sábado, 1 de abril de 2017

As Profecias de Seu Valério


Josemar Lima                                                                               série crônicas – ano IV/nº 40/2017
 
O Gênesis, primeiro livro da Bíblia, conta-nos os primórdios da história da salvação. Na Mesopotâmia, Abraão é chamado por Deus a seguir um novo caminho de vida. O livro abrange apenas quatro gerações da família de Abraão. À maneira de prefácio, a narração da origem do mundo e dos homens projeta a história da salvação num cenário universal e até cósmico. 

O Gênesis divide-se, portanto, em duas partes distintas e desiguais: as Origens e a História dos Patriarcas. 

As Origens tratam da criação do mundo, do jardim do Éden, da queda do homem pelo pecado original até a dispersão dos povos. Os homens corromperam-se cada vez mais. O castigo do pecado atingiu, no Dilúvio, proporções correspondentes à corrupção. 

A História dos Patriarcas divide-se, por sua vez, em três ciclos narrativos: Abraão, Isaac, Jacob e José. O ciclo de Abraão desenrola-se no âmbito geográfico de todo o Crescente Fértil, da Mesopotâmia ao Egito. A vida de Jacob é cheia de peripécias: atritos com o irmão Esaú e dificuldades de arranjar noiva em Harran. José nasce na Palestina, mas vai para o Egito em circunstâncias difíceis. Consegue singrar na terra dos faraós, chama a família para lá e ai morre.
Seu Valério era um homem simples, residia em uma casa de alvenaria, coberta de telhas, e que tinha até eira e beira, coisa só possível em residências de famílias ricas. Eram aquelas biqueiras emolduradas com dois níveis de telhas. A eira e beira vinham da herança dos pais. A casa, hoje não existe mais, localizava-se ali na Rua da Boiada, em frente ao casarão da família de Dona Graciete Cassas. Era carpinteiro, como o José da Bíblia, sendo que uma das salas, com duas portas para a rua, destinava-se à oficina. Não era um homem letrado, mas tinha muito gosto pela leitura, principalmente livros de autores consagrados. 

Dizia já ter lido Dom Quixote, clássico do espanhol Miguel de Cervantes; e até a Volta ao Mundo em Oitenta Dias, de autoria do fenomenal Júlio Verne. Sua grande frustação confessava aos amigos, era nunca ter tido a oportunidade de ler o Antigo Testamento da Bíblia Sagrada.
Conheci Seu Valério numa visita que o fizemos, eu e minha mãe, que buscava uma vaga de aprendiz de marceneiro quando eu tinha um pouco mais de dez anos. Naqueles tempos, além dos estudos formais era quase que uma obrigação ter uma profissão. Cheguei a frequentar a oficina por alguns meses e não me arrependo, pois aprendi pelos menos manusear as ferramentas de marcenaria. 

Há uma diferença entre marceneiro e carpinteiro. O marceneiro trabalha na confecção de móveis e utensílios, transformando a madeira em um objeto útil ou decorativo, enquanto o carpinteiro ocupa-se mais no preparo de estruturas de madeira nobres, especialmente para telhados. 

O encontramos em sua oficina em horário de trabalho. Tinha um pouco mais de sessenta anos, moreno claro, estatura baixa, cabelos lisos e penteados para trás. Num canto da oficina pude observar uma mesinha quadrada, coberta com uma toalha branca, com franjas rendadas, com vários livros empilhados sobre ela. 

Pouco meses depois mudamos de casa e fomos morar no Caminho Grande e tive que deixar o aprendizado de marcenaria. A distância e a falta de uma bicicleta comprometiam a chagada à escola em tempo hábil. 

Voltei a ouvir falar de Seu Valério muito tempo depois e a informação era de que o velho marceneiro estava com a memória comprometida desde que começou a ler o Velho Testamento da Bíblia Sagrada, graças a visita que recebera de um mercador italiano que trazia para venda um produto irrecusável para ele: Era um volume do Livro dos Livros, com 1248 páginas, contento o novo e o velho testamentos, muitas ilustrações, encadernado em uma capa dura e quase que totalmente negra. A exceção era um pequeno quadrilátero vermelho no centro da capa principal, onde se destacava uma cruz de tonalidade avermelhada. 

As informações que corriam eram de que ele, como natural, iniciara a leitura pelo Livro de Gênesis e que tivera muita dificuldade de entendimento, até pelas razões que me referenciei no início desta crônica. Mas o pior é que ele não largou mais a leitura do livro, nem pra trabalhar e nem para alimentar-se. Em pouco tempo tinha a aparência de um velho patriarca, como Abraão. A barba e os cabelos cresceram e, inexplicavelmente, embranqueceram rapidamente. 

Um dos capítulos de Gênesis causou-lhe profunda reflexão: Foi quando o Senhor reconheceu que a maldade dos homens era grande na terra, que todos os seus pensamentos e desejos tendiam unicamente para o mal. O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem sobre a terra e o Seu coração sofreu amargamente. 

“E o Senhor disse: Eliminarei na face da terra o homem que Eu criei e, juntamente com o homem, os animais domésticos, os répteis e as aves dos céus, pois estou arrependido de os ter feitos”. Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor. 

E aí entram o personagem e a história que mais tiveram influência sobre a mente já convalescente de Seu Valério: Noé, sua Arca e o Dilúvio! 

Em seus devaneios, Seu Valério entendia que a chegada daquele livro, trazido por um indivíduo de fala enrolada e, principalmente o desejo de Deus em punir a corrupção existente na terra, era um aviso divino para ele. Ele teria sido escolhido como o novo Noé! 

E, nos seus sonhos, ele dizia ter ouvido de Deus que um novo Dilúvio se abateria em breve sobre terra. As águas do Rio Itapecuru se alevantariam repentinamente, cobririam a torre da igreja, e só a cimeira do Morro do Diogo, lá prós lado do povoado Cigana, ficaria livre das águas. 

Apressou-se, então, em construir na parte mais alta do citado morro uma fortaleza de pedras, conforme sonhara. Todos os dias saia de casa pela madrugada, com sua volumosa Bíblia debaixo do braço e lá se ia, a pé, para o Morro do Diogo  cumprir a missão que Deus lhe confiara. 

Não tenho informações se a casa de pedra chegou a ser concluída! Soube, entretanto, do falecimento de Seu Valério sem que sua profecia tivesse se concretizado. 

Como o tempo de Deus é diferente do tempo dos homens, quem sabe o Senhor esperou a chegada da Operação Lava Jato para ver quanta maldade os homens de colarinho branco são capazes de fazer com os seus semelhantes sem colarinho, para mais uma vez arrepender-se de tê-los criado e autorizar o Segundo Dilúvio. 

E prá Ele, se tudo foi assim mesmo, é simplesmente fácil – Basta inverter a frase que pronunciou no início de tudo: “E desfaça-se a Luz! ” 

          

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