itapecurun Mirim

                                                                                                                       Jucey Santana

   Manfredo Viana

        O professor Manfredo Viana nasceu em Luís (MA) em 25 de setembro de 1891. Era filho de imigrante português com  Raimunda Póvoas remanescente de escravos.  Estudou em escolas públicas e desde muito cedo demonstrou muito entusiasmo pelo saber, seus pais o internaram no seminário para seguir a carreira religiosa. No Seminário Manfredo Viana teve a oportunidade de aperfeiçoar os seus conhecimentos na língua portuguesa e outros idiomas como o francês, espanhol e latim.        Também aperfeiçoou a arte da oratória que dominava com maestria.  Não sendo dotado de vocação cursar o seminário maior,  pediu dispensa  por volta de 1910.

Como poeta e orador passou a transitar com muita desenvoltura nos meios intelectuais que fervilhava  no início do século, sendo cortejado pelas agremiações literárias de então.

Em 1913 prestou concurso para praticante de carteiro de 2ª classe e enquanto esperava o resultado começou a lecionar como professor temporário em  escolas particulares. 

Em 1914 passou a fazer parte da Escola Literária Gonçalves Dias, se tornando orador oficial da instituição literária estudantil (Pacotilha, 18.10.1914).

Em março de 1915 casou-se em São Luís com a professora itapecuruense Adalgiza Nogueira da Cruz e no mesmo ano ambos são contratados como professores para Escola Mista de Barreirinhas.  Em 1918 Manfredo Viana é remanejado para a cidade de Itapecuru Mirim para dirigir a Escola do sexo masculino, por portaria do governador Antônio Brício de Araújo ( O Jornal, 27.2.1918).

Passou a ser colaborador correspondente em Itapecuru Mirim, da renomada “Revista Maranhense” órgão literário estadual.  Sob a direção de Manfredo Viana, a agencia da Revista de Itapecuru ocupou o 3º lugar em distribuição, precedidas somente das agências do Anil e da cidade de Grajaú, (Pacotilha, 11.5.1920).

Em 1921 por determinação governamental retorna a Barreirinhas, porém por pouco tempo.

De volta a Itapecuru Mirim fica à disposição da Prefeitura Municipal, na escola local juntamente com a professora Zulmira Fonseca. Em 1926, Manfredo Viana     foi transferido para a cidade de Guimarães,  na localidade de Cedral   durante seis anos.

 Em agosto de 1933 Manfredo Viana  foi transferidos para a cidade de Itapecuru Mirim, (Diário Oficial, 3.8.1933).

Foi colaborador do jornal Correio do Nordeste de propriedade do amigo itapecuruense Zuzu Nahuz. Apesar de nunca ter almejado ser político, colaborou com muitos políticos escrevendo discursos e orientado  na gramática e na oratória.

Na cidade de Itapecuru Mirim, ensinou durante 31 anos.  Em sua casa fundou a Escola Santo Expedito que era dirigida pela esposa. Lecionou também em Outeiro dos Nogueiras, Areias (Santa Rita) e  Cantanhede tendo se tornado  muito querido e popular naquela região.

Manfredo e Adalgiza tiveram 6 filhos:  Conceição de Maria, Expedito, Maria Jose, Robispierre, Aurino e Donatila. Pela Lei nº 72 de 11.10.1950, foi aposentado pelo município de Itapecuru Mirim.

Manfredo Viana deu importante contribuição à educação maranhense, na primeira metade do século vinte. Era um homem reservado, respeitado e admirado pela sua inteligência.  É patrono da cadeira nº 13 da  Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes.

 Faleceu em 29 de março de 1969, aos 78 anos.

 

Escritura de Patrimônio da Vila de Itapecuru Mirim

                                                                    15 de outubro de 1818

Escritura de Obrigação e Patrimônio que faz o Brigadeiro José Gonçalves da Silva para a Vila de Sua Majestade houve por bem mandar criar nesta povoação do Itapecuru-Mirim, como abaixo declara:

- Saibam quanto este Público Instrumento de Escritura de Obrigação e Patrimônio, Cessão e Traspasso ou como o direito melhor  nome tenha e disser-se possa, virem que sendo no Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de Mil Oitocentos e Dezoito, aos quinze dias do mês de outubro do dito ano, nesta povoação de Itapecuru-Mirim, em meu escritório, foi presente o Brigadeiro José Gonçalves da Silva, por seu bastante Procurador Antônio Gonçalves Machado, pela Procuração que apresentou e adiante vai lançada como parte deste instrumento e que reconheço ser o próprio de que trato e faço menção, do que dou fé. E logo pelo mesmo Procurador foi dito em minha presença e das testemunhas adiante mencionadas, e assinadas, que seu  Constituinte, o referido Brigadeiro Jose Gonçalves da Silva, sendo obrigado a comprar as terras necessárias para se verificar nesta Povoação a Vila que deve fundar pela Mercê que lhe faz Sua Majestade, como é expresso na Régia Provisão de vinte sete de novembro de mil oitocentos e dezessete, que foi expedida em consequência do decreto de 14 de junho do dito ano e Despachos da Mesa do Desembargo do Paço, de dezessete de julho e vinte e quatro de novembro do mesmo ano, tem com efeito o referido seu Constituinte comprado as terras necessárias para a Vila que deve fundar nesta Povoação, como consta das Escrituras de Compra das terras que apresentou, a saber:

- Oitocentos e noventa e três braças e três quartos de frente, na beira-rio Itapecuru, principiando do Pau de Arara, testadas dos herdeiros José Antônio de São Paio, rio-abaixo, até encontrar as terras de Manuel Antônio Martins, com mil e quinhentas braças de fundo, que foram compradas a José Pereira de Sousa, e seiscentas e cinquenta braças de frente, na mesma beira-rio, principiando no referido Pau de Arara, rio acima, até a boca do Igarapé que fica junto à Rampa e Porto desta Povoação, com uma légua de fundo ou o que na verdade se achar, tendo pelo mesmo fundo setecentas e cinquenta e cinco braças de largura até se encontrar com uma porção de terras, digo, de terra que pertence a Manuel Alves Viana,   que foram compradas aos mesmos herdeiros do referido José Antônio de São Paio, e  que em toda a terra mencionada constituía o dito Brigadeiro, o Patrimônio da Vila de que se trata, para que, desde já, fazia pura e irrevogável Cessão e Traspasso, demitia de si toda a posse e domínio da mesma terra, que fica vinculada para sempre à dita Vila, debaixo da Inspeção da Câmara da mesma Vila, ficando livre e sem prescrição alguma de foro todo o terreno em que se acha fundada a mesma Povoação, com seiscentas e cincoenta braças de frente na beira-rio, principiando do Igarapé da Rampa do Porto desta Povoação, rio-abaixo, até o Riacho do Pau de Arara, com trezentas braças de fundo, atendendo as despesas com que os moradores da mesma Povoação, com licença do antepossuidor, abriram as ruas e tem feito à sua custa as casas e edifícios que acham em grande número e que todos os dias mais se vão aumentando, de sorte que pelas suas proporções e situação local vai a ser uma das Vilas notáveis desta Capitania, concedendo a Câmara, gratuitamente, os chãos que ainda se acharem devolutos,  dentro do referido terreno, a quaisquer pessoas que nos mesmos chãos pretenderem edificar, procedendo à sua arrumação, e toda a mais terra deste Patrimônio fica livre a mesma Câmara, para aforar como lhe for mais conveniente, aplicando os rendimentos para as suas despesas e não duvida o dito Procurador, por seu Constituinte, que a  Câmara tem posse Real e Civil e Natural das terras mencionadas , ele há pois que, desde já, ele há por empossada a mesma Câmara e para que não haja dúvidas e contestações para o futuro, passa também a demarcar à sua custa  as ditas terras para a mesma Vila, em observância da Ordem Régia  no principio declarada, e se obriga o dito Brigadeiro, seu Constituinte, por si e seus herdeiros, fazer esta Escritura firme e valiosa e de paz para sempre, sob cargo de seus bens.

Em fé e testemunho da verdade, assim o deu e se obrigou, ouviu ler e foi contente. – E eu, Tabelião, assisto a presente Escritura pela parte ausente a que tocar possa e fiz este  Instrumento em virtude do Despacho do Doutor Desembargador Ouvidor e Corregedor da Comarca, Francisco de Paula Pereira Duarte, que adiante vai copiado. Testemunhas que foram presentes: o Escrivão da Provedoria Marcelino Jose de Azevedo e o Escrivão da Ouvidoria e Correição José Joaquim da Silva Baima que, com o Procurador do referido Brigadeiro José Gonçalves da Silva,  que aqui assinaram e todos são conhecidos de mim – Germano Lourenço Figueira, Tabelião que o escrevi e assinei em público e raso. Estava o sinal público. Em testemunha da verdade, - Germano Lourenço Figueira – Antônio Gonçalves Machado – Marcelino Jose  de Azevedo – Joaquim José da Silva Baima.

 

Procuração de José Gonçalves, para ser representado na fundação de Itapecuru

JOSÉ GONÇALVES DA SILVA

                                    Fundador de Itapecuru Mirim


José Gonçalves da Silva, fundador da Vila de Itapecuru Mirim, foi um negociante muito bem sucedido. Ele vendia suas mercadorias por preços abaixo dos concorrentes, monopolizando todo o comércio, razão da alcunha de   Barateiro. Foi construtor naval,  importador e exportador, coronel de Milícias, Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo, fidalgo da Casa Real, Brigadeiro, governador da Fortaleza de São Marcos, Senhor do Morgado da Quinta das Laranjeiras e Alcaide-Mor do Itapecuru-Mirim.

José Gonçalves era filho de Gonçalo Fernandes da Silva e Paula Ribeiro Gonçalves Ramalho, nasceu em Portugal em data  incerta, entre 1752 e 1756, segundo Milson Coutinho, no livro, Fidalgos e Barões e chegou ao Maranhão em 1777. Prestou muitos favores ao Reino e ao Maranhão. 

Sesmeiro e Negociante.

Em 29 de janeiro de 1787 obteve confirmação régia de sua primeira sesmaria, através do Governador José Teles da Silva, no lugar Cabelo da Velha em Guimarães. Enquanto sua imensa escravaria cultivava arroz, algodão e mandioca  em Cururupu, José Gonçalves, entrou no negócio de  beneficiamento de madeira para exportação requerendo   uma faixa de terra desabitada na Praia Grande para o transporte da sua mercadoria; o seu pedido foi deferido por D. Antônio  Noronha. Sua fortuna crescia sem parar.

 Em 1797,  já muito rico e vaidoso, começou a cortejar os soberanos de Lisboa para conquistar as famosas mercês reais. Enviou a Portugal, na época em guerra com a Espanha, na galera União e no Bergantim Falcão de sua propriedade 1.080 sacas de arroz, e uma boa soma em dinheiro. A rainha Maria I por meio do ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho, enviou-lhe   elogios conferindo-lhe o Hábito de Cavaleiro da Ordem de Cristo,  no Palácio de Queluz, em Lisboa, em 6 de agosto de 1797.

José Gonçalves emprestava elevadas somas ao governo maranhense e fazia grandes oferecimentos, mas por todos foi compensado com título de nobreza e vantagens por  desatar os cordões de sua bolsa”.

Cargos Públicos.

            José Teles da Silva, o novo governador, caíra nas suas boas graças que o nomeou Tesoureiro da Fazenda Real, Defuntos e Ausentes da Capitania, cargo que ocupou por doze anos. Antes, fora Juiz de Fora interino de 1789 a 1791. Ele nunca quis ser vereador, mas elegia todos os seus amigos. Sob a proteção dos governadores o Barateiro saía-se vitorioso em quase todas as suas lides.

Construtor de navios.

            Não havia limites para os ganhos de José Gonçalves. Era um empresário ousado. Com operários e engenheiros da Europa, montou no Maranhão um gigantesco estaleiro naval de onde saíram navios que cruzavam o Atlântico.   Era proprietário do Bergantim Amizade, da Sumaca Madre de Deus e do Navio Boa União, além de ser sócio com outros proprietários de navios mercantes.  Em 1797 presenteou o General Governador do Maranhão D. Fernando Antônio de Noronha com dois barcos (sumacas), fabricados em seu estaleiro. O governador enviou-lhe carta chamando-o de “benemérito vassalo e que merece proteção por um procedimento, além de estimável e louvável”.

            Suas exportações no ano de 1807 chegavam às somas altíssimas em  arroz,   vaquetas (couro curtido), goma, sola e farinha de mandioca.  Naquele ano  pagou  só de impostos para  a Fazenda Real 80 mil cruzados. Importava milhares de escravos da África, que revendia aos fazendeiros. Financiou a abertura da Cachoeira do Munim, o armamento, fardamento e alojamento da tropa de Parnaguá, no Piauí, onde também era proprietário de terras e mantinha negócios ativos. Assim, como no Pará, para onde seus barcos partiam carregados.

            Instalou na Capital uma empresa de salga de peixes.  E edificou no Centro da cidade, sobrados de um, dois e mais andares, com mão-de-obra  da Europa.

Grande benfeitor do Maranhão

Piedoso com os órfãos, infelizes e doentes, ajudou a Província do Pará e socorreu o Estado do Ceará em uma grande seca no inicio do século, enviando navios carregados de farinha, arroz e donativos ao Governo. Durante uma  epidemia de varíola  no Maranhão,  tomou  a iniciativa de trazer da Bahia  “o pus antídoto” para  o tratamento. Doava  farinha de mandioca para os pobres da Capital, e quando um corsário francês tentou invadir São Luís, armou dois de seus navios e  os entregou ao capitão-de-mar-e-guerra, Pio dos Santos.  Também patrocinava as igrejas doando alfaias e  acessórios litúrgicos.

Foi provedor e benfeitor da Santa Casa da Misericórdia. No seu testamento deixou uma vultosa quantia aquela Irmandade e mereceu um retrato em destaque no hospital com a inscrição em latim: “Sempre te seremos gratos pelos largos donativos que de tua mão receberam em alimentos e esmolas os pobres, os enfermos e os infelizes”.

As Mercês.

Vaidoso e benquisto desejava títulos que lhe desse mais visibilidade na sociedade. Requereu à Coroa Lusa, o posto de Coronel de Milícias, que lhe foi negado porque era um título só para militares. Inconformado, Barateiro foi a Portugal. Ao retornar, já estava certa a sua nomeação, como o foi de fato.    Ele queria mais, pediu para ser governador da Fortaleza de São Marcos. Foi nomeado;  pediu o direito de usar a farda correspondente, com  galões dourados e comendas; foi atendido. Enquanto isso, seus navios enchiam os armazéns do Reino com   arroz, farinha, dinheiro, tudo a titulo gratuito. 

Ele almejava títulos perpétuos que gravassem seu nome à sua posteridade. Requereu a concessão de um Morgado, com vínculo familiar para os seus herdeiros.

 Construiu a primeira Quinta no Maranhão, na Rua Grande, em um vasto terreno todo murado, onde plantou muitas  árvores frutíferas, do Maranhão e da  Europa, edificou casas  em estilo colonial, obras de arte, chafarizes, banheiros públicos, canteiros artísticos e  construiu uma capela. O local passou a ser centro de visitação pública,  denominada  Quinta das Laranjeiras onde foi-lhe concedido o Morgado em 20 de junho de 1812, ficando o título de “Senhor do Morgado das Laranjeiras”, em atenção à sua riqueza. A capela de São José das Laranjeiras, recebeu a bênção oficial  em 19 de agosto de 1816. É a famosa Quinta do Barão, onde funcionava Colégio dos irmãos Maristas, com abrangência em todo atual  Apicum.

         Alcaide-Mor de Itapecuru Mirim

 Talvez apreciasse as histórias dos cavaleiros andantes, novelas medievais ou dos senhores feudais e para dar vazão à própria vaidade, José Gonçalves resolveu ser Alcaide-Mor. O título já estava em desuso, porém o rei tinha a prerrogativa da outorga. As condições para conseguir  seria fundar  uma vila ou uma fortaleza para ter o domínio e receber o  título perpétuo.

O Brigadeiro pediu  a alcaidaria   de Guimarães, onde era dono de quase tudo. Não conseguiu. Ele não se conformou; queria ser Alcaide-Mor de qualquer maneira. Enviou pedido ao Rei (claro que com muitos presentes), para ser Senhor das terras de Itapecuru, povoação em plena expansão graças à prosperidade  dos proprietários de terras, engenhos de cana, criadores de gado, na sua maioria  amigos e parceiros de negócios de José Gonçalves.

Em 7 de novembro de 1817 o Rei D. João VI enviou Provisão Régia autorizando a fundação da Vila de Itapecuru Mirim sob as seguintes condições: que fossem adquiridas  as terras para a criação da Vila, o estabelecimento  de no mínimo 30 casais brancos, a construção da Casa da Câmara, da Cadeia Pública e  oficinas  para  fundar a vila. Segundo César Marques em Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão, “Em 20 de outubro de 1818, presentes o Desembargador, Ouvidor e Corregedor da Comarca de São Luís do Maranhão, Francisco de Paula Pereira Duarte, o Alcaide-Mor José Gonçalves da Silva, representado por seu procurador Antônio Gonçalves Machado, o clero, a nobreza e o povo, levantou-se o pelourinho, deram-se vivas do estilo, criaram-se por eleição de Pelouro, dois juízes ordinários, um juiz de órfãos, vereadores e mais oficinas instalando-se assim solenemente a Vila de Itapecuru-Mirim”.

A Vila foi fundada, porém José Gonçalves  não cumpriu as exigências da Provisão Régia, que era a construção da sede de governo na Vila. Ele só  doou as terras e as legalizações de praxe. O rei não aprovou o ato, porém   desculpou o ouvidor  por ter antecipado o evento, dando um  prazo de dois anos para atendê-las, sob pena de José Gonçalves da Silva perder as regalias do título de Alcaide-Mor. Infelizmente ele faleceu três anos depois sem cumprir o acordo na sua totalidade e seus herdeiros não honraram os compromissos assumidos.

Vale registrar que o auto da fundação da Vila de Itapecuru Mirim, segundo Luís Antônio Vieira da Silva em História da Independência da Província do Maranhão,  ocorreu  na residência do próprio  Ouvidor Francisco de Paula,  que tinha interesse pessoal na fundação da Vila,  na qualidade de esposo de Carlota Joaquina Belfort,  neta do fidalgo Lourenço Belfort, herdeira de terras  na região, justificando  o interesse próprio,  do ouvidor,  em   elevar a freguesia ao status de Vila  sem cumprir as determinações reais.

Assinaram como testemunhas 35 pessoas da elite dos latifúndios da Ribeira de Itapecuru.

José Gonçalves da Silva faleceu  em 21 de novembro de 1821 com o título de   Alcaide-Mor de Itapecuru Mirim. Seu corpo foi sepultado na capela da Quinta das Laranjeiras. 

O testamento

José Gonçalves da Silva nunca se casou, mas reconheceu os seus três filhos deixando-lhes uma grande fortuna. Foi benevolente com amigos, afilhados, parentes, sócios, fâmulos, compadres, escolas, igrejas e  a Santa Casa de Misericórdia. O Morgado e a Alcaidaria ficaram com a primogênita Luísa Maria do Espirito Santo Silva Gama, baronesa de Bagé esposa  Paulo José da Silva Gama, o Barão de Bagé.

Escritura de Patrimônio da Vila de Itapecuru Mirim

15 de outubro de 1818

- Escritura de Obrigação e Patrimônio que faz o Brigadeiro José Gonçalves da Silva para a Vila de Sua Majestade houve por bem mandar criar nesta povoação do Itapecuru-Mirim, como abaixo declara:

Saibam quanto este Público Instrumento de Escritura de Obrigação e Patrimônio, Cessão e Traspasso ou como o direito melhor  nome tenha e disser-se possa, virem que sendo no Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de Mil Oitocentos e Dezoito, aos quinze dias do mês de outubro do dito ano, nesta povoação de Itapecuru-Mirim, em meu escritório, foi presente o Brigadeiro José Gonçalves da Silva, por seu bastante Procurador Antônio Gonçalves Machado, pela Procuração que apresentou e adiante vai lançada como parte deste instrumento e que reconheço ser o próprio de que trato e faço menção, do que dou fé. E logo pelo mesmo Procurador foi dito em minha presença e das testemunhas adiante mencionadas, e assinadas, que seu  Constituinte, o referido Brigadeiro Jose Gonçalves da Silva, sendo obrigado a comprar as terras necessárias para se verificar nesta Povoação a Vila que deve fundar pela Mercê que lhe faz Sua Majestade, como é expresso na Régia Provisão de vinte sete de novembro de mil oitocentos e dezessete, que foi expedida em consequência do decreto de 14 de junho do dito ano e Despachos da Mesa do Desembargo do Paço, de dezessete de julho e vinte e quatro de novembro do mesmo ano, tem com efeito o referido seu Constituinte comprado as terras necessárias para a Vila que deve fundar nesta Povoação, como consta das Escrituras de Compra das terras que apresentou, a saber:

- Oitocentos e noventa e três braças e três quartos de frente, na beira-rio Itapecuru, principiando do Pau de Arara, testadas dos herdeiros José Antônio de São Paio, rio-abaixo, até encontrar as terras de Manuel Antônio Martins, com mil e quinhentas braças de fundo, que foram compradas a José Pereira de Sousa, e seiscentas e cinquenta braças de frente, na mesma beira-rio, principiando no referido Pau de Arara, rio acima, até a boca do Igarapé que fica junto à Rampa e Porto desta Povoação, com uma légua de fundo ou o que na verdade se achar, tendo pelo mesmo fundo setecentas e cinquenta e cinco braças de largura até se encontrar com uma porção de terras, digo, de terra que pertence a Manuel Alves Viana,   que foram compradas aos mesmos herdeiros do referido José Antônio de São Paio, e  que em toda a terra mencionada constituía o dito Brigadeiro, o Patrimônio da Vila de que se trata, para que, desde já, fazia pura e irrevogável Cessão e Traspasso, demitia de si toda a posse e domínio da mesma terra, que fica vinculada para sempre à dita Vila, debaixo da Inspeção da Câmara da mesma Vila, ficando livre e sem prescrição alguma de foro todo o terreno em que se acha fundada a mesma Povoação, com seiscentas e cincoenta braças de frente na beira-rio, principiando do Igarapé da Rampa do Porto desta Povoação, rio-abaixo, até o Riacho do Pau de Arara, com trezentas braças de fundo, atendendo as despesas com que os moradores da mesma Povoação, com licença do antepossuidor, abriram as ruas e tem feito à sua custa as casas e edifícios que acham em grande número e que todos os dias mais se vão aumentando, de sorte que pelas suas proporções e situação local vai a ser uma das Vilas notáveis desta Capitania, concedendo a Câmara, gratuitamente, os chãos que ainda se acharem devolutos,  dentro do referido terreno, a quaisquer pessoas que nos mesmos chãos pretenderem edificar, procedendo à sua arrumação, e toda a mais terra deste Patrimônio fica livre a mesma Câmara, para aforar como lhe for mais conveniente, aplicando os rendimentos para as suas despesas e não duvida o dito Procurador, por seu Constituinte, que a  Câmara tem posse Real e Civil e Natural das terras mencionadas , ele há pois que, desde já, ele há por empossada a mesma Câmara e para que não haja dúvidas e contestações para o futuro, passa também a demarcar à sua custa  as ditas terras para a mesma Vila, em observância da Ordem Régia  no principio declarada, e se obriga o dito Brigadeiro, seu Constituinte, por si e seus herdeiros, fazer esta Escritura firme e valiosa e de paz para sempre, sob cargo de seus bens.

Em fé e testemunho da verdade, assim o deu e se obrigou, ouviu ler e foi contente. – E eu, Tabelião, assisto a presente Escritura pela parte ausente a que tocar possa e fiz este  Instrumento em virtude do Despacho do Doutor Desembargador Ouvidor e Corregedor da Comarca, Francisco de Paula Pereira Duarte, que adiante vai copiado. Testemunhas que foram presentes: o Escrivão da Provedoria Marcelino Jose de Azevedo e o Escrivão da Ouvidoria e Correição José Joaquim da Silva Baima que, com o Procurador do referido Brigadeiro José Gonçalves da Silva,  que aqui assinaram e todos são conhecidos de mim – Germano Lourenço Figueira, Tabelião que o escrevi e assinei em público e raso. Estava o sinal público. Em testemunha da verdade, - Germano Lourenço Figueira – Antônio Gonçalves Machado – Marcelino Jose  de Azevedo – Joaquim José da Silva Baima.