*Paulo José de Oliveira
— Você já tentou colocar açúcar?
Perguntou quem nunca sentiu o gosto da minha amargura.
E eu percebi, mais uma vez,
que as pessoas oferecem receitas
quando tudo o que temos são feridas.
Cada um carrega sua própria xícara,
preparada com os grãos que a vida lhe deu.
Alguns aprenderam a adoçar tudo, outros
descobriram beleza no amargo,
e há aqueles que bebem o café frio,
não por escolha,
mas porque a vida os fez chegar tarde demais.
Ainda assim,
todo mundo parece saber exatamente
como o outro deveria tomar o seu.
“Esquece.”
“Segue em frente.”
“Não vale a pena sofrer.”
“Se eu fosse você...”
Mas não são.
E talvez seja aí que mora o erro.
Porque ninguém sente uma ausência
com o coração do outro.
Ninguém atravessa uma madrugada
com os pensamentos do outro.
Ninguém conhece a profundidade de uma dor
olhando apenas para a superfície dela.
Lembro de algo que
Fernando Pessoa escreveu certa vez:
“Cada um de nós é vários.”
E se já somos desconhecidos para nós mesmos,
como alguém poderia conhecer por completo
a tempestade que habita outro peito?
Talvez seja por isso que tantos conselhos falhem.
Não porque sejam maus.
Mas porque nascem de experiências alheias,
e toda dor possui um idioma próprio.
O que curou alguém
pode não curar você.
O que salvou uma história
pode destruir outra.
O que foi remédio numa vida
pode ser veneno em outra.
Ainda assim,
continuamos distribuindo certezas
como quem distribui café em uma mesa.
Sem perceber que algumas xícaras precisam de açúcar,
outras de silêncio.
Algumas precisam de companhia.
Outras apenas de tempo.
A famosa e sempre citada Clarice Lispector escreveu
que compreender é uma forma de amar.
E talvez seja isso.
Talvez o amor não esteja em dizer
ao outro como ele deve sentir.
Talvez esteja em sentar ao seu lado,
olhar sua xícara pela metade
e perguntar, com delicadeza:
“Café?”
Sem corrigir.
Sem julgar.
Sem oferecer respostas prontas.
Apenas ficando.
Porque às vezes,
o que mais cura uma alma cansada
não é alguém que sabe a solução.
É alguém que aceita dividir a mesa.
*Paulo José Santana de Oliveira, estudante, cronista e poeta, nasceu em São Luis (MA) em 11 de março de 1999. Filho de Fábio Nogueira de Oliveira e Gabriela Santos de Santana, estudou no Colégio Santa Teresa, é graduando do curso de Ciências Contábeis da UFMA. Seus textos carregados de sensibilidade onde extravasa seus sentimentos, são publicados regularmente no www.wattpad.com-user-Peraltajs, com o pseudônimo de Peraltajs. É coautor da obra, O Iguaraense, 175 anos de Vargem Grande (2020), organizada por Jucey Santana e Púcaro Literário IV (2024), organizado por Jucey Santana e João Carlos Pimentel Cantanhede. Também tem poemas publicados no Jornal de Itapecuru e no blog literário de Jucey Santana: http://juceysantana.blogspot. com/

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